Neurocientista explica como a exposição pública no trabalho afeta o cérebro

Expor colegas em reuniões também pode prejudicar desempenho das equipes; segundo especialista, críticas públicas desencadeiam reações defensivas

Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo

Expor um colega durante uma reunião de trabalho, mesmo ao apontar um problema real, pode dificultar a resolução de conflitos e prejudicar o desempenho das equipes. Além do constrangimento imediato, críticas feitas diante de outras pessoas podem desencadear reações defensivas, alimentar disputas internas e comprometer a colaboração entre diferentes áreas de uma empresa.

Segundo a neurocientista comportamental Ana Carolina Souza, situações de julgamento e exposição pública podem ativar mecanismos cerebrais associados à defesa diante de uma ameaça percebida.

“Quando acusado, criticado, julgado e/ou exposto publicamente qualquer indivíduo ativa automaticamente em seu cérebro o Sistema Motivacional Defensivo, disparando respostas emocionais que assumem o controle de seu comportamento em prol de garantir a sua sobrevivência”, afirma a especialista.

A reação pode aparecer em reuniões nas quais profissionais são responsabilizados publicamente por atrasos, falhas ou resultados abaixo do esperado. Em vez de concentrar esforços na identificação das causas e na busca por soluções, os envolvidos podem passar a justificar as próprias decisões, transferir responsabilidades ou rebater as críticas.

Como a exposição afeta o comportamento

A necessidade de pertencimento e reconhecimento social ajuda a explicar por que situações de julgamento podem provocar reações intensas. De acordo com Souza, a percepção de ameaça pode levar uma pessoa a adotar comportamentos associados a duas respostas defensivas: lutar ou fugir.

No ambiente profissional, isso pode se manifestar por meio de respostas evasivas, tentativas de atribuir a culpa a terceiros, questionamentos sobre a legitimidade da cobrança ou críticas direcionadas a quem iniciou a discussão.

As reações também podem ser percebidas fisicamente, com aumento do tom de voz, aceleração dos batimentos cardíacos, respiração ofegante e tensão na mandíbula.

Nesse cenário, a discussão tende a se afastar do problema original. Os participantes passam a defender suas posições, enquanto os demais integrantes da equipe podem tomar partido com base em suas próprias experiências e percepções.

“O que existe são processos emocionais inconscientes, muitas vezes intensos, que querem determinar na ‘marra’ quem irá ganhar a discussão”, diz Souza.

A consequência pode ser uma reunião sem encaminhamentos concretos, seguida de ressentimentos e desgaste nas relações profissionais. Quando esse padrão se repete, a rivalidade entre equipes pode aumentar, dificultando a cooperação e prejudicando os resultados da organização.

Como apontar problemas sem expor colegas

Para evitar que uma cobrança se transforme em um confronto, a neurocientista recomenda que os profissionais procurem regular as próprias emoções antes de reagir. A respiração consciente, por exemplo, pode ajudar a lidar com o desconforto e evitar respostas impulsivas.

A especialista também sugere três estratégias para abordar problemas no ambiente corporativo:

  • Focar nos fatos: apresentar a situação e suas consequências sem personalizar a cobrança. Em vez de atribuir um resultado negativo diretamente a um funcionário, é possível explicar como determinada etapa do processo está comprometendo o trabalho e quais ajustes são necessários.
  • Exercer a empatia: reconhecer que os envolvidos também podem enfrentar dificuldades e demonstrar disposição para negociar alternativas. A abordagem ajuda a reduzir a sensação de isolamento e favorece uma conversa orientada à solução.
  • Adotar uma visão sistêmica: mostrar como o problema afeta o conjunto da organização e como a mudança proposta pode beneficiar diferentes equipes. O objetivo é substituir a lógica de responsabilização individual pela busca de soluções compartilhadas.

Segundo Souza, essas iniciativas podem diminuir a exposição de um profissional e favorecer atitudes mais colaborativas entre os participantes. Mesmo em conversas difíceis, a abordagem aumenta as chances de que a discussão resulte em acordos e encaminhamentos concretos.

A importância de pensar antes de fazer uma cobrança

A orientação não significa deixar de apontar erros ou evitar conversas difíceis. Problemas que comprometem processos, prazos e resultados precisam ser discutidos, mas a forma como são apresentados pode influenciar a disposição dos envolvidos para encontrar uma solução.

Antes de levar uma cobrança a uma reunião coletiva, a recomendação é avaliar se a exposição individual é realmente necessária ou se o assunto pode ser tratado de maneira mais objetiva, com foco nos fatos e nos impactos para a equipe.

“Da próxima vez que for para uma reunião de trabalho, reflita: Isso que precisa ser dito pode constranger ou expor alguém do time publicamente?”, propõe a neurocientista.

A escolha das palavras, o tom utilizado e o espaço dado para que os envolvidos apresentem suas perspectivas podem ajudar a evitar que uma discussão se transforme em uma disputa pessoal. Segundo a especialista, a prioridade, nesse caso, é preservar a possibilidade de diálogo sem deixar de enfrentar os problemas que precisam ser resolvidos.