Mês de conscientização sobre as hepatites virais alerta para diagnóstico precoce

Especialistas ressaltam que rápida identificação e início do tratamento podem evitar a progressão das doenças para quadros mais graves

Foto: Getty Images (Westend61)

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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Julho é considerado o mês de luta contra as hepatites virais, doenças caracterizadas pela inflamação do fígado e causadas por cinco tipos de vírus (nomeados das letras A à E).

A campanha Julho Amarelo alerta para a importância do diagnóstico precoce dessas doenças, uma vez que os vírus podem agir de forma silenciosa por décadas, sem que a pessoa manifeste qualquer sintoma.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as hepatites virais e as complicações relacionadas a elas podem provocar cerca de 1,4 milhão de mortes no mundo a cada ano.

“Quando o diagnóstico é feito tardiamente, o paciente pode apresentar quadros avançados de cirrose ou câncer no fígado. O objetivo é iniciar logo o tratamento, quando indicado, para evitar a progressão dessas doenças para formas mais graves”, afirma a pesquisadora Lia Lewis, chefe do Ambulatório de Hepatites Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do Rio de Janeiro.

Segundo o Ministério da Saúde, até fevereiro deste ano, 33.874 pessoas estavam em tratamento contra a hepatite B no Brasil – a doença em estágio crônico não tem cura, mas pode ser controlada. Em relação à hepatite C, os dados mostram que 19.219 indivíduos iniciaram o tratamento contra a doença ao longo de 2020.

As estatísticas de 2021, que consideram apenas os dois primeiros meses do ano, apontam que 2.232 pessoas iniciaram o tratamento no período. Conheça as diferentes hepatites virais e saiba como se prevenir.

Principais características das hepatites B, C e D

A transmissão da hepatite C acontece pelo contato com sangue contaminado, compartilhamento de agulhas e seringas, reutilização ou falha de esterilização de equipamentos médicos, odontológicos, de manicure e tatuagem. O vírus também pode ser transmitido, de forma mais rara, por relações sexuais sem o uso de preservativos ou da mãe para o filho durante a gestação ou parto.

Em relação à hepatite B, as formas de transmissão são semelhantes. No entanto, o vírus da hepatite B é transmitido de forma mais frequente por relações sexuais desprotegidas e da mãe infectada para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação. Por isso, os cuidados incluem o uso de preservativo e a testagem das gestantes no início do pré-natal.

Já a hepatite D, também chamada de Delta, é mais comum na região amazônica. O vírus responsável pela doença depende da presença do vírus do tipo B para infectar uma pessoa. Por isso, as características gerais entre as duas hepatites são semelhantes.

Segundo Lewis, a realização dos testes é fundamental para a identificação, principalmente, das hepatites B e C, que podem não apresentar sintomas por vários anos. “O diagnóstico precoce pode evitar a progressão para formas mais graves da doença. Os testes podem ser realizados com amostras de soro, plasma ou sangue, e o paciente tem acesso ao resultado em cerca de 30 minutos”, explica.

O tratamento contra as hepatites B, C e D pode ser realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A escolha da terapia depende da evolução clínica da doença, que pode se desenvolver nas formas aguda e crônica, e das respostas do organismo.

O tratamento contra a hepatite C é realizado com medicamentos antivirais, por cerca de 8 a 12 semanas. Segundo o Ministério da Saúde, os remédios apresentam taxas de cura de mais 95% e possibilitam a eliminação da infecção.

Já a hepatite B pode se manifestar inicialmente como uma infecção aguda que, na maior parte dos casos é resolvida espontaneamente pelo organismo até seis meses após o início dos sintomas. Segundo o Ministério da Saúde, o risco da evolução para uma infecção crônica varia de acordo com a idade, em crianças com menos de um ano o risco chega a 90%, nos adultos varia de 5 a 10%.

De acordo com o Ministério da Saúde, a hepatite B crônica não tem cura, mas o tratamento com antivirais reduz o risco de progressão da doença e o desenvolvimento de complicações como cirrose e câncer hepático, que podem levar ao óbito. O tratamento da hepatite D segue os mesmos protocolos da hepatite B.

Ilustração de vírus da hepatite B
Ilustração de vírus da hepatite B
Foto: Getty Images (Kateryna Kon/Science Photo Library)

Semelhanças entre as hepatites A e E

A contaminação pelas hepatites A e E acontece pela via fecal-oral, ou seja, por meio do contato entre indivíduos ou por meio de água ou alimentos contaminados. São agravos que costumam se propagar em regiões com condições precárias ou inexistentes de tratamento de água e esgoto.

As principais formas de prevenção são a melhoria da rede de saneamento básico e a adoção de hábitos de higiene, como a lavagem regular das mãos e dos alimentos consumidos crus, além da limpeza de pratos, copos e talheres.

A infecção pelos vírus A e E nem sempre é sintomática. Quando os sintomas ocorrem, os pacientes podem sentir cansaço, tontura, enjoo, vômitos, febre, dor abdominal, além de apresentar pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras. Os sintomas costumam aparecer entre duas e seis semanas e duram menos de dois meses.

A pesquisadora da Fiocruz explica que o diagnóstico é realizado por exame de sangue, não existem tratamentos específicos para as infecções e a cura costuma acontecer de forma espontânea. “O tipo A apresenta apenas formas agudas de hepatite, ou seja, o indivíduo pode se recuperar completamente, eliminando o vírus de seu organismo. A maioria dos casos de hepatite E tem este mesmo perfil”, explica Lia.

As recomendações médicas são importantes para prevenir quadros graves, incluindo evitar a automedicação, manter uma dieta balanceada e repor fluidos, quando necessário, devido aos vômitos e à diarreia.

Vacinas previnem os tipos A e B

A principal forma de prevenção contra a hepatite B é a vacina, disponibilizada gratuitamente para todas as pessoas pelo SUS. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), ela é indicada para todas as faixas etárias, além de fazer parte da rotina de vacinação das crianças e ser recomendada especialmente para gestantes não vacinadas.

A vacinação segue o esquema de quatro doses para crianças, ao nascimento e aos 2, 4 e 6 meses de vida, incluídas na vacina pentavalente. Para crianças mais velhas, adolescentes e adultos que não foram vacinados no primeiro ano de vida, o esquema é de três doses.

Em relação à hepatite A, a vacinação é recomendada para pessoas acima de um ano, em esquema de duas doses, com intervalo de seis meses. O imunizante não está disponível amplamente para a população, sendo oferecido pelo SUS para crianças de 15 meses a 5 anos incompletos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

A vacina ainda é disponibilizada gratuitamente nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) para pessoas com condições clínicas de risco para a hepatite A, como doenças crônicas do fígado, pessoas com o vírus das hepatites B e C, distúrbios de coagulação, pessoas que vivem com HIV, imunodeprimidos, transplantados de órgão sólido ou de medula óssea, entre outros. Na rede privada, o imunizante está disponível para crianças a partir de 12 meses, adolescentes e adultos.


 

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