Não houve tempo para luto, diz jovem após tios e avô morrerem por coronavírus

“A doença é avassaladora, ela pode progredir de uma hora para outra. É um estado de guerra", diz o rapaz

Marcela Rahal

Da CNN, em São Paulo

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O gerente de operações Gabriel, de 30 anos, que prefere não se identificar, vivenciou de perto os efeitos mais cruéis do novo coronavírus. Em sua própria família, seis pessoas tiveram COVID-19, três faleceram e outros duas estão na UTI, em São Paulo. 

O tio, de 62 anos, diabético e hipertenso, foi a primeira vítima da família. Começou a sentir os sintomas no dia 10 de março, foi ao Hospital Sancta Maggiore, na zona sul da capital paulista, e voltou para casa no mesmo dia. Quatro dias depois, o quadro piorou. O porteiro aposentado foi internado e faleceu no dia 16 de março.  

Este foi um dos primeiros casos de morte pelo novo coronavírus no país. A família mal teve tempo de se despedir. O caixão estava lacrado e o velório durou 10 minutos.  

Com o falecido tio, moravam os avós de Gabriel, dois tios e duas tias. Todos começaram a ter sintomas da doença, e os exames deram positivo para Covid-19.  

No dia 28, uma tia que estava internada na UTI do Hospital do Servidor Público, também em São Paulo, morreu. Ela tinha 59 anos e era diabética.  

Dois dias depois, na segunda-feira (30), Gabriel se despediu do avô, de 83 anos, que também tinha diabetes. Ele faleceu depois de alguns dias internado na UTI do Hospital Sancta Maggiore.  

‘Doença é avassaladora’ 

“É um pesadelo para todos nós. A gente não teve nem tempo para entrar em luto. Enquanto estávamos perdendo eles, tínhamos que pensar nos que estão vivos. A doença é avassaladora, ela pode progredir de uma hora para outra. É um estado de guerra que a gente fica. Ficamos sem chão porque não entende como isso acontece tão rápido”, lamenta Gabriel.  

A avó chegou a ser internada na UTI, foi tratada com hidroxicloroquina, apesar de a eficácia do remédio não ser comprovada, conseguiu sair do hospital e se recupera em casa. O outro tio e tia ainda estão internados com complicações da doença.  

Além de toda a família estar sofrendo com as mortes dos parentes, agora eles estão sendo alvo de intimidação por vizinhos. Segundo Gabriel, uma moradora do prédio em que moram foi questionar a família sobre a doença de forma intimidadora.  

Gabriel está assintomático, mas diz que segue em quarentena, tomando todos os cuidados recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde). “Estamos seguindo à risca a questão do isolamento”, afirma. Mas, mesmo assim, ele diz que “a família está sendo coagida, o que torna o momento ainda mais difícil”. 

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