O que é ‘efeito nocebo’, que causa reações psicológicas a medicamentos

Especialistas ouvidos pela CNN explicam o fato de saber que um evento adverso pode ocorrer após a vacinação potencializa a aparição de sintomas psicológicos

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Ingrid Oliveirada CNN

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Muitas pessoas que tomaram a vacina da Covid-19 podem experimentar efeitos adversos como febre, dor no local da aplicação, fadiga e outro. Mas, muitas vezes esses efeitos são apenas psicológicos.

Uma revisão de de 12 artigos, incluindo relatórios de sintomas colaterais que contemplaram 45.380 participantes de estudos, feita por pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center, do hospital da Escola de Medicina de Harvard, indica que mais da metade reações à vacina do coronavírus estão ligadas a sintomas psicológicos.

O estudo, publicado na revista científica Jama Network Open, demonstrou que cerca de 76% de todas as reações adversas comuns após a primeira dose e quase 52% após a segunda dose fazem parte do que eles chamam de “efeito nocebo” — uma versão inversa do efeito placebo.

Para entender melhor o que significa o efeito nocebo, Rachel Rieira, pesquisadora do Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa e professora de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina de São Paulo (Unifesp), disse à CNN que primeiro é necessário entender o que é o efeito placebo.

“Quando uma substância consegue mimetizar, ou quando a pessoa entende que que está tendo benefícios que ela teria como se tivesse tomando um medicamento, é chamado de efeito placebo.”

Rieira explica que o efeito nocebo, é a sensação de que está ocorrendo os eventos colaterais que são esperados com o medicamento ativo, mas quando a pessoa recebe o placebo.

“A ideia de placebo e nocebo são muito parecidas, só que o usamos o termo placebo quando a pessoa acredita que está tendo os benefícios, e nocebo quando ela acha que está tendo os efeitos adversos”, aponta.

Alex Lacerda, alergista e imunologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, comenta que “a nossa mente é muito poderosa e não é desassociada do nosso corpo. Muitas vezes, vai manifestar sintomas no corpo. Esses efeitos, tanto placebo quanto nocebo, acontecem principalmente por uma crença, por imaginar que algo vai acontecer quando você tem contato com o medicamento.”

Ansiedade x efeito nocebo

A sensação de algum efeito adverso relacionado à vacina, está, muitas vezes, ligada ao que a pessoa ouviu ou viu em algum lugar, segundo Álvaro Furtado, infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).

Ele esclarece que isso ocorre porque o paciente fica sugestionado e já conhece os eventos adversos.

“Alguns efeitos são muito da ordem psiquiátrica, da ordem de ansiedade, do que propriamente eventos adversos relacionados à vacina. Às vezes a pessoa estressada, preocupada, conhece alguns eventos adversos que algum amigo contou, comentou que teve febre, teve dor. Então há uma supervalorização de algo que é pequeno porque ela conhece ou porque já ouviu falar.”

Lacerda diz que pessoas que têm quadros de ansiedade podem estar mais sujeitas ao efeito nocebo.

“Porém, é importante frisar que qualquer pessoa pode sofrer deste feito e por isso é necessário saber que eles existem, pois muitas vezes os sintomas adversos não têm relação com o medicamento em  si.”

Essa incorporação de forma inconsciente dos sintomas, causam sensações que podem ser reais para o paciente, mas que quando o médico tenta de alguma forma verificar, não há sinais clínicos, explica Rieira.

“O efeito nocebo acontece principalmente nos eventos adversos que não são facilmente mensuráveis por ferramentas objetivas. Então são sintomas como uma sensação de adormecimento nas mãos, boca seca, dor de cabeça. São sinais que o paciente refere, mas quando são medidos de uma forma subjetiva, não são comprovados”, aponta.

Na pesquisa, dos 45.380 participantes dos estudos avaliados, 22.578 foram receptores de placebo e 22.802 receptores de vacina da Covid-19. Após a primeira dose, 35,2% dos pacientes de placebo sofreram dor de cabeça e fadiga. E 16% relataram dor no braço ou inchaço no local da injeção.

Como esperado, a taxa de dores de cabeça ou outros sintomas sistêmicos era quase duas vezes maior no grupo que tomou a vacina (61%) em comparação com o grupo placebo (32%).

Não são apenas frutos da imaginação

Apesar de mais da metade dos sintomas estarem associados à crença ou manifestações psicológicas, o efeito nocebo não é fruto da imaginação.

O alergista e imunologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, diz que o efeito nocebo pode potencializar sintomas negativos já existentes, ou seja, intensificar uma dor que foi provocada por uma medicação que o paciente já recebeu.

“O exemplo mais prático disso é quando a pessoa vai receber a penicilina benzatina, conhecida popularmente como benzetacil. Já se tem informação que vai doer e muitas vezes a pessoa vai ter uma dor mais intensa por efeito nocebo. Ou seja, a dor não foi fruto da imaginação, mas ela foi influenciada por fatores psicossomáticos”, explica Lacerta.

Rieira, do Sírio-Libanês, diz que isso é comum também até com pessoas que leem a bula de medicamento.

“A gente sabe que há pessoas que são mais sugestionáveis, que não podem ler a bula de um medicamento porque vai sentir todos os eventos adversos que potencialmente podem estar associados com aquela droga, mesmo que ela não sinta.”

Apesar disso, ela explica que tem gente que sente mesmo e tem manifestações. Contudo, “parte da população, às vezes, de ler, de saber que pode acontecer, já fica sugestionada.”

Como lidar com o efeito nocebo

Os pesquisadores do  Beth Israel Deaconess Medical Center, responsáveis pela pesquisa do efeito nocebo, escreveram que uma forma de diminuir esses sintomas negativos relacionados à vacina é informando o público sobre o potencial de respostas nocebo.

Isso reduziria as preocupações com a vacinação contra a Covid-19, o que pode diminuir a hesitação da vacinação.

Lacerda concorda que transmitir informação da forma correta pode beneficiar os pacientes.

“A tem excesso de informações negativas que vão causar medo e insegurança, que vão propiciar esse efeito nocebo. Neste aspecto, é importante a população conhecer que existe esse evento que pode, muitas vezes, prejudicar o tratamento a ser realizado.”

Rieira, alerta que não há uma medida que seja preventiva do efeito nocebo.

“Não sabemos nem quais pacientes estão sujeitos a esse tipo de efeito. Então a gente não consegue prever exatamente ou tratar isso. Sabemos que há pessoas mais sugestionáveis — aquelas que leram, ouviram ou são ansiosas”, explica.

Para a pesquisadora, as notícias sobre as reações da vacina têm dois papéis: “elas são importantes para conhecer quais são as reações vacinais esperadas, que acontecem com mais frequência porque com isso a pessoa se protege mais, consegue conhecer mais o seu corpo e diagnosticar, procurar o médico mais rapidamente quando entende que aquele evento pode estar associado à vacina e pode ser potencialmente grave.”

Num segundo momento, Rieira acredita que por outro lado, ler muitas notícias sobre reações, “na maioria das vezes, os efeitos são leves, não é nada grave, as pessoas ficam sugestionadas a pensar que estão tendo reações, mas quando o médico for medir de maneira objetiva, as reações não são comprovadas”, disse.

Furtado, do HCFMUSP, aponta que esses sintomas de ansiedade muito exagerados, relação a preocupação com os eventos adversos pode fazer com que pessoas deixem de tomar a vacina.

“Então, tem gente que tem mesmo que acompanhar com psiquiatra. Muitas vezes, as pessoas que têm ansiedade deixam de tomar. Então é importante que o profissional de saúde explique, tente conversar com o paciente para que ele não deixe de tomar a vacina.”

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