Para além do meme: entenda o papel do Caps, no Dia da Luta Antimanicomial
Tratamento em saúde mental ainda enfrenta estigmas

Os memes citando os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) são comuns nas redes sociais. Frases como "fugiu do Caps" e "do jeito que o Caps gosta" se popularizaram para se referir a transtornos mentais e acabam reforçando estereótipos sobre o funcionamento do serviço de saúde. Mas, afinal, como funciona e para que realmente serve o Caps?
O serviço é público e ligado ao SUS (Sistema Único de Saúde), e funciona em regime de portas abertas: qualquer pessoa pode procurar atendimento, sem necessidade de agendamento prévio. O atendimento é voltado, principalmente, para pacientes convivendo com doenças emocionais, psíquicas, alcoolismo e drogadição.
Há diferentes modalidades de Caps:
- Caps Infantojuvenis e Adultos: especializado no atendimento de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de drogas que alteram a mente e o humor;
- Caps III: com funcionamento 24 horas, atende pessoas de todas as faixas etárias com transtornos mentais graves e persistentes, inclusive pelo uso de drogas que alteram a mente e o humor. Algumas unidades contam com possibilidade de acolhimento noturno;
- Caps IV: funciona de forma semelhante ao Caps III, mas com o diferencial de possibilidade de acolhimento integral nas 24 horas;
- Caps Álcool e Drogas (Caps AD): atende pessoas de todas as faixas etárias e é especializado em transtornos provocados pelo uso de álcool e outras drogas;
Para Artur Ramos, médico psiquiatra, doutorando em psiquiatria na USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de gestão dos Caps-AD em São Paulo, os estigmas em torno do serviço reforçam não só uma lógica ainda ligada aos tratamentos em isolamento, como dificultam a busca por auxílio por pessoas que estão convivendo com algum tipo de sofrimento psíquico.
"Não é incomum nos depararmos com pessoas que precisam de algum tipo de acompanhamento em saúde mental e que chegam a hesitar em procurar o Caps", explica ele.
O médico acrescenta que ainda existe um temor, por parte dos pacientes, de sofrer abuso ou violência dentro dos centros. "Este comportamento está muito associado à história dos manicômios", explica. "A Reforma Psiquiátrica, sob o olhar da História, ainda é algo muito recente."
Luta antimanicomial busca garantir tratamento humanizado para pacientes
A Lei Antimanicomial, instituída em 2001, é um marco do Movimento Antimanicomial no Brasil e determina o fechamento progressivo de hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico, direcionando pessoas com transtornos mentais para tratamentos em liberdade. A legislação também garante direitos aos pacientes a um tratamento humanizado, proteção contra abusos e direito à informação sobre diagnósticos e internações.
O Brasil abrigou alguns dos maiores manicômios da América Latina, como o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, que ficou conhecido após denúncias de diversas violações de direitos humanos contra os internos. A jornalista Daniela Arbex escreveu o livro-reportagem "Holocausto Brasileiro" para reunir relatos sobre a instituição, cuja grande repercussão se deve à crueldade das práticas denunciadas.
A psiquiatra Nise da Silveira foi uma das pioneiras na luta pela humanização do tratamento mental no Brasil, questionando muitas das práticas da época que envolviam reclusão, eletrochoques e procedimentos invasivos em pacientes. A médica defendia o tratamento por meio da arte e expressão dos internos, que culminou na fundação, em 1952, do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um Centro de Estudo e de Pesquisa que reúne obras produzidas pelos pacientes.
"Ainda existem fortes correntes que defendem que o tratamento mais adequado para pessoas em sofrimento mental seja o isolamento", explica Artur Ramos. Para o psiquiatra, o modelo de cuidado em liberdade ainda necessita ser defendido e aprimorado tanto no cotidiano do trabalho nos Caps, como nas esferas políticas e de comunicação.


