Pesquisadores mapeiam casos graves de gestantes e puérperas com Covid no Brasil

Em meio à suspensão de vacinação, ferramenta revela que, em alguns estados, quase metade das vítimas da Covid-19 nesse grupo morreu sem acesso a UTI

Em alguns estados, metade das grávidas com quadros graves de Covid-19 está morrendo sem ter acesso à UTI
Em alguns estados, metade das grávidas com quadros graves de Covid-19 está morrendo sem ter acesso à UTI Foto: Divulgação / Pixabay

Gislene Pereira, colaboração para a CNN

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Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais lideram os 1.099 óbitos entre grávidas e puérperas (mulheres no período pós-parto e 45 dias após o nascimento dos bebês) contabilizados no Brasil desde o começo da pandemia. Porém, é em Roraima, no Espírito Santo e no Maranhão que há uma maior porcentagem de mortes em relação ao número total de notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) ligada à Covid-19 nesses grupos, principal causa relacionada aos óbitos.

Em alguns estados, metade dessas mulheres está morrendo sem ter acesso à UTI (47,3% dos casos no Pará, 45,4% no Tocantins, 38,4% no Mato Grosso) ou intubação (53,8% dos casos no Pará, 51,5% no Rio de Janeiro e 47% no Mato Grosso do Sul).

Essas são algumas das informações disponíveis no Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, um painel dinâmico que utiliza as notificações de casos de gestantes e puérperas com SRAG realizadas no sistema oficial para esse registro, o SIVEP-Gripe. A ferramenta foi criada em abril de 2021 por um grupo de pesquisadores brasileiros para tornar os dados públicos do Ministério da Saúde mais acessíveis à população, aos políticos e aos gestores de saúde pública. (Veja gráfico abaixo)

Mapeamento da Covid-19 em gestantes no Brasil
Mapeamento da Covid-19 em gestantes no Brasil
Foto: Arte/CNN Brasil

“Conseguimos transformar planilhas complexas e com uma grande quantidade de dados em um conteúdo de fácil interpretação e com atualização semanal”, diz Agatha Rodrigues, professora do Departamento de Estatística da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e uma das criadoras do projeto.  

 Ao utilizar os diversos filtros de busca da plataforma, é possível cruzar informações como raça, idade, escolaridade, região do Brasil, doenças pré-existentes e trimestre da gestação (veja quadro abaixo). “Dessa maneira, conseguimos traçar o perfil das grávidas e puérperas que estão sendo mais afetadas pela forma grave da Covid-19 e direcionar os cuidados necessários”, diz a professora Rossana Pulcinelli, do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que também é uma das idealizadoras da iniciativa. 

Perfil das gestantes que morrem de Covid-19
Perfil das gestantes que morrem de Covid-19
Foto: Arte/CNN Brasil

Pela análise dos dados disponíveis, as pesquisadoras verificaram, por exemplo, que a maior porcentagem de internações na UTI e de mortes relativas a esse grupo de mulheres está acontecendo após o parto: 36,56% das puérperas com SRAG precisaram de atendimento intensivo e 19,25% vieram a óbito.

Embora os três primeiros meses sejam sempre os mais delicados da gestação, o estágio mais preocupante com relação à Covid-19 é o segundo trimestre, que leva 30,6% das pacientes com SRAG à UTI e 11,7% delas à morte. “O levantamento dessas estatísticas é uma ferramenta muito importante para a tomada de decisão no atendimento”, diz Agatha. 

As mortes por Covid-19 em gestantes e puérperas têm crescido no Brasil acima da média da população em geral. Considerando todas as mortes por Covid-19 no país, houve um aumento de 100,2% na média de óbitos por semana entre 2020 e 2021. Quando comparamos o número de mortes só entre grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz, a média semanal de óbitos por SRAG ligada à Covid-19 sobe para 251%.

“São números preocupantes por si só, mas quando fazemos uma avaliação da realidade de cada estado brasileiro, vemos que há uma desigualdade muito grande na distribuição dos casos de morte e do acesso à UTI”, diz Rossana Pulcinelli. Isso quer dizer que alguns lugares do Brasil são ainda mais perigosos às gestantes e mulheres que acabaram de ser mães.

Grupo de risco

Na Síndrome Respiratória Aguda Grave, principal causa de morte entre grávidas e puérperas que contraíram Covid-19, o corpo passa por um processo inflamatório exacerbado, alterações pulmonares e redução da oxigenação do sangue.

“Essa situação é ainda mais perigosa para as grávidas porque a gestação já causa naturalmente um estado inflamatório no organismo, além de aumentar as chances de formação de trombos e dificultar a expansão do tórax durante a respiração”, explica Fernanda Pepicelli, ginecologista e obstetra da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Além disso, o coração de uma grávida pode bater até 1,5 vezes mais rápido do que o normal para fornecer sangue para o bebê e a placenta, o que pode levar a problemas de insuficiência cardíaca. As gestantes também costumam apresentar alterações no sistema imunológico e maior probabilidade de coagulação do sangue – condições que podem ser pioradas pela Covid-19.

Um novo estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics apontou ainda que grávidas que tiveram contato com o novo coronavírus têm um risco aumentado de complicações para si mesmas e para o bebê. Dentre elas estão a pré-eclâmpsia, as infecções, a necessidade de admissão em UTI e até a morte. Para os bebês, os riscos observados foram maior chance de parto prematuro e baixo peso ao nascer.

Vacinas contra a Covid-19

Diante da gravidade da situação desse grupo, o Ministério da Saúde divulgou no fim de abril uma nota técnica por meio da Coordenação Geral do Programa Nacional de Imunizações (PNI) que recomendava a imunização de gestantes, puérperas e lactantes contra a Covid-19.

Contudo, nesta terça-feira (11), a pasta concordou com a orientação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a suspensão do uso do imunizante da AstraZeneca em mulheres grávidas e puérperas

De acordo com a Anvisa, a orientação de suspensão é “resultado do monitoramento de eventos adversos feito de forma constante sobre as vacinas Covid em uso no país”. O caso em estudo é o de uma gestante de 35 anos, do estado do Rio de Janeiro, que faleceu na segunda-feira (10) depois de ter tomado a primeira dose de vacina da AstraZeneca.

Assim, o ministério restringiu a imunização de grávidas e puérperas àquelas com comorbidades e somente com vacinas Pfizer e Coronavac, até que a análise do caso da AstraZeneca seja concluída.

A Anvisa também orienta que as grávidas só tomem a vacina com recomendação médica. Alguns estados como São Paulo e Rio de Janeiro paralisaram preventivamente a vacinação de gestantes e puérperas.

Em relação às demais vacinas administradas no Brasil, não há contraindicação até o momento. Um estudo recente realizado com quase 4 mil mulheres grávidas que receberam o imunizante dos laboratórios Pfizer (que começou a ser aplicada no país em maio) ou Moderna (ainda não disponível no Brasil) mostrou que as vacinas não parecem representar um risco sério durante a gravidez. A queixa mais comum entre as gestantes foi a dor no local da injeção. Dentre os sintomas leves, foram relatados com baixa frequência dor de cabeça, dores musculares, calafrios e febre. 

Já o laboratório responsável pela Coronavac reforça que sua indicação para gestantes depende de avaliação médica. Na bula do imunizante, a empresa informa que testes realizados em animais não demonstraram risco fetal, mas que não há estudos controlados em mulheres grávidas ou lactantes. 

A ginecologista da Febrasgo reforça às mulheres grávidas que consultem o médico que acompanha sua gravidez para tomar a decisão sobre a vacina. “O ideal é que ela aconteça no segundo ou no terceiro trimestre da gestação para que o sistema nervoso do feto esteja desenvolvido”, diz Fernanda.

Colapso da saúde e falta de planejamento familiar

Especialistas dizem que uma série de fatores ajuda a explicar o alto número de mulheres grávidas e que deram à luz que adoecem gravemente e perdem a vida para a Covid-19. Eles incluem o colapso do sistema de saúde causado pela pandemia, o acesso inadequado ao pré-natal e a falta de planejamento familiar – sendo os dois últimos desafios de longa data no Brasil. 

De acordo com dados oficiais, o país já apresentava taxas de mortes maternas três vezes maior que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mesmo antes da pandemia. “Em 2019, a razão de mortalidade materna no país foi de 55 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. Com a pandemia, esse número vai saltar para 70 ou mais”, afirma Rossana.

Para a especialista, outra suspeita é a de que novas cepas, como a variante P1 (descrita inicialmente em Manaus), também podem ter alguma responsabilidade no aumento no número de óbitos, embora ainda não haja evidências concretas disso. 

As secretarias de saúde dos estados citados foram procuradas pela CNN e não responderam até a publicação da reportagem.

 

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