Um ano vivendo à sombra de uma pandemia; como os países lidaram com a Covid-19

Há exatamente um ano, OMS declarava pandemia de Covid-19; líder técnica do órgão analisa como os países se saíram nesse período.

Paciente com coronavírus recebe oxigênio em tratamento
Paciente com coronavírus recebe oxigênio em tratamento Foto: Bruno Kelly/Reuters

Por Dr. Sanjay Gupta, correspondente médico da CNN

Ouvir notícia

Hoje, 11 de março, completa um ano desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, uma pandemia.

Nos primeiros meses de 2020, à medida em que a crise de saúde sem precedentes cruzou rapidamente as fronteiras – China, Itália, Espanha, Coréia do Sul, Japão e os Estados Unidos – ela começou a tomar a forma de uma ameaça global crescente. Algo além de uma epidemia.

Enquanto eu fazia pesquisas, fiquei surpreso ao saber que não havia uma definição universalmente aceita de “pandemia”. Mas um número crescente de especialistas médicos e funcionários da saúde pública com quem conversei estavam me dizendo que aquela situação cabia no contexto de pandemia.

Em termos gerais, uma pandemia é o surto de um vírus que pode causar doença ou morte, onde há transmissão constante desse vírus e evidência de sua disseminação em diferentes locais geográficos. Todos os pontos batiam.

Ainda assim, chamá-la de pandemia parecia importante e pesado. Não foi uma decisão que a CNN (ou eu, pessoalmente) tomamos levianamente – não queríamos deixar as pessoas em pânico – porque sentíamos que devíamos chamá-la como era. E então fizemos isso em 9 de março.

Alguns dias depois, a OMS adotou a mesma linguagem.

Para ser justo, a OMS vinha soando o alarme continuamente por quase seis semanas, desde 30 de janeiro de 2020, quando o diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou a situação uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” – o mais alto nível de alerta de saúde sob a lei internacional. A definição é “um evento extraordinário que pode constituir um risco à saúde pública para outros países por meio da disseminação internacional da doença e pode exigir uma resposta coordenada internacionalmente”.

Para este aniversário simbólico, conversei com Maria Van Kerkhove, líder técnica da OMS para resposta ao coronavírus, para refletir sobre o ano da pandemia e os seguintes.

Países diferentes, respostas diferentes, resultados diferentes

Van Kerkhove – que disse que a OMS tenta fazer pelo mundo o que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos fazem no país – me disse que o objetivo de uma emergência de saúde pública de interesse internacional é soar o alarme antes de realmente se tornar uma pandemia, quando ainda há tempo para tentar prevenir e se preparar de qualquer forma para o que está por vir. Há mais de um ano, a OMS vem tentando mudar a trajetória da pandemia por meio de seus especialistas, com orientação, aconselhamento e apoio, bem como conferências de imprensa frequentes.

Embora cada país tenha respondido à ameaça emergente de sua própria maneira, alguns levaram os primeiros alertas mais a sério, disse ela.

“Não se tratava de países ricos ou pobres. Era uma questão de experiência. Era sobre aqueles países que conheciam a ameaça que isso representava; eles atenderam aos nossos avisos”, disse Van Kerkhove. Essa experiência veio após lidarem com surtos infecciosos anteriores, como SARS, MERS e Ebola. E esses países rapidamente implementaram fortes medidas de saúde pública, mobilizaram agentes comunitários de saúde, agentes de rastreamento de contatos e técnicos de laboratório.

Van Kerkhove aponta lugares como Coreia do Sul, Japão e Nigéria – todos os quais conseguiram manter a transmissão deste novo vírus relativamente sob controle.

Para mim, a Coreia do Sul tem sido um dos exemplos mais claros de sucesso. O país relatou seu primeiro caso de Covid-19 em 20 de janeiro de 2020, horas antes de os Estados Unidos confirmarem seu primeiro caso, em 21 de janeiro.

Mas os dois países acabaram em lugares extremamente divergentes: os Estados Unidos têm mais de 29 milhões de casos reportados e mais de meio milhão de mortes. A Coreia do Sul? Menos de 100 mil casos e menos de 2 mil mortes. Não podemos descartar que os EUA têm uma população maior do que a Coreia do Sul, mas quando analisamos as mortes per capita, por 100 mil habitantes, os EUA têm mais de 161 em comparação com a Coreia do Sul, que tem três.

Van Kerkhove disse que a Coreia do Sul aprendeu lições com o surto de MERS em 2015. “O que eles aprenderam com isso foi reconstruir o seu sistema e melhorar a saúde pública, que foi utilizado durante esta pandemia”, disse ela.

Como exemplo, ela apontou o que aconteceu na cidade de Daegu, quando houve um grande surto ligado aos cultos da igreja em fevereiro. “Os números dos casos estavam aparentemente fora de controle”, disse ela. “E a Coreia deu a volta por cima”.

Como eles fizeram isso? Utilizando estratégia e equilibrando as ferramentas de que dispõem, disse Van Kerkhove. “Eles observaram a situação em que se encontravam. Eles aprimoraram a investigação sobre aglomeração. […] Eles aumentaram sua capacidade de triagem, a capacidade de teste. Eles usaram a quarentena de forma eficaz e controlaram o surto. Mas, em determinado momento, parecia quase impossível – e eles mudaram isso”, disse ela.

Ela acrescentou que outros países também mudaram as coisas, por exemplo, Camboja, Tailândia, Ruanda e África do Sul, mesmo com o surgimento de uma variante mais contagiosa por lá. “A resiliência das pessoas é o que é encorajador e inspirador”, disse ela.  

O que sempre me impressionou é que, embora os surtos de doenças infecciosas geralmente destruam os países mais pobres, esse novo coronavírus afetou desproporcionalmente muitas das nações mais ricas do mundo. Considere que há cerca de 9 mil casos por 100 mil habitantes nos Estados Unidos. Compare com a Índia, onde há cerca de um décimo disso, mesmo o país tendo áreas com a maior densidade populacional do mundo.

Como dizem, o dinheiro não pode comprar tudo, principalmente uma boa saúde. “Você pode ter sistemas médicos realmente bons nos países, os melhores tratamentos do mundo. Mas isso não compensa os fundamentos da saúde pública”, disse Van Kerkhove.

Variantes e vacinas

Agora que estamos no segundo ano da pandemia, a cavalaria chegou na forma de vacinas. Mas com elas, um inimigo mais contagioso e, possivelmente, em alguns casos, mais mortal. Novas variantes do vírus estão dizimando cidades no Brasil; diferentes variantes ocorreram no Reino Unido e na África do Sul. E elas estão se estabelecendo nesse país também.

Isso pode ser resolvido fornecendo um melhor acesso à vacina para países pobres. De acordo com a People’s Vaccine Alliance, um grupo global de vigilância de vacinas, as nações ricas agora estão vacinando uma pessoa a cada segundo, enquanto a maioria das nações mais pobres ainda precisa administrar uma única dose.

Mas isso está mudando, graças à COVAX, uma iniciativa global que promove o acesso equitativo às vacinas contra a Covid-19 para as nações em desenvolvimento. Liderada pela OMS e outras organizações, a COVAX distribuiu 20 milhões de doses de vacina para 20 países na semana passada, durante o primeiro lote de distribuição, de acordo com o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. Um adicional de 14,4 milhões de doses de vacina está programado para sair esta semana para outros 31 países.

“Todos nós fazemos parte desta comunidade global. Cada vida neste planeta é importante”, disse Van Kerkhove. “Todos neste planeta merecem ser protegidos”.

A cada dose, o mundo está começando a ver alguma esperança. E os países que obedeceram às advertências da OMS e seguiram as orientações de saúde pública estão nos dando um vislumbre de uma vida pós-pandemia.

“Tenho vislumbres de esperança em muitos países ao redor do mundo”, disse Van Kerkhove, apontando para lugares como a Austrália, Nova Zelândia, China e o Japão. “Vejo sociedades que estão se abrindo. Vejo eventos esportivos acontecendo. Vejo uma comunidade resiliente, que está vivendo sua vida, que reduziu a transmissão a zero em algumas situações”.

Van Kerkhove, eu e muitos outros fomos humilhados por este vírus – que nos ensinou que ricos e pobres não importam, fronteiras não importam e que coisas inesperadas podem acontecer. Nós esperamos que todas as nações, mas especialmente as nações ocidentais, usem as lições infelizes que todos fomos forçados a aprender para colocar os sistemas em funcionamento para que estejamos em uma posição melhor para enfrentar o próximo evento inesperado, a próxima pandemia, o próximo patógeno infeccioso – porque certamente este não será o último.

Contribuíram para este artigo: Andrea Kane e Amanda Sealy, da CNN Health

Mais Recentes da CNN