Faça algo bom por você: nada

Olga Mecking, autora de um livro sobre como não fazer nada, explica a importância do ócio - e como chegar a ele

Fazer nada pode ser um desafio para quem vive em ritmo acelerado, diz a escritora polonesa Olga Mecking
Fazer nada pode ser um desafio para quem vive em ritmo acelerado, diz a escritora polonesa Olga Mecking Guilherme Garcia / Unsplash

Lisa Selin Davisda CNN

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Entre as muitas tragédias que a Covid-19 causou, algumas pessoas encontraram algumas boas notícias inesperadas. Uma delas é a chance de desacelerar e experimentar uma vida minimalista, e com mais tempo entre as atividades, o que significa para alguns um alívio bem-vindo em uma vida sobrecarregada, atormentada e muitas vezes oprimida pela ansiedade.

Alguns de nós perceberam que, o que antes parecia inconcebível – um espaço em branco no calendário – agora é necessário para ter uma sensação de calma. Alguns de nós experimentaram a alegria de não fazer nada.

Acontece que os holandeses, um povo notoriamente feliz, têm uma palavra para essa experiência: niksen, traduzido vagamente por “não fazer nada”. Quando a escritora Olga Mecking, uma polonesa que mora na Holanda, descobriu esse conceito, ficou intrigada e determinada a dominar a arte do niksen.

Seu livro, “Niksen: Embracing the Dutch Art of Doing Nothing” (“Niksen: Abraçando a arte holandesa de não fazer nada”, em tradução livre) explora a origem do conceito e por que essa arte é importante médica e psicologicamente. E o mais importante, como dominá-la. Não fazer nada é uma das coisas mais difíceis. Uma vantagem: é a tendência de bem-estar mais barata que se possa imaginar.

A CNN pediu à autora do livro que compartilhasse os segredos do niksen.

Esta entrevista foi condensada e ligeiramente editada para maior clareza.

CNN: Você escreve que fazer niks, ou nada, não significa trabalhar, realizar trabalho emocional ou meditar. Como não fazer nada?

Olga Mecking: Meu objetivo era tentar entender o que era não fazer nada e como isso era diferente do trabalho. Acabou sendo mais difícil do que o esperado. Na verdade, enquanto fazia pesquisas, lutava para encontrar algo sobre “não fazer nada”. Em vez disso, tive que olhar para palavras como “tédio”, “preguiça” ou “ociosidade”.

Na definição que acabei adotando, não fazer nada é na verdade não fazer nada, não navegar no Facebook ou assistir a uma série, mas, sim, sentar no sofá ou em um café e olhar pela janela ou observar as pessoas passarem. Às vezes, podemos nos referir a isso como “espaçamento” ou “sonhar acordado”.

(Niksen) também é fazer nada sem um propósito. Muitas vezes, fazemos coisas porque esperamos um determinado resultado.

Corremos porque queremos perder peso ou nos preparar para uma maratona, e não simplesmente porque pode ser agradável. Acredito que perdemos a capacidade ou apenas o prazer de fazer as coisas “só porque…”.

CNN: “Não fazer” não significa fazer alguma coisa?

Mecking: Sua pergunta é de natureza linguística. Em inglês, você tem que dizer “doingnothing (fazer nada – que implica ação). Mas você pode dizer “not to do anything” (nada para fazer, que não implica ação).

Em polonês, você teria que usar uma negação dupla: Nic nie robić ou nie robić nic, em que nic é nada e nie é não.

Em holandês, você tem uma palavra para não fazer nada, que é niksen. Quando descobri isso pela primeira vez, achei brilhante que uma linguagem pudesse colocar um conceito inteiro em apenas uma palavra.

CNN: Quais são as dicas para garantir que “façamos” niksen? Escrevemos isso em nossos calendários ou simplesmente não programamos nada?

Mecking: Eu acredito muito em “fazer tudo o que funciona”, então se você é o tipo de pessoa que gosta de agendar coisas, faça isso. Os holandeses amam suas agendas. A especialista em produtividade Laura Vanderkam sugere que você deixe alguns espaços em branco em sua agenda – para almoçar, fazer intervalos, passear ou não fazer nada.

Se você é uma pessoa que segue o fluxo, provavelmente faria o que eu faço, e obteria alguns momentos niksen sempre que pudesse. Meus lugares favoritos são áreas de espera (como no consultório médico), transporte público ou bancos de parques.

CNN: As pessoas nos Estados Unidos vivem em uma sociedade obcecada pela produtividade, mas você descobriu que incorporar o niksen ao dia de trabalho – ou seja, fazer menos, em menos horas – pode, na verdade, aumentar a produtividade. Como assim?

Mecking: Entendemos que nossos corpos precisam descansar de vez em quando. Mas, de alguma forma, esperamos que nossos cérebros funcionem sem pausas e isso não é sustentável. Porque, depois de um tempo, nossos cérebros param de cooperar e o tempo gasto no trabalho será desperdiçado.

É melhor fazer uma pausa, comer alguma coisa, não fazer nada por um tempo. Isso seria uma perda de tempo do trabalho, sim. Mas também nos permitirá trabalhar melhor e terminar em aumento de produtividade e melhorar a qualidade de trabalho.

CNN: Como é que deitar usa mais partes do cérebro do que realizar uma tarefa? Conte-nos sobre o “modo de rede padrão”.

Mecking: O modo de rede padrão é uma rede neural especial no cérebro que só fica “online” ou acende quando não fazemos nada. Pelo que entendi, quando estamos envolvidos em uma tarefa, nosso cérebro dedica energia às áreas responsáveis ​​por concluí-la. Não é que nossos cérebros estejam trabalhando menos, eles estão apenas mais focados.

Mas, quando não fazemos nada, uma parte totalmente diferente e mais elaborada torna-se ativa, conectando diferentes áreas do cérebro.

Os pesquisadores acham que é por isso que temos nossas melhores ideias não quando estamos focados em resolver um problema, mas quando fazemos algo totalmente não relacionado ao problema, como tomar um banho ou dar uma caminhada.

CNN: Você nota que nosso apego à tecnologia significa que nunca deixamos de fazer algo. Como precisamos ajustar nosso relacionamento com a tecnologia para fazer niksen?

Mecking: A tecnologia pode ser ótima, mas também penetra em nosso trabalho – podemos ser contatados a qualquer hora do dia e da noite – e nos momentos de lazer, onde podemos nos divertir constantemente, se quisermos.

Muitas pessoas usam aplicativos para limitar seu tempo de tela, usando tecnologia para controlar a tecnologia, mas outra opção é adaptar seu ambiente para que você tenha um lugar para colocar seu telefone de forma que ele não fique constantemente perto de você ou se cerque de coisas que não estão relacionados à tecnologia, como livros, ou limitar o número de aplicativos ou perfis de mídia social que você usa.

CNN: Como lidar com a vergonha que alguns sentem quando não estão sendo mais produtivos, ou a culpa que pode haver ao realizar o niksen?

Mecking: O importante é não lutar ou pensar que não devo me sentir culpado por isso, o que pode levar a me sentir culpado por me sentir culpado. Apenas aceite que estamos nos sentindo culpados e tente ficar com isso por um tempo e ver o que acontece.

Isso vai embora depois de termos a chance de sonhar um pouco e ver que estamos nos sentindo mais relaxados? O especialista em produtividade Chris Bailey afirma que nos sentimos culpados quando nossas ações não se alinham com nossos valores e que uma solução para a culpa poderia ser aprender a valorizar o não fazer nada e relaxar.

CNN: Do que trata a pesquisa que você menciona, sobre como preferimos aplicar choques elétricos em nós mesmos a ficar ociosos?

Mecking: É um estudo feito de 2014, (realizado) por Timothy Wilson, que descobriu que muitas pessoas, ao escolherem entre ficar sentadas em uma sala e não fazer nada e receber choques elétricos leves, preferem dar-se choques a experimentar qualquer tipo de tédio ou ociosidade. A maioria das pessoas que optaram por aplicar choques a si mesmas eram homens – isso não me surpreende totalmente.

CNN: Você afirma que niksen é, na verdade, nosso “estado padrão”, embora pareçamos todos viciados em agendamento excessivo. Como assim?

Mecking: Paradoxalmente, ambos podem estar corretos. Os primeiros humanos tiveram que sobreviver em um ambiente hostil que incluía trabalho duro – caçar, coletar comida, prepará-la para comer, cozinhar, preparar e remendar roupas, fazer ferramentas e assim por diante. Mas, ao mesmo tempo, os humanos são uma espécie totalmente preguiçosa: um estudo mostrou que, se tivesse a opção de usar as escadas ou o elevador, adivinhe o que a maioria das pessoas escolheria? Sim, o elevador. E isso tem a ver com a conservação de energia.

Normalmente, não queremos trabalhar a menos que seja necessário. Mas as expectativas sociais combinadas com a economia e a tecnologia modernas conspiraram para nos dar a sensação de que deveríamos estar trabalhando, programando, planejando, fazendo algo o tempo todo.

CNN: Você escreve que a cultura holandesa pode ser particularmente adaptável para niksen por uma variedade de razões, incluindo uma alta qualidade de vida. Mas eles também têm este ditado: “Basta ser normal, isso é loucura.” Você pode explicar?

Mecking: Ser normal é algo que você encontra muito aqui, e, geralmente, é dito em situações em que as pessoas estão se gabando ou mostrando suas emoções abertamente. Mesmo que os holandeses sejam considerados um povo incrivelmente individualista, seguir regras, cooperar e contribuir são ações incrivelmente importantes para eles – mais importantes do que o sucesso ou realização individual.

CNN: Você pode explicar a expressão “aprender a viver em duas velocidades?”

Mecking: A ideia do niksen não é vender tudo o que você tem e ir morar no deserto. Uma vida agitada ainda pode ser uma vida muito boa e feliz, cheia de momentos significativos com amigos, família, um trabalho e talvez um hobby. E a vida moderna oferece muitas oportunidades incríveis de entretenimento e diversão.

E algumas situações exigem muito trabalho. Quando você está lidando com uma emergência, não pode dizer “desculpe, não preciso fazer nada por um tempo”.

Portanto, haverá momentos em que você ficará sobrecarregado, mas também haverá momentos em que você terá tempo para relaxar, sentar-se, ler um livro ou não fazer nada. É sobre saber quando ir rápido e forte e quando ir devagar.

Lisa Selin Davis é autora de “Tomboy: The Surprising History and Future of Girls Who Dare to Be Different” (“Tomboy: A história surpreendente e o futuro das garotas que ousam ser diferentes”, em tradução livre). Ela escreveu para a CNN, The New York Times, The Wall Street Journal, The Guardian e outras publicações.

(Texto traduzido. Leia o original aqui.)

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