Há 14 anos sem transplantes de pulmão no Rio, UFRJ tenta recredenciamento

Pandemia de Covid-19 reforçou a necessidade das cirurgias pulmonares

Lucas Janone, da CNN, no Rio de Janeiro

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Com a pandemia do novo coronavírus e a necessidade de tratamentos pulmonares, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tenta a revalidação do certificado que libera o hospital universitário Clementino Fraga Filho a fazer transplantes de pulmão em pacientes com problemas respiratórios. 

O programa responsável pelas cirurgias precisou ser encerrado em 2007 por dificuldades financeiras e estruturais, e nunca mais foi restabelecido. Atualmente, somente unidades de saúde nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul possuem autorização para realizar esses procedimentos.  

A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) já confirmou a realização de cinco transplantes pulmonares no Brasil em pacientes que tiveram sequelas após contrair o novo coronavírus. De acordo com a instituição, três intervenções foram em São Paulo e duas em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo a ABTO, é importante ressaltar que não são todos os pacientes com quadro grave de coronavírus que podem receber o pulmão transplantado. O procedimento é exclusivo para as pessoas que têm problema apenas no pulmão, e não outros agravamentos pela Covid-19

A CNN apurou que fiscais do Sistema Nacional de Transplante (SNT), órgão do Ministério da Saúde, devem visitar o Clementino Fraga Filho, nos próximos meses, para revalidar a permissão do hospital universitário. Chefe da cirurgia de tórax da UFRJ, Carlos Henrique Boaskevisque, afirmou à CNN, nesta sexta-feira (23), que o recredenciamento da instituição salvará muitas vidas no Rio de Janeiro e no Brasil. 

Ele destacou ainda que muitas pessoas saem do estado para realizar os procedimentos em outras regiões brasileiras. A CNN procurou o Ministério da Saúde para saber informações sobre a visita, mas ainda não teve retorno.
  
“Existem pacientes que conseguem sobreviver à Covid-19, mas ficam com sequelas graves, praticamente inválidos. A UFRJ vai ajudar muita gente nessa situação, e evitar que os cariocas precisem sair daqui para operar em outro lugar. Importante ressaltar que o transplante pulmonar é eficaz em pessoas apenas com insuficiência respiratória, e não outras enfermidades”, destacou.  

Carlos Henrique Boaskevisque esteve presente no primeiro transplante realizado no estado do Rio de Janeiro em 29 de novembro de 1999. Desde lá, o programa da UFRJ realizou 27 transplantes em pessoas com enfisema pulmonar, doença degenerativa que causa insuficiência respiratória. A sobrevida dos pacientes foi de aproximadamente 80%, após a cirurgia.   

A pandemia de Covid-19 fez com que o número de transplantes de órgãos e tecidos no Brasil caísse em aproximadamente 20%, segundo a ABTO. Um levantamento da associação mostra que foram realizados 7.362 procedimentos entre janeiro e dezembro de 2020. Já no ano anterior, em 2019, foram 9.189 transplantes. Os mais afetados foram os de córnea e pulmão, seguidos por coração, rim, pâncreas e fígado. 

No primeiro trimestre de 2021, dado mais recente divulgado pela ABTO, foram 4.122 transplantes de tecidos e órgãos. Já no mesmo período de 2020, foram 5.729 procedimentos. Uma diminuição de 28%. Comparado com o primeiro trimestre de 2020, houve queda de 26% na taxa de doadores, no geral. 

No caso do transplante de pulmão, a queda foi de 62%. Ainda segundo a associação, houve aumento de 2% no número de potenciais doadores de tecidos e órgãos, em geral, mas a taxa de efetivação caiu 25%. Isso se deve ao aumento do número de casos de contraindicação (50%), principalmente por conta da pandemia, de não autorização familiar (14%) e parada cardíaca durante o processo de doação (25%).

O médico e membro da ABTO, Paulo Pêgo, afirmou que foram feitos 33 transplantes pulmonares no país em 2021, até o momento. De acordo com ele, a redução nos procedimentos durante a pandemia foi expressiva e preocupante. Em 2020, foram 65 transplantes de pulmão, enquanto no ano anterior, em 2019, foram 106 procedimentos. Pêgo destacou que a Covid-19 e a redução da frota aérea foi um dos dificultadores para a realização dessas cirurgias. 

“Muitas pessoas precisavam de pulmões e não conseguiram o transplante nesse último ano e meio. Os pacientes que morrem em função da Covid-19 não podem de maneira alguma ser doador de nenhum órgão, isso dificultou muito nosso trabalho. O cancelamento de voos durante a pandemia também foi outro fator para a redução de transplantes, já que os órgãos não eram transportados entre as regiões”, disse.   

O Ministério da Saúde afirmou à CNN que os transplantes em geral sofreram uma redução desde o início da pandemia de Covid-19. “Embora tenha apresentado crescimento sustentado ao longo dos anos, o número de transplantes também sofreu os impactos da pandemia, devido à dificuldade da doação de órgãos no cenário da Covid-19″.  

Sobre o transplante de pulmão, o órgão diz que o sistema utilizado pela pasta identifica os pacientes candidatos a transplantes a partir das respectivas doenças: pulmonar obstrutiva crônica; fibrose pulmonar primária ou secundária, bronquiectasias, hipertensão pulmonar e fibrose cística.

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