Estudo controverso de infecção intencional pelo coronavírus é divulgado

Pesquisa polêmica feita na Grã-Bretanha procura solucionar algumas questões sobre a Covid-19

Homem usando máscara passa em frente a ilustração do coronavírus em Oldham, no Reino Unido
Homem usando máscara passa em frente a ilustração do coronavírus em Oldham, no Reino Unido 03/08/2020 REUTERS/Phil Noble

Elmer Huertada CNN

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Um novo estudo polêmico feito na Grã-Bretanha procura resolver algumas questões sobre a Covid-19. A investigação, que apresentou dilemas éticos ao infectar deliberadamente adultos saudáveis ​​com o coronavírus, rendeu resultados esclarecedores de como a doença se comporta no corpo humano. Entre eles, a quantidade de vírus que infecta uma pessoa.

O doutor Elmer Huerta explica as descobertas nesta matéria.

Estudo infecta deliberadamente adultos saudáveis ​​com o coronavírus

Este estudo, chamado de “estudo do desafio humano”, e que já foi feito muitas vezes antes para doenças como cólera e febre tifóide, deu origem a um intenso debate ético. Isso porque, ao contrário das infecções acima mencionadas, que têm medicamentos que impedem uma infecção mais grave que pode levar à morte, a Covid-19 não tem tratamento conhecido.

Isso significava que se durante o experimento de infecção deliberada com o coronavírus algum voluntário adoecesse e morresse essa morte teria constituído uma enorme violação ética.

Outro problema é que, sabendo que uma proporção significativa de pessoas que pegaram a doença fica com sequelas, não seria justo que voluntários infectados intencionalmente tivessem sua saúde afetada por um tempo imprevisível.

Bem, apesar de todos esses problemas, o estudo foi realizado e suas conclusões interessantes foram publicadas na edição online da revista Nature Medicine em 31 de março.

O estudo incluiu 36 voluntários, com idades entre 18 e 29 anos, recrutados em março de 2021. Nenhum deles apresentava fatores de risco que pudessem levar a casos graves, como excesso de peso, problemas renais, no fígado, no coração, nos pulmões ou no sangue.

Obviamente, os participantes assinaram um extenso termo de consentimento livre e esclarecido, no qual exoneravam os pesquisadores de suas responsabilidades.

O processo de infecção

Todos os participantes foram infectados com uma gota de líquido contendo uma quantidade igual da cepa original do novo coronavírus, através de um pequeno tubo inserido no nariz.

Sem saber o que esperar, os pesquisadores conduziram o estudo em várias etapas. Na primeira, 10 participantes receberam o antiviral remdesivir após serem infectados.

Para reduzir suas chances de desenvolver Covid-19 grave, foram preparadas injeções com anticorpos monoclonais caso algum voluntário desenvolvesse sintomas mais severos.

De acordo com o relatório, o remdesivir era desnecessário e os anticorpos não precisaram ser usados.

Os voluntários infectados ficaram no Royal Free Hospital de Londres por duas semanas e foram monitorados por médicos 24 horas por dia em salas que tinham circulação de ar de fluxo reverso especial para evitar a propagação do vírus.

Nem todos os participantes contraíram Covid

Dos 36 participantes, 18 foram infectados, incluindo dois que nunca desenvolveram sintomas. Dos 16 infectados que apresentaram sintomas, os mais comuns foram congestão nasal, espirros e dor de garganta. Outros desenvolveram dores de cabeça, dores musculares e articulares, fadiga e febre. Sete voluntários desenvolveram febre superior a 37,8 graus.

Em 15 dos 18 participantes que contraíram a doença, houve perda do olfato. Em nove deles, uma perda completa.

Esse sintoma melhorou para a maioria dos participantes em três meses, embora cinco pessoas ainda tivessem problemas de olfato aos seis meses, com uma pessoa continuando a ter perda parcial de olfato seis meses após o término do estudo.

Resultados da pesquisa

A quantidade necessária para infectar uma pessoa é muito pequena, cerca de 10 mícrons. Ou seja, a quantidade presente em uma gotícula microscópica que alguém expele ao tossir ou espirrar.

A este respeito, lembramos que um glóbulo vermelho mede entre sete e oito mícrons. Isso indica que a quantidade de secreção capaz de infectar a uma pessoa é realmente microscópica e corrobora a teoria do contágio por aerossóis.

Cerca de um pouco mais de um dia e meio, ou 40 horas, após o vírus ter sido inserido nos narizes dos participantes, o vírus pôde ser detectado na parte de trás da garganta.

Quase dois dias e meio, ou 58 horas, após a infecção, o vírus foi isolado em swabs nasais, onde a carga viral aumentou progressivamente. Foi documentado que o coronavírus tem um período de incubação bastante curto, levando aproximadamente dois dias após a infecção para que a pessoa infectada comece a transmiti-lo para outras pessoas.

As pessoas infectadas também se tornaram contagiosas e liberaram grandes quantidades do vírus antes de apresentar sintomas.

Em relação ao tempo de propagação do vírus, foi registrado que as pessoas infectadas podem espalhá-lo por cerca de seis dias e meio em média, embora alguns o espalhem por até 12 dias, mesmo sem sintomas.

Os testes de fluxo lateral – um tipo de teste rápido de antígeno usado em casa para diagnosticar a doença – também funcionam bem quando uma pessoa infectada se torna contagiosa, fazendo a detecção antes que 70% a 80% do vírus viável ​​no nariz dos boluntários fosse gerado.

Por fim, permanece um mistério o porquê, apesar de terem sido infectados com a mesma quantidade de vírus, apenas 18 pessoas contraíram a doença e 18 não, sem sequer produzir anticorpos neutralizantes.

Próxima etapa

Os pesquisadores vão estudar essas 18 pessoas resistentes à infecção, na tentativa de entender os mecanismos imunológicos que tornam alguns humanos incapazes de serem infectados.

Eles esclareceram que todos os participantes fizeram exames de sangue para descartar que tenham anticorpos contra outros tipos de coronavírus, o que elimina a possibilidade de terem algum tipo de imunidade cruzada.

A opinião do Dr. Huerta sobre o estudo

Em suma, esta pesquisa controversa forneceu pistas para o estudo da doença pela primeira vez. Os pesquisadores planejam realizar estudos semelhantes infectando voluntários previamente vacinados com a variante delta.

Na minha opinião, o achado com maior aplicação prática é aquele que constatou que o tamanho da amostra de contágio é de dimensões microscópicas.

Isso ajuda a entender a enorme contagiosidade do novo coronavírus em todas as suas variedades e como as estratégias mais eficazes para evitar o contágio são:

  • O uso de máscaras de alta eficiência de filtragem, como N95 ou KN95
  • Ventilar salas fechadas
  • Mantenha uma distância física adequada
  • Prefira atividades ao ar livre

Este conteúdo foi criado originalmente em espanhol.

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