Restrição de carros antigos e poluentes em Londres gera melhora dos pulmões
Proporção de crianças com função pulmonar comprometida na capital britânica caiu de 14% para 9% após a medida

Restrições à circulação de veículos mais antigos e poluentes na maior parte da capital britânica estão "fortemente" associadas à melhoria da saúde pulmonar em crianças, de acordo com um novo estudo.
Pesquisadores descobriram que as melhorias na qualidade do ar após a implementação da Zona de Emissões Ultrabaixas (ULEZ) de Londres em 2019 ajudaram a impulsionar o crescimento pulmonar, que antes era prejudicado pelos efeitos da poluição atmosférica, afirmou uma equipe liderada por cientistas da Queen Mary University of London (QMUL).
“Já sabíamos que a ULEZ reduzia a poluição do ar, mas agora sabemos que a saúde pulmonar das crianças também melhorou, o que é uma descoberta muito importante para as crianças e os pais que vivem em Londres”, disse a autora principal do estudo, Helen Wood, pesquisadora da QMUL, em um comunicado divulgado na quarta-feira.
Na prática, a ULEZ introduziu uma taxa de £12,50 (US$17) válida 24 horas por dia, sete dias por semana, para veículos que não atendem aos rigorosos padrões de emissões. Inicialmente abrangendo a área central da cidade, a ULEZ foi expandida em agosto de 2023 para incluir os bairros periféricos e subúrbios da capital.
O estudo acompanhou mais de 3.400 crianças de 6 a 9 anos de idade, de 84 escolas diferentes em Londres e Luton, uma cidade a cerca de 48 quilômetros ao norte da capital britânica, entre 2018 e 2022. Luton serviu como local de comparação, ou controle, por apresentar uma mistura semelhante de poluentes do tráfego, mas sem uma Zona de Emissões Ultrabaixas (ULEZ).
Inicialmente, descobriu-se que as crianças em Londres tinham uma capacidade pulmonar "significativamente" menor do que as que viviam em Luton.
Em seguida, os cientistas mediram o tamanho e a saúde dos pulmões das crianças durante visitas escolares anuais ao longo de cinco anos. Os dados revelaram que o tamanho e a saúde dos pulmões das crianças londrinas melhoraram após a implementação da ULEZ, recuperando-se a um nível semelhante ao das crianças de Luton.
“Ao longo do estudo, a equipe observou que a proporção de crianças com função pulmonar clinicamente comprometida caiu de 14% para 9% em Londres, em comparação com uma queda de 9% para 7% em Luton”, diz o comunicado.
Embora Luton não tenha implementado uma zona de ar limpo, o conselho local tomou medidas para melhorar a qualidade do ar durante o período do estudo, incluindo a redução dos limites de velocidade e o desenvolvimento de redes para ciclistas e pedestres, de acordo com o estudo.
Segundo pesquisadores, crianças cujos pulmões não se desenvolvem completamente até o início da idade adulta enfrentam um risco maior de desenvolver doenças respiratórias como asma e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), que inclui condições como enfisema e bronquite crônica, doenças cardiovasculares e metabólicas, além de morte prematura.
Os resultados do estudo, que mostram que os déficits na saúde pulmonar podem ser revertidos, têm “implicações importantes para a melhoria da saúde a longo prazo das crianças”, afirmaram em comunicado.
Esta é a primeira evidência de que zonas de ar limpo, que foram implementadas em diversas cidades ao redor do mundo, podem beneficiar o desenvolvimento infantil, afirmaram os pesquisadores.
“A poluição do ar é um problema global. Se quisermos melhorar a vida das crianças que vivem em ambientes urbanos com tráfego intenso, precisamos de medidas ousadas e ambiciosas”, afirmou Ian Mudway, professor associado da Escola de Saúde Pública do Imperial College London e um dos autores principais do estudo, em comunicado.
“Nossos dados demonstram que zonas de ar limpo podem ser uma intervenção eficaz de saúde pública para prevenir danos aos pulmões em desenvolvimento.”
O prefeito de Londres, Sadiq Khan, que introduziu a ULEZ em abril de 2019, enfrentou críticas consideráveis pela medida.
Ele escreveu um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian na terça-feira, chamando a decisão de implementá-la de "minha decisão mais difícil como prefeito de Londres", com todos os principais partidos políticos do Reino Unido se opondo a ela.
“Durante anos, políticos e especialistas contrários à ULEZ tentaram, de forma cínica, transformar questões de saúde pública em uma grosseira guerra cultural”, escreveu Khan. “Hoje, porém, está claro que estamos vencendo a batalha contra o ar tóxico na capital – e são as crianças de Londres que estão colhendo os frutos.”
Descobertas 'impressionantes'
Stephen Burgess, professor de bioestatística da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que não participou do estudo, afirmou ter abordado a pesquisa "com um alto nível de ceticismo".
“Minha expectativa era de que as regulamentações da ULEZ tivessem pouco impacto mensurável na saúde infantil”, disse ele em um comunicado ao Science Media Centre.
“No entanto, as descobertas são impressionantes”, disse Burgess, que, no entanto, ressaltou que pode haver explicações alternativas para a melhora na função pulmonar, como uma queda nos níveis de poluição durante a pandemia de Covid-19.
“Se essa melhora pode ser atribuída à introdução das regulamentações da ULEZ é algo mais questionável”, acrescentou. “No entanto, a descoberta é importante porque a função pulmonar na infância é uma medida importante de saúde, e o estudo fornece evidências encorajadoras de que mudanças no ambiente urbano podem beneficiar o desenvolvimento pulmonar das crianças.”
No entanto, Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada da Open University do Reino Unido, que não participou da pesquisa, afirmou que, embora o estudo sugira que a introdução da ULEZ provavelmente melhorou a função pulmonar das crianças, isso não comprova uma relação direta.
“Este artigo não estabelece que esta seja a única explicação, e os pesquisadores indicam isso ao falar sobre a introdução da ULEZ estar 'associada', ou seja, correlacionada com, um crescimento mais rápido da função pulmonar, em vez de ser definitivamente uma causa dessa diferença”, disse ele em comentários ao Science Media Centre.
McConway acrescentou que o estudo se limitou a apenas duas áreas geográficas: Londres e Luton.
"Acho que os resultados poderiam ter tido uma interpretação mais clara se os pesquisadores tivessem incluído dados de mais alguns locais onde as zonas de ar limpo foram implementadas e de mais alguns locais onde não foram", acrescentou.
O estudo foi publicado na revista “ The Lancet Public Health ”.



