Pandemia impactou negativamente a sobrevivência de pacientes com câncer

Interrupções causadas pela COVID-19 levaram a piores resultados no tratamento oncológico

Mariana Valbão, da CNN Brasil
Inca divulga dados sobre doença no Dia Mundial do Câncer
Inca divulga dados sobre doença no Dia Mundial do Câncer  • Freepik
Compartilhar matéria

As falhas nos serviços de rastreamento, diagnóstico e tratamento do câncer durante a pandemia de Covid-19 contribuíram para piores resultados clínicos entre pacientes com câncer.

É o que indica um conjunto de pesquisas conduzidas pelo Centro de Câncer Markey, da Universidade de Kentucky, que chama atenção para a necessidade de fortalecer o sistema de saúde e ampliar programas de detecção precoce diante de futuras crises sanitárias.

O estudo mais recente, publicado nesta quinta-feira (5) na revista JAMA Oncology, analisou dados de mais de um milhão de pessoas diagnosticadas com câncer em 2020 e 2021. As informações foram obtidas a partir do banco Surveillance, Epidemiology and End Results (SEER), do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, que representa cerca de 42% da população do país.

Os pesquisadores observaram queda na taxa de sobrevivência tanto entre pacientes com câncer em estágio inicial quanto naqueles com a doença em fase avançada. Pessoas com 65 anos ou mais registraram algumas das reduções mais expressivas. Além disso, tipos específicos da doença, como câncer colorretal, de pâncreas e de próstata, apresentaram diminuição significativa na sobrevida.

De acordo com a análise, indivíduos diagnosticados durante os dois primeiros anos da pandemia tiveram menos chances de sobreviver ao primeiro ano após o diagnóstico quando comparados a pacientes diagnosticados entre 2015 e 2019. O levantamento estima que houve um aumento aproximado de 13% nas mortes relacionadas ao câncer nesse período, acima do esperado.

Para os autores, os resultados refletem diretamente as interrupções no atendimento oncológico causadas pela pandemia.

“É lamentável que, em um momento em que tanta atenção estava voltada para a preservação de vidas contra um novo vírus respiratório, tenhamos falhado em manter os níveis de atendimento existentes para indivíduos que enfrentam um diagnóstico de câncer”, disse o autor sênior do estudo, Todd Burus, professor assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Kentucky e membro do Escritório de Impacto Comunitário do Centro de Câncer Markey da Universidade de Kentucky.

As conclusões reforçam achados de dois estudos anteriores liderados pela mesma instituição, publicados em fevereiro e setembro de 2024, que estimaram quase 150 mil casos de câncer possivelmente não diagnosticados nos primeiros anos da pandemia.

Em conjunto, as pesquisas evidenciam os efeitos duradouros da crise sanitária sobre o tratamento do câncer e alertam para a importância de maior preparo do sistema de saúde em situações de emergência.