Flúor na água não afeta cognição de crianças, diz novo estudo

Pesquisa contradiz alegações sobre riscos do flúor na água potável e sugere efeitos positivos em níveis recomendados, em meio a debates sobre política pública nos EUA

Deidre McPhillips, da CNN
Estudo mostra que flúor na água não traz riscos à cognição de crianças e jovens  • Milky Way/GettyImages
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A antiga prática de saúde pública de adicionar flúor à água potável está enfrentando intenso escrutínio nos Estados Unidos, com questionamentos sobre se os benefícios superam os possíveis riscos. No entanto, uma nova pesquisa publicada na quarta-feira (19) na revista Science Advances desafia alegações recentes sobre os riscos do flúor na água potável — e sugere que pode haver benefícios adicionais.

O acalorado debate federal foi estimulado por um estudo governamental recente do Programa Nacional de Toxicologia, dos EUA, que concluiu que altos níveis de exposição ao flúor estão ligados a menor QI em crianças. Porém, esse estudo avaliou exposições ao flúor que eram pelo menos duas vezes maiores que os limites recomendados federalmente, com "dados insuficientes" para determinar os efeitos de níveis mais baixos.

O novo estudo analisou níveis mais típicos e recomendados de flúor na água potável e, ao contrário, encontrou "evidências robustas" de que jovens expostos ao flúor nesses níveis mais baixos apresentaram melhor desempenho em testes cognitivos do que seus pares que não tinham flúor em sua água potável.

Rob Warren, autor principal do novo estudo, diz que ficou "chocado" com as descobertas do estudo do Programa Nacional de Toxicologia e motivado a fornecer pesquisas mais relevantes para decisões de políticas públicas.

"Eu não teria feito este trabalho se não fosse uma questão empírica para a qual eu achava que não tínhamos resposta, de grande interesse imediato para políticas públicas", afirma.

O Secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., chamou o flúor de "um resíduo industrial" e citou "perda de QI" em promessas de reverter as recomendações federais de adicionar flúor à água potável municipal. Autoridades em Utah e Flórida se tornaram os primeiros dois estados a proibir a prática.

"Imagine testar algum novo medicamento para doença cardíaca em que a dosagem recomendada é 100 miligramas, e então seu estudo compara pessoas que recebem um milhão de miligramas com pessoas que recebem meio milhão de miligramas. Bem, isso não diz nada sobre o efeito de receber 100 miligramas versus não receber nada", diz Warren. "Esse é o tipo de situação em que estamos com a pesquisa sobre flúor"

"É importante saber que se você receber uma dose tóxica, coisas muito ruins acontecem com seu corpo, mas isso não é relevante para a discussão de políticas públicas."

Warren, professor de sociologia da Universidade de Minnesota, lidera um programa que começou no Departamento de Educação dos EUA e tem acompanhado um grupo de dezenas de milhares de pessoas por mais de quatro décadas, desde seus anos de ensino médio na década de 1980.

Para o novo estudo, ele e outros pesquisadores utilizaram esses dados para sobrepor o desempenho em testes de matemática, leitura e vocabulário de uma amostra nacionalmente representativa de quase 27.000 indivíduos com sua exposição ao flúor na água potável comunitária, baseando-se em dados históricos do HHS e do Serviço Geológico dos EUA.

A análise assumiu que os indivíduos moravam próximos às suas escolas de ensino médio durante toda a infância e os agrupou com base em sua exposição consistente aos níveis recomendados de flúor através da fluoretação da água comunitária ou ocorrência natural do mineral, ausência consistente de exposição ao flúor, ou exposição parcial caso sua comunidade tenha alterado a política local de fluoretação em algum momento durante sua infância.

O estudo descobriu que estudantes que foram expostos ao flúor durante parte de sua infância obtiveram pontuações mais altas nos testes do ensino médio do que aqueles sem exposição ao flúor, e a diferença foi ainda maior para aqueles que foram expostos ao flúor durante toda a infância. Testes de acompanhamento continuaram até 2021, quando a maioria dos participantes havia chegado aos 60 anos de idade, e sugeriram que a exposição ao flúor também não contribuiu para o declínio cognitivo conforme os participantes envelheceram.

Testes cognitivos não são medidas diretas de QI. Existe uma forte correlação, explica Warren, mas os testes cognitivos medem uma combinação do funcionamento cerebral do indivíduo junto com as oportunidades que tiveram de aprender o conteúdo. Ele já está trabalhando em pesquisas adicionais que avaliarão diretamente a relação entre flúor e QI, com dados mais precisos sobre onde os indivíduos moravam durante a infância.

Outras pesquisas realizadas no início deste ano estimaram que a remoção do flúor da água pública nos EUA levaria a 25,4 milhões de dentes cariados extras em crianças e adolescentes dentro de cinco anos, junto com custos de saúde de US$ 9,8 bilhões. O novo estudo não mediu a saúde dental individual, mas especialistas afirmam que a dor causada pela cárie pode fazer com que as crianças tenham dificuldade de concentração na escola ou faltem completamente — o que poderia ser um fator que afeta as pontuações nos testes cognitivos.

O flúor é um mineral que pode ser encontrado naturalmente em alguns alimentos e na água subterrânea. Ele pode ajudar a prevenir cáries dentárias ao fortalecer a camada protetora externa do esmalte, que pode ser desgastada por ácidos formados por bactérias, placa e açúcares na boca. A prática de adicionar flúor aos sistemas públicos de água começou nos Estados Unidos em 1945, com o objetivo de melhorar a saúde bucal de forma econômica e igualitária.

A Associação Americana de Odontologia e muitos especialistas continuam apoiando a prática da fluoretação da água nas comunidades, e os CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA não alteraram suas recomendações. A agência não pode exigir que as comunidades adicionem flúor à água, mas considera 0,7 miligramas de flúor por litro de água como o "nível ideal".

No entanto, a FDA (Food and Drug Administration), órgão regulador dos EUA, recentemente tomou medidas para restringir o uso de suplementos de flúor com prescrição médica. "Existem maneiras melhores de proteger os dentes das crianças do que tomar flúor ingerível não aprovado, que agora se reconhece alterar o microbioma intestinal", afirma o comissário da FDA, Marty Makary, em um comunicado sobre a ação.

Bruce Lanphear, epidemiologista e professor da Universidade Simon Fraser no Canadá, afirma que é importante considerar um conjunto mais completo de todas as fontes de exposição ao flúor, como creme dental e pesticidas.

"Estratégias populacionais – como fluoretação, vacinação, remoção do chumbo da gasolina – podem ser extraordinariamente poderosas. Se você tem uma intervenção segura e eficaz, pode ter um grande impacto na saúde das populações", afirma. "Mas quando você tem uma estratégia populacional como a fluoretação, as evidências sobre sua segurança e eficácia precisam ser extraordinariamente fortes."

Porém, em uma resposta formal à nova pesquisa também publicada na Science Advances na quarta-feira, David Savitz, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, argumenta que é necessário primeiro comprovar os riscos antes de encerrar uma prática de saúde pública que tem sido bem-sucedida por décadas.

"Enquanto não houver evidências claras de que a fluoretação da água não traz benefícios à saúde pública ou provas convincentes de danos nos níveis de exposição ao flúor na água fluoretada, o que não ocorreu até agora, parece imprudente interferir em um sucesso de saúde pública há muito estabelecido e reconhecido", escreveu ele.

"Com os devidos créditos à sabedoria popular de Bert Lance, diretor do Escritório de Gestão e Orçamento durante o governo do presidente Jimmy Carter, "se não está quebrado, não conserte". Warren e colegas movem um pouco mais o ponteiro para a direção do 'não está quebrado'."

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