Não há dado robusto para aplicação de 4ª dose de maneira irrestrita, diz médico

Em entrevista à CNN, o infectologista Jamal Suleiman apontou a necessidade de evidências científicas para decisão pelo uso da quarta dose contra a Covid-19 na população geral

Lucas Rochada CNNDuda Cambraiada CNN*

em São Paulo

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As vacinas contra a Covid-19 foram desenvolvidas com o objetivo principal de prevenir o desenvolvimento de quadros graves e de mortes pela doença. Após uma série de análises que certificaram que os imunizantes são seguros e eficazes, os cientistas buscam entender quanto tempo dura a proteção oferecida pelas vacinas.

Evidências científicas disponíveis atualmente apontam que a imunidade tende a reduzir com o tempo, entre seis e oito meses após a conclusão do esquema primário, que contempla duas doses para a maior parte das vacinas.

Diante deste cenário, países se mobilizaram para a aplicação de doses adicionais de reforço, com o objetivo de ampliar a resposta imunológica e a proteção contra o novo coronavírus. Após a adoção de uma terceira dose como reforço ao esquema inicial de imunização, o debate reacendeu a partir das discussões sobre a necessidade de uma quarta dose contra a Covid-19.

Desde 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que antes de avançar na aplicação de doses adicionais das vacinas contra a Covid-19, é necessário garantir o acesso de todos os países aos imunizantes. A distribuição desigual das doses entre os países ricos e pobres amplia as lacunas na vacinação e representa um risco ao enfrentamento global da pandemia.

No Brasil, o Ministério da Saúde autorizou em dezembro a aplicação da quarta dose contra a Covid-19 para indivíduos imunocomprometidos com mais de 18 anos que já completaram o esquema primário de vacinação – ou seja, tomaram as duas doses da vacina e a dose adicional. Nesta semana, o público apto para a quarta dose foi ampliado para adolescentes, entre 12 e 17 anos, que se encaixam nesse grupo prioritário.

O esquema primário de vacinação desse grupo deve ser feito com três doses – primeira, segunda e a dose adicional – com intervalo de oito semanas entre elas. Após a conclusão desse esquema, é recomendada ainda uma dose de reforço quatro meses após a terceira dose (ou dose adicional).

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defende que a adoção da quarta dose para o público geral depende de evidências científicas mais robustas.

“Antes de querer aplicar quarta dose sem evidência científica, vamos avançar na aplicação da terceira dose de vacina”, disse. “O Brasil aplicou cerca de 30% na sua população de dose de reforço. Precisamos avançar na dose de reforço e não querer aplicar uma quarta dose sem ainda ter uma evidência científica sólida”, completou Queiroga em evento neste sábado (12).

No entanto, estados como o Mato Grosso do Sul e municípios como Botucatu, em São Paulo, e Volta Redonda, no Rio de Janeiro, já deram início às campanhas para aplicação da quarta dose em idosos com 60 anos ou mais. O estado de São Paulo prevê o início da imunização desse público a partir de abril.

Necessidade de evidências científicas

Em entrevista à CNN, o médico infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, apontou a necessidade de estudos aprofundados que possam embasar a decisão pela aplicação da quarta dose para a população em geral como estratégia de saúde pública.

“A quarta dose de maneira irrestrita, não há espaço para ela por que não há dado robusto que mostre que esta dose adicional neste momento vá mudar o perfil da doença ou da infecção”, afirmou. “Hoje, os estados mais adiantados estão com 80% da sua população com uma ou duas doses do seu esquema vacinal. Ainda temos 20% que não tomou nenhuma dose”, completou (veja entrevista no vídeo acima).

Para o especialista, as definições de estratégias de vacinação devem ser acompanhadas de evidências científicas. “Observar os dados significa ver se em determinadas faixas etárias ou contingentes populacionais, que já foram vacinados, a infecção com a repercussão no seu desfecho grave ou da transmissão fica fora de controle”, afirmou.

Segundo Suleiman, a análise da resposta imunológica da população poderá permitir a decisão sobre a aplicação da quarta dose.

“Observando os dados pós cobertura vacinal da sua população, você estabelece quem são essas populações mais vulneráveis, por exemplo, que não preenchem o critério de imunodeficiência. Pessoas acima de 60 anos, por exemplo, têm uma dificuldade maior de ter uma resposta imunológica potente para uma proteção contra esse vírus que é a primeira vez que compromete humanos”, apontou o infectologista.

*Sob supervisão de Elis Franco

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