Mais comum, porém cada vez mais curável: o novo retrato do câncer de mama

Avanços no diagnóstico e no tratamento mudaram o prognóstico da doença, mas, para o mastologista Wesley Andrade, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo decisivo: fazer essa medicina chegar às mulheres a tempo

Brazil Health
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Gosto de começar esta conversa com duas verdades que, à primeira vista, parecem se contradizer, mas que, juntas, contam a história real do câncer de mama em 2026.

A primeira é que o câncer de mama se tornou mais frequente. O número de novos diagnósticos continua elevado e, em diversos países, a incidência vem aumentando, inclusive entre mulheres mais jovens.

A segunda é talvez ainda mais importante: o câncer de mama nunca esteve tão bem compreendido, tão bem tratado e, em muitos cenários, é extremamente curável quando diagnosticado no início.

Nas últimas cinco décadas, poucas áreas da medicina evoluíram tanto. Uma doença durante muito tempo associada quase inevitavelmente a mutilação, sofrimento e morte apresenta hoje excelentes perspectivas de cura em muitos casos diagnosticados precocemente. Entender essas duas realidades é fundamental para falar sobre câncer de mama com informação, e não com medo.

Um câncer cada vez mais frequente

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados 78.610 novos casos no Brasil em 2026. Há várias razões para esse número.

Vivemos mais, e o câncer de mama está fortemente relacionado à idade. Também diagnosticamos melhor: mamografia, ultrassonografia, ressonância magnética e outros métodos permitem identificar tumores menores e mais precoces.

Há ainda mudanças no padrão reprodutivo, como gestações mais tardias, menor número de filhos e períodos menores de amamentação. Somam-se fatores modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada e consumo de álcool. Nenhum deles isoladamente determina que uma mulher terá câncer, mas ajudam a explicar parte do aumento da incidência.

Conhecer o risco não significa viver com medo. Significa agir sobre aquilo que pode ser modificado e acompanhar adequadamente o que não pode.

Por que ficou tão mais tratável?

Há algumas décadas, o tratamento cirúrgico era muito mais agressivo. Durante muito tempo prevaleceu a ideia de que, quanto maior a cirurgia, maior a chance de cura. A partir da década de 1970, estudos demonstraram que tratamentos mais conservadores poderiam oferecer excelente controle da doença em pacientes selecionadas.

Depois vieram a biópsia do linfonodo sentinela, reduzindo a necessidade de retirar todos os gânglios da axila, e a cirurgia oncoplástica. Hoje, em muitos casos, podemos tratar o câncer, preservar ou reconstruir a mama e reduzir significativamente o impacto físico do tratamento.

A revolução também ocorreu nos medicamentos. Do tamoxifeno e do trastuzumabe chegamos às terapias endócrinas modernas, inibidores de CDK4/6, medicamentos anti-HER2, imunoterapia, inibidores de PARP e anticorpos conjugados a drogas, os ADCs. Em poucas décadas, mudamos não apenas as possibilidades de tratamento, mas a própria forma de compreender a doença.

Não existe apenas um câncer de mama

Talvez uma das maiores transformações tenha sido perceber que câncer de mama não é uma única doença. Luminal A, Luminal B, HER2-enriquecido e triplo-negativo, por exemplo, têm comportamentos diferentes e podem exigir estratégias distintas. Costumo dizer que precisamos conhecer bem o bandido para escolher as melhores armas para combatê-lo.

Hoje analisamos receptores hormonais, HER2, características genômicas, mutações, tamanho do tumor, linfonodos e resposta aos tratamentos. Em algumas pacientes, testes genômicos ajudam inclusive a identificar quem realmente se beneficia da quimioterapia, evitando tratamentos desnecessários.

Não tratamos apenas onde está o tumor. Tratamos a biologia daquela doença naquela paciente. Essa é a essência da medicina personalizada.

O problema brasileiro é chegar a tempo

Os números mostram o impacto dessa evolução. Nos Estados Unidos, a mortalidade por câncer de mama caiu cerca de 44% desde 1989 e a sobrevida em cinco anos supera 90% considerando o conjunto dos casos. Quando a doença está restrita à mama e é diagnosticada precocemente, as perspectivas são ainda melhores.

Mas existe outro lado dessa história.

Temos as melhores armas que a medicina já teve contra o câncer de mama. Uma arma, porém, só funciona se chegar à paciente no momento certo. E é justamente aí que o Brasil ainda falha.

Dados recentes do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama mostram que 51% das mulheres diagnosticadas no SUS chegam com a doença em estágio avançado. Entre 20 e 29 anos, são 68,3%; dos 30 aos 39, 61,9%. Mesmo entre 50 e 69 anos, faixa prioritária para rastreamento, 47,6% recebem o diagnóstico tardiamente.

A cobertura de mamografia no SUS ficou abaixo de 35% em todos os estados no biênio 2022–2023. Temos, portanto, um contraste difícil de aceitar: de um lado, uma medicina capaz de alcançar altíssimas taxas de cura quando a doença é encontrada cedo; de outro, metade das pacientes do sistema público chegando com câncer avançado.

A distância entre esses dois mundos não está na ciência. Está no acesso.

Nenhuma tecnologia substitui o diagnóstico no tempo certo. Talvez um dos maiores avanços que ainda precisamos conquistar no Brasil não seja um novo medicamento, mas garantir que aquilo que já sabemos fazer chegue a todas as mulheres.

Um alerta para as mais jovens

A incidência também vem aumentando entre mulheres mais jovens. Isso não significa viver em estado permanente de alerta, mas a idade não pode ser usada para ignorar um sintoma persistente.

Nódulo que não desaparece, alteração da pele, retração do mamilo ou secreção sanguinolenta precisam ser investigados. E mulheres jovens não devem aceitar como resposta simplesmente que são “novas demais para ter câncer”.

Alguns casos estão relacionados à predisposição hereditária, com alterações em genes como BRCA1, BRCA2 e TP53. Por isso, histórico familiar e ocorrência de câncer de mama, ovário ou próstata de alto risco na família devem ser avaliados individualmente.

O próximo grande avanço

Nem todos os cânceres de mama podem ser prevenidos. Mas atividade física, peso saudável, alimentação equilibrada, moderação no álcool e não fumar fazem parte das estratégias de redução de risco. Mulheres com risco hereditário elevado podem ainda se beneficiar de aconselhamento genético e rastreamento intensificado.

Se eu pudesse resumir cerca de cinquenta anos de evolução, diria que o câncer de mama ficou mais comum, mas a medicina aprendeu a conhecê-lo e tratá-lo com muito mais precisão.

Temos cirurgias menos mutiladoras, reconstruções mais sofisticadas, testes genômicos, terapias-alvo, imunoterapia e medicamentos direcionados às características de cada tumor. O próximo grande salto no Brasil, porém, talvez não venha de um laboratório. Virá da capacidade de fazer tudo isso chegar a quem precisa.

Neste Outubro Rosa, podemos falar sobre câncer de mama com uma palavra que décadas atrás parecia muito mais distante: esperança. Não uma esperança baseada apenas em otimismo, mas sustentada por evidências. Porque o câncer de mama continua sendo uma doença séria e muito frequente, mas é também, cada vez mais, uma doença que podemos diagnosticar cedo, tratar com precisão e, em muitos casos, curar.

*Texto escrito por Dr. Wesley Andrade (CRM-SP 122593 | RQE 27534 e 27535), Mastologista, Cirurgião Oncologista, Diretor do Instituto de OncoMastologia e Cirurgia Mamária Avançada