Qual vacina contra a Covid-19 devo tomar? Saiba o que diz uma especialista

A médica americana e analista da CNN, Leana Wen, responde perguntas sobre diferenças entre as vacinas e quais são as mais indicadas

Chile utilizará a Coronavac, importada de Pequim, para iniciar vacinação em massa
Chile utilizará a Coronavac, importada de Pequim, para iniciar vacinação em massa Foto: Thomas Peter/Reuters

Katia Hetter, da CNN

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Enquanto o brasileiro ainda vê os processos de aprovação de vacinas e a compra de lotes emperrados, no exterior, alguns privilegiados discutem qual vacina é a mais indicada para tomar.

Mesmo os Estados Unidos, que tiveram uma conduta pouca científica nos primeiros meses da pandemia, identificaram a necessidade de variar sua carteira de opções de vacinas e estão disponibilizando três opções para a população, os imunizantes da Pfizer, da Moderna e da Johnson & Johnson.  

No Brasil, a Anvisa aprovou em caráter definitivo, no último dia 23, o uso da vacina da Pfizer em todo território nacional. A Coronavac e a vacina da Oxford/Aztrazeneca foram aprovadas em caráter emergencial.

 

Enquanto o brasileiro espera, ansioso, pela compra das doses para que o país possa sonhar novamente no dia em que tudo voltará ao normal, a médica americana e analista da CNN, Leana Wen, responde algumas perguntas sobre diferenças entre as vacinas e quais são as mais indicadas.

Quais as diferenças entre as vacinas da Pfizer, Moderna e da Johnson & Johnson (aprovadas pela FDA, nos Estados Unidos)? O que sabemos sobre elas, sua segurança e eficácia?

Dra. Leana Wen: As vacinas da Pfizer e Moderna (que foram autorizadas primeiro nos Estados Unidos, em dezembro) são semelhantes entre si no sentido de que ambas são desenvolvidas usando a plataforma de mRNA. A vacina Johnson & Johnson acaba de ser autorizada (nos Estados Unidos). Ela usa uma forma diferente de estimular uma resposta imunológica, com um vírus inativado. As vacinas Pfizer e Moderna requerem duas injeções. A Johnson & Johnson acaba de ser autorizada como vacina de dose única.

Todas as três vacinas têm perfis de segurança muito favoráveis, o que significa que foram todas atestadas como muito seguras quando aplicadas em dezenas de milhares de pessoas. Todas as três estão, virtualmente, com 100% de eficácia em ensaios clínicos quando o assunto é prevenção contra hospitalizações e mortes, que é o desfecho com o qual realmente nos importamos.

As vacinas Pfizer e Moderna parecem ser mais eficazes na prevenção de doenças leves a moderadas, cerca de 95%. A vacina da Johnson & Johnson é cerca de 72% eficaz, com base em testes nos Estados Unidos. No entanto, esses resultados não devem ser comparados diretamente, porque os estudos não foram feitos como comparações diretas entre as vacinas.

Por que os estudos não podem ser comparados? As pessoas olham para esses números e dizem, 95% contra 72%? Vou pegar aquela que é 95%.

Wen: Essa é uma preocupação compreensível. Aqui estão três razões pelas quais essa não é a comparação correta.

Primeiro, as vacinas foram estudadas em diferentes períodos. Os estudos da Pfizer e da Moderna foram feitos antes que essas variantes mais preocupantes se tornassem um fator importante. Além disso, não havia doença tão disseminada no momento em que os testes foram realizados. Não sabemos qual seria sua eficácia se fossem estudadas nas mesmas condições da vacina Johnson & Johnson, ou vice-versa. É por isso que dizemos que essas não são comparações diretas.

Em segundo lugar, um dos principais locais onde a vacina Johnson & Johnson foi estudada foi a África do Sul, onde a variante predominante na época do estudo era a variante B.1.351. Há uma grande preocupação de que nenhuma das vacinas que possuímos funcione tão bem contra essa variante.

Estudos de laboratório para Pfizer e Moderna, por exemplo, mostraram que há menos anticorpos neutralizantes desenvolvidos contra essa variante. Isso sugere que as vacinas desses laboratórios podem não funcionar tão bem nesses casos. Além disso, estudos preliminares de duas outras vacinas em desenvolvimento, Novavax e AstraZeneca, mostraram que essas vacinas são menos eficazes contra essa variante.

Com relação à vacina Johnson & Johnson, parece que também é menos eficaz contra a variante sul-africana. No entanto, ainda é muito eficaz. Mesmo na África do Sul, a vacina evitou 82% das doenças graves (em comparação com 86% nos Estados Unidos). Mais importante ainda, na África do Sul, não houve casos de hospitalizações ou mortes entre aqueles que receberam a vacina.

Uma vacina eficaz contra essa variante é importante, especialmente porque outras variantes emergentes também parecem ter a mesma mutação que esta cepa, B.1.351. Ter uma vacina que seja claramente eficaz contra esse tipo de mutação é uma vantagem.

 

Terceiro, vamos lembrar que a vacina Johnson & Johnson é uma vacina de dose única. Isso simplifica substancialmente a logística por não ter que fazer segundas aplicações e armazenar segundas doses. Essa vacina também pode ser armazenada em temperatura de geladeira por meses, possibilitando que os consultórios médicos normais a possuam – e muitas pessoas podem preferir ir ao consultório médico para tomar a vacina.

As pessoas também podem preferir “ir uma vez, e pronto” em vez de fazer duas viagens, especialmente quando essa vacina parece ser tão eficaz naquilo que mais importa: prevenção de quadros suficientemente graves, que resultam em hospitalização e morte.

E as pessoas vacinadas que espalham a infecção? Sabemos se a vacina Johnson & Johnson reduz a propagação do vírus?

Wen: Também há boas notícias com relação a isso. O ensaio clínico analisou se as pessoas vacinadas podem ser portadoras assintomáticos. Cerca de dois meses depois de terem recebido a vacina, parece que tiveram uma redução de 74% nas infecções assintomáticas.

Essa é uma das principais perguntas sem resposta sobre a vacina. Sabemos que todas as vacinas autorizadas são realmente eficazes na proteção da pessoa que está sendo vacinada. A questão é: as vacinas também protegem a pessoa de transportar o vírus e infectar outras pessoas? Há evidências crescentes de que esse é o caso de todas as vacinas que temos, embora não saibamos quão boa é essa proteção – e, portanto, as pessoas vacinadas ainda devem ter muito cuidado e usar máscaras em público, por exemplo.

Quais pessoas devem tomar qual vacina? Por exemplo, as pessoas mais velhas ou imunossuprimidas devem receber um tipo específico de vacina?

Wen: Ainda não temos essa informação, e o FDA (Food and Drug Administration) e o CDC (Centros dos EUA para Controle e Prevenção de Doenças) – autoridades americanas responsáveis pelos protocolos de contenção do vírus e vacinação – não fizeram esse tipo de recomendação. Os estudos sobre isso estão sendo feitos e, nos próximos meses, poderemos descobrir algo. Talvez possamos descobrir que as pessoas de uma determinada faixa etária ou com certas comorbidades se dão melhor com uma vacina em vez de outra. Nesse caso, as pessoas podem tomar essa vacina.

A dica agora é não esperar. Tome a vacina a qual você tem acesso primeiro.

E quanto a gestantes e crianças? As vacinas são seguras para eles?

Wen: Nenhuma das vacinas foi estudada especificamente com mulheres grávidas ou amamentando, embora as mulheres tenham a opção de tomá-las. Em breve, elas serão estudadas nessas populações. A vacina da Pfizer é autorizada para pessoas maiores de 16 anos e as demais, com 18 anos ou mais. Estudos estão em andamento para crianças mais novas, mas, a partir de agora, as vacinas ainda não estão disponíveis para crianças.

Qual vacina você recomendaria que alguém tomasse?

Wen: Tome a vacina que lhe foi oferecida. Todas as três vacinas (que foram aprovadas nos Estados Unidos: Pfizer, Moderna e Johson & Johson) são seguras e eficazes. Pense em outras vacinas que tomamos, como a vacina contra a gripe. A maioria de nós não pergunta qual empresa a fabrica. Nós apenas queremos que funcione. Todas as vacinas têm vantagens e, novamente, como não foram estudadas frente a frente, não temos como saber exatamente qual vacina é a “melhor” e para quem.

No momento, a oferta é o fator limitante. A maioria das pessoas não terá escolha. Pode ser que o consultório do seu médico, farmácia ou local de vacinação em massa tenha apenas um tipo de vacina. Se é essa que você tem acesso agora, deve tomá-la em vez de esperar um período de tempo desconhecido para outra vacina.

Esse é o conselho que dou aos meus familiares e pacientes. É também o conselho que estou seguindo. Eu devo descobrir logo se recebi a vacina ou o placebo como parte do ensaio clínico da Johnson & Johnson. Se eu tiver recebido o placebo, ficarei feliz em tomar qualquer vacina que esteja disponível para mim primeiro, que provavelmente será a vacina Johnson & Johnson.

Lembre-se de que tomar uma vacina não significa que você está para sempre comprometido com ela. A Pfizer e a Moderna estão estudando doses de reforço que visam combater variantes específicas. A Johnson & Johnson está fazendo o mesmo teste e também estudando uma vacina de duas doses para ver se uma segunda dose aumenta a proteção da primeira. Nos próximos meses, quando houver mais oferta e mais pesquisas sobre qual vacina é melhor, e para qual grupo de pessoas, você poderá obter outra vacina.

É por isso que o conselho fundamental é o seguinte: tome a vacina à qual você tem acesso o mais rapidamente possível. Obter alguma imunidade agora protege você e outras pessoas ao seu redor. Também nos ajuda, como sociedade, a alcançar a imunidade coletiva mais cedo.

Texto traduzido. Leia aqui a versão original em inglês.

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