Iniciativa leva exame de HPV para mulheres indígenas do Xingu

O projeto tem como objetivo o rastreamento a detecção precoce de câncer de colo de útero na população local

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
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Uma iniciativa está oferecendo exames gratuitos para mulheres indígenas da região do Xingu para rastreamento e detecção precoce de câncer de colo de útero. O projeto, que teve início em 2024 e segue em andamento, é realizado pelo grupo Dasa em parceria com a ONG Xingu+Catu.

O projeto utiliza o exame de DNA HPV com autocoleta, viabilizado por meio de expedições de saúde previamente planejadas e alinhadas ao Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). As ações são realizadas por uma equipe especializada, composta por médica ginecologista, enfermeira e profissional de logística.

Durante as expedições médicas, as mulheres indígenas do Xingu são orientadas sobre a infecção por HPV e o risco de câncer de colo do útero, indicação clínica do exame e, mediante consentimento informado, a coleta é realizada diretamente nas mulheres elegíveis.

"A orientação ocorre de forma contínua ao longo de todo o processo, desde a explicação sobre a doença e o exame, passando pela coleta, até a devolutiva dos resultados. Contamos com o apoio de agentes indígenas de saúde e de profissionais locais da Xingu+Catu, que auxiliam na mediação cultural e na tradução para a linguagem local sempre que necessário", explica Natasha Camargo, Gerente de Novos Produtos e Serviços da Dasa à CNN Brasil.

Para garantir eficiência operacional e continuidade, especialmente no retorno dos resultados, a telemedicina pode ser usada de forma complementar e adaptada ao contexto do território.

"Nos casos de exames alterados, é iniciado o seguimento clínico conforme protocolos vigentes, incluindo monitoramento e exames complementares, como a colposcopia, quando indicados", explica Camargo. "A equipe permanece responsável pela navegação da paciente no sistema, reduzindo perdas de seguimento e assegurando continuidade assistencial", completa.

HPV e câncer de colo de útero

O câncer de colo de útero, também chamado de câncer cervical, é causado pela infecção pelo papilomavírus humano (HPV). Transmitida por meio de relações sexuais desprotegidas, a doença pode ser evitada por meio da vacinação.

Na maioria das vezes, a infecção pelo vírus HPV não causa sintomas. No entanto, em alguns casos, as células sofrem alterações que podem evoluir para o câncer ao longo dos anos.

"A partir do momento em que a infecção atinge o tecido na região do colo uterino, ela promove alterações celulares teciduais que vão levar às neoplasias intraepiteliais e, posteriormente, ao câncer de colo de útero propriamente dito", explica Higino Felipe Figueiredo, cirurgião oncológico, diretor-presidente da regional Amazonas da SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica), à CNN Brasil.

As mutações nas células infectadas pelo HPV podem ocorrer ao longo da vida. Isso significa que uma pessoa que contraiu o vírus pode levar anos para detectar lesões pré-cancerígenas ou, até mesmo, o câncer.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a estimativa é de que, para cada ano do triênio 2023-2025, mais de 17 mil novos casos de câncer de colo de útero sejam registrados no Brasil. Entre os fatores de risco estão as relações sexuais sem preservativos, o tabagismo e o uso prolongado de pílulas anticoncepcionais.

O exame de colpocitologia oncológica cervical, conhecido popularmente como Papanicolau, é um dos principais testes realizados para detectar alterações nas células do colo do útero precocemente.

"Hoje em dia, temos algumas ferramentas que nos dão maiores subsídios do que somente o Papanicolau, como a genotipagem para o HPV [o exame de DNA HPV]", afirma Figueiredo. "Ele é realizado a partir de uma coleta na região do colo uterino para fazer a pesquisa se ocorre ou não a infecção pelo vírus HPV", explica.

Apesar de já estar disponível no SUS (Sistema Único de Saúde), o exame de DNA HPV ainda é uma tecnologia recém incorporada pelo Ministério da Saúde e, por isso, ainda não substitui o Papanicolau no rastreamento do câncer de colo de útero.

Impacto do HPV na saúde indígena ainda é pouco conhecido

Um estudo realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade de Campinas) mostrou que as mulheres indígenas são mais vulneráveis ao desenvolvimento do câncer de colo de útero. O estudo reuniu o maior registro brasileiro de dados dentro dessa temática, contemplando mais de 30 etnias indígenas.

Para o trabalho, foram analisados 3.231 exames preventivos de Papanicolau de mulheres indígenas, coletados pela ONG Expedicionários da Saúde, no período de 2007 a 2019. Os dados foram comparados com os resultados de mulheres não indígenas que tiveram as suas amostras coletadas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) na região de Campinas nos anos de 2007, 2011, 2015 e 2019 – um total de 698.415 testes.

"Embora existam indícios de maior vulnerabilidade e potencial aumento de morbimortalidade entre mulheres indígenas, a magnitude real do problema permanece subdimensionada, reforçando a necessidade de estratégias estruturadas de rastreamento e geração de dados de qualidade", avalia Camargo.

Para Figueiredo, o grande desafio para a população indígena é a acessibilidade. "Os povos indígenas e os quilombolas ainda são populações que estão relativamente isoladas. Então, ocorre a necessidade de profissionais de saúde se deslocarem ou terem bases nessas regiões para fazer a pesquisa, tanto do HPV, quanto a coleta do Papanicolau. É muito importante que eles tenham acesso à saúde", afirma.

Segundo o especialista, o exame de autocoleta do DNA-HPV é uma alternativa "muito interessante" para essa população. "Nós podemos orientar os agentes de saúde para ensinarem essa população a fazer a autocoleta e diagnosticarmos pessoas que tenham o HPV de alto risco. A partir disso, podemos direcionar os pacientes a biópsias e tratamento de lesões precursoras, evitando que a evolução para o câncer de colo de útero", completa.