Especialista explica por que alguns remédios podem causar pancreatite

Em entrevista à CNN Brasil, a endocrinologista Andressa Heimbecher detalha os motivos que levam alguns medicamentos a provocar a doença

André Nicolau, da CNN Brasil
Drug prescription for treatment medication. Pharmaceutical medicament. Pharmacy theme, capsule pills with medicine antibiotic in packages.  • Iuliia Bondar/Getty Images
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A pancreatite é definida como a inflamação das células do pâncreas e, por extensão, do próprio órgão. Entre suas causas mais frequentes, destaca-se a presença de cálculos biliares: quando pedras alojadas na vesícula se deslocam, elas podem obstruir o ducto comum que conecta o pâncreas e a vesícula ao intestino, desencadeando o processo inflamatório.  

Outro fator extremamente comum, embora muitas vezes subestimado, é o consumo excessivo de álcool. Além dos hábitos de vida e fatores anatômicos, alguns medicamentos podem induzir à pancreatite por diferentes mecanismos. Mas por que isso acontece?  

Riscos causados pelos remédios?

Segundo a endocrinologista Andressa Heimbecher, o principal motivo para que isso aconteça é a toxicidade direta da molécula sobre as células pancreáticas, um efeito que pode ocorrer com certos antibióticos, anti-inflamatórios e quimioterápicos. “Embora essa reação seja considerada rara e imprevisível, ela compõe o quadro de riscos farmacológicos”, alerta a especialista. 

Outra via indireta, porém perigosa, é a elevação severa dos triglicerídeos. De acordo com a especialista, quando esses níveis ultrapassam a marca de 800 a 1000 mg/dL, o risco de inflamação torna-se real. “Diversas classes de fármacos podem provocar esse aumento metabólico, como anticoncepcionais, terapias de reposição hormonal, o tamoxifeno (usado no tratamento do câncer de mama), corticoides, alguns betabloqueadores, diuréticos e a isotretinoína (Roacutan). No campo da saúde mental, antipsicóticos como olanzapina, quetiapina e risperidona também podem elevar o peso e os níveis lipídicos, assim como certos antirretrovirais utilizados no tratamento do HIV”, detalha Andresssa.  

Existem ainda substâncias que interferem na motilidade intestinal e na pressão do ducto pancreático, como os opioides e os anticolinérgicos (antiespasmódicos). Ao alterarem o funcionamento do sistema digestivo, essas medicações podem causar a retenção das secreções pancreáticas, favorecendo a inflamação, embora este seja um cenário clínico mais raro. 

E as canetas emagrecedoras?  

Por fim, Andressa enfatiza que é necessário esclarecer o debate atual sobre as chamadas "canetas emagrecedoras". Embora os primeiros estudos tenham sugerido uma possível ligação com a pancreatite, análises clínicas mais robustas e de longo prazo não confirmaram uma relação de causalidade.  

O que se observou, segundo ela, foi que pacientes com diabetes — que já possuem um risco inerente maior de pancreatite devido a alterações metabólicas — eram os principais usuários dessas medicações.  

“Portanto, o alerta contido em bula permanece por precaução, mas o risco real é considerado ínfimo quando comparado, por exemplo, ao impacto do álcool. Enquanto a mídia muitas vezes foca no risco hipotético das medicações modernas, o perigo real e imediato da pancreatite alcoólica, muito mais prevalente, merece uma atenção muito maior da população”, finaliza.