Especialistas correm para elaborar normas para conter surto de hantavírus
Casos iniciais da doença surgiram em viajantes de um cruzeiro na América Latina

Enquanto o navio de cruzeiro atingido por um surto de hantavírus navega em direção a Tenerife, funcionários da Organização Mundial da Saúde correm para elaborar orientações passo a passo sobre o que deve acontecer com os quase 150 passageiros quando finalmente chegarem em terra no domingo.
O surto de hantavírus – que matou três pessoas entre pelo menos oito casos suspeitos ou confirmados de infecção – é o primeiro já registrado em um navio de cruzeiro, portanto, novos protocolos são necessários.
Meia dúzia de funcionários atuais e antigos da OMS e especialistas em hantavírus disseram que o surto poderia ser controlado adaptando-se as medidas padrão de saúde pública, como isolar os passageiros doentes ou aqueles que possam ter tido contato com eles. Nenhum dos passageiros do navio apresenta sintomas, segundo a empresa operadora da embarcação.
Dicas da Argentina
As autoridades também estão buscando informações na Argentina, onde um surto anterior da variante dos Andes do vírus, da mesma cepa presente no navio, foi controlado em 2019.
“Se seguirmos as medidas de saúde pública e as lições que aprendemos com a Argentina... podemos quebrar essa cadeia de transmissão. Isso não precisa se tornar uma grande epidemia”, disse Abdi Rahman Mahamud, diretor do departamento de coordenação de alerta e resposta da OMS.
Ele afirmou que o foco era o isolamento de pessoas doentes e o monitoramento e quarentena de outros passageiros, sujeitos às decisões do governo nacional.
A OMS também poderá recomendar que algumas pessoas com ligações ao surto meçam a temperatura diariamente durante pelo menos 42 dias, uma vez que a cepa dos Andes tem um longo período de incubação, afirmou Anais Legand, responsável técnica da OMS para ameaças virais, numa conferência de imprensa online na sexta-feira.
Ela acrescentou que as autoridades nacionais também podem ser solicitadas a estabelecer contato regular com essas pessoas e fornecer-lhes um número de telefone para ligar caso se sintam indispostas.
A OMS informou que os passageiros estão sendo divididos em grupos de alto e baixo risco, com base em suas interações com viajantes doentes. O rastreamento de contatos também é fundamental para todos aqueles que já deixaram o navio.
Sabe-se que o hantavírus dos Andes se dissemina por contato próximo e prolongado, principalmente quando o paciente já apresenta sintomas. Essa informação se baseia, em grande parte, no único surto ocorrido na Argentina em 2018-19, no qual 34 pessoas foram infectadas e 11 morreram.
“Basicamente, aprendemos que, ao implementar medidas básicas de distanciamento social, que são muito simples — ficar em casa quando não estiver se sentindo bem —, a circulação do vírus diminuiu e o surto se extinguiu”, disse Gustavo Palacios, professor da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, nos Estados Unidos, originário da Argentina e coautor de um artigo fundamental sobre esse surto.
Ele e outros têm aconselhado a OMS sobre o surto desde 2 de maio, disse ele, acrescentando que espera que agora seja dada mais atenção aos riscos dos hantavírus, que podem ter taxas de mortalidade de até 50%.
Planos já em andamento ao redor do mundo
Alguns governos já estão fazendo planos: o governo do Reino Unido anunciou na manhã desta sexta-feira (8) que repatriaria seus cidadãos em um voo sob rígidas medidas de controle de infecção, e que os passageiros seriam então solicitados a se isolar por 45 dias, com testes conforme necessário.
Krutika Kuppalli, professora associada de medicina no Centro Médico da Universidade do Texas Southwestern, nos EUA, que anteriormente trabalhou em protocolos de mpox na OMS, disse que medidas poderiam ser tomadas com base em surtos anteriores.
“É o mesmo princípio que se aplica ao sarampo ou ao ebola. O rastreamento de contatos não muda”, disse ela. A OMS afirmou na noite de quinta-feira (7) que ainda estava finalizando as diretrizes.


