Projeto brasileiro inédito com IA devolve autonomia a pacientes com ELA

Iniciativa de R$ 5 milhões está na versão beta e poderá ser aplicado às pessoas que perderam os movimentos, mas mantêm as funções cognitivas preservadas

Rafael Saldanha, da CNN Brasil, em São Paulo
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Um projeto inédito brasileiro que utiliza inteligência artificial promete devolver voz, autonomia e carreira a pacientes com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). O Brasil celebra o Dia Nacional de Luta Contra a Esclerose Lateral Amiotrófica neste domingo (21).

A data é dedicada à conscientização sobre a doença neurodegenerativa rara que provoca a perda progressiva dos movimentos e compromete funções essenciais como falar, caminhar, engolir e respirar. Para milhares de pacientes, o avanço da doença representa também o afastamento precoce da vida profissional, acadêmica e social.

Porém, um projeto inovador desenvolvido no país está ajudando a mudar essa realidade ao inaugurar um novo campo de atuação da inteligência artificial: a IA assistiva de alta complexidade, voltada não apenas à comunicação, mas à preservação da produtividade intelectual, científica e profissional.

Fruto de uma parceria entre a Fundação Unimed e a startup brasileira WorkAI, o projeto ExtensIA utiliza inteligência artificial para preservar, ampliar e perpetuar o conhecimento de profissionais acometidos por doenças neurodegenerativas que afetam os movimentos, mas preservam as capacidades cognitivas.

O primeiro estudo de caso do projeto é o da psiquiatra Maria Inês Quintana, uma das maiores especialistas brasileiras em transtorno de personalidade borderline. Diagnosticada com ELA há quase três anos, ela perdeu completamente a mobilidade do corpo, mas continua cognitivamente ativa. Com o apoio da tecnologia, ela retomou suas atividades profissionais.

Mesmo após perder completamente os movimentos do corpo, Maria voltou a lecionar, palestrar e compartilhar seu conhecimento com médicos e estudantes. A ExtensIA representa um marco na aplicação de inteligência artificial voltada à continuidade profissional e intelectual.

No caso de Maria Inês, a tecnologia permite que sua carreira acadêmica e clínica não seja interrompida pela progressão da doença. Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), coordenadora de pesquisa do Ambulatório de Transtornos da Personalidade e coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed, Maria Inês precisou buscar alternativas para continuar se comunicando e exercendo sua profissão. Atualmente, utiliza tecnologias assistivas como o Tobii Communicator, que permite a digitação por meio do movimento dos olhos.

O projeto de cerca de R$ 5 milhões está na versão beta e tem a Seguros Unimed, a Unimed Campinas e a Unimed-BH como investidores. Em breve, poderá ser aplicado às pessoas que perderam os movimentos, mas mantêm as funções cognitivas preservadas. 

Entenda o projeto

O sistema com tecnologia desenvolvida pela WorkAI é estruturado em três frentes complementares, que combinam ciência médica, engenharia de dados e inteligência artificial de alta complexidade.

A primeira é o Agente Clínico Assistivo, um conjunto de IAs treinadas com todo o acervo intelectual acumulado por Maria Inês ao longo de mais de 30 anos de atuação. A segunda frente é o Avatar Digital Palestrante, já em operação.

Desenvolvido a partir da imagem e da voz originais da psiquiatra, o avatar é capaz de ministrar aulas e palestras, de maneira assíncrona, em português, inglês e espanhol.

A terceira frente do projeto é o Sistema Multiagente Coordenador, que será integrado aos sistemas educacionais da Faculdade Unimed. Um conjunto de agentes de IA será responsável por tarefas como a organização de grades curriculares, análise de ementas e apoio à gestão acadêmica.

Com um Instituto de Ciência e Tecnologia, a Fundação Unimed, por meio da Faculdade Unimed, é a responsável pela coordenação científica e institucional do projeto. “O ExtensIA integra ciência, tecnologia, mas, principalmente, o cuidado com as pessoas. A iniciativa apresenta uma nova forma de compreender, preservar e compartilhar o conhecimento humano, mesmo diante das limitações impostas por doenças irreversíveis”, reforça o professor Dr. Fábio Gastal, psiquiatra e diretor acadêmico da Faculdade Unimed.