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    Varíola dos macacos não terá a mesma escala da Covid-19, afirma especialista

    De acordo com a virologista do Laboratório de Biologia Molecular de Vírus da UFRJ, a taxa de letalidade da doença é de 1%

    Representação artística do vírus da varíola
    Representação artística do vírus da varíola Roger Harris/Science Photo Library/Getty Images

    Nathalie Hanna AlpacaStéfano Sallesda CNN

    Rio de Janeiro

    Em entrevista à CNN nesta quarta-feira (1º), a virologista do Laboratório de Biologia Molecular de Vírus da UFRJ, Clarissa Damaso, afirmou que a varíola dos macacos não será um problema com a mesma escala da Covid-19, pois não é tão transmissível como o coronavírus.

    Damaso é especialista em poxvírus – uma família de patógenos grandes e complexos, com genoma DNA, e cujo membro mais notório é o vírus da varíola.

    De acordo com a especialista, não é necessário alarde, uma vez que o país tem como oferecer suporte à população. “Não acredito que vá escalar, como a gente teve para a Covid. O padrão de infecção é bem diferente. Então eu gostaria de dizer à população para não ter pânico porque nós temos armas para lidar com esse vírus”, diz.

    Em relação à vacina contra a varíola, a virologista afirma que não há uma produção industrial para o imunizante, pois nenhum dos produtos existentes é disponibilizado comercialmente desde a erradicação da varíola. De acordo com Damaso, cada país tem uma atitude com relação ao imunizante e não é necessário oferecê-lo à população em geral.

    Segundo a pesquisadora, que integra o Comitê Assessor para Pesquisa da Varíola da Organização Mundial da Saúde (OMS), o objetivo da fabricação destes imunizantes existentes até o momento é por conta do risco da do uso do vírus da varíola como arma biológica.

    “É uma vacina dada para pesquisadores que trabalham com poxvírus, e para militares que vão para zonas de conflito, com medo de uma possível guerra biológica. Então, não é uma vacina de uso generalizado. É claro que em uma situação como essa, as empresas vão ter que escalar a produção. Porque agora os países querem comprar para proteger seus profissionais da saúde”, diz Damaso.

    “O poxvírus não é um vírus complicado. Se o Brasil vai produzir ou não, não sei. Tem que ser em acordo com essas empresas, porque, obviamente, existe uma patente envolvida. Eu acho mais simples comprar, porque não vai ter necessidade de vacinar a população como um todo. Não vai ser como a Covid”, afirma.

    “Então, o número de doses é bem mais baixo. A recomendação que se tem é de vacinar profissionais de laboratórios de diagnóstico, laboratórios de pesquisa, clínicas, pessoas da saúde que vão atender no pronto atendimento os casos de emergência e contatos de casos confirmados. Então, vai ser bem restrito”, completa.

    Nome inadequado

    Segundo a professora da UFRJ, nunca houve casos de varíola dos macacos no Brasil e só seriam possíveis caso a pessoa contaminada tenha vindo de um país endêmico, como Nigéria, República Democrática do Congo e algumas outras nações africanas.

    Damaso explica que, no contexto do surto atual, a identificação deste vírus pode ser realizada também em países não endêmicos, como no continente europeu. Além disso, a virologista chama atenção para o nome como a doença tem sido chamada nos países lusófonos e hispânicos, que não é representativo, já que a varíola só ocorre em humanos e a origem do vírus veio dos roedores, e não dos macacos.

    Tubos de ensaio com rótulos sobre vírus da varíola dos macacos / 23/05/2022 REUTERS/Dado Ruvic

    “Acho importante que a população não tenha pânico nem preconceito. Tenho receio com essa história de ‘varíola dos macacos’, um termo usado no Brasil e na língua espanhola, mas não usado em inglês. Se fosse varíola, aí realmente seria complicado. A taxa de transmissão é muito alta, com uma taxa de letalidade de 30%, enquanto a da monkeypox é de 1%”, afirma

    “Os macacos não são culpados, são hospedeiros acidentais, igual os homens. Meu medo é acontecer o mesmo quando teve a febre amarela, quando as pessoas estavam matando esses animais achando que transmitiam a doença. Esse nome foi intitulado porque o vírus foi identificado, pela primeira vez, em macacos”, relata.

    Damaso explica que, para saber se o paciente está infectado, os especialistas têm testado as amostras para o mesmo gênero: orthopoxvírus. Caso ela seja positiva, são boas as chances de ser um caso da doença. Assim, a amostra é encaminhada para sequenciamento genômico.

    O tempo para obtenção da resposta varia de acordo com a rotina dos laboratórios, mas tende a durar no máximo uma semana. O procedimento é feito desta maneira porque não há kit de RT-PCR em tempo real disponível.

    “Tem que lembrar que um diagnóstico confiável depende de uma boa qualidade de amostras. Então, a gente tem que ter também os profissionais que vão coletar as amostras nos postos sabendo coletar adequadamente. O Ministério da Saúde já liberou orientações para coleta e transporte das amostras”, conta.

    Ela destaca que este tipo de vírus pode ser contraído com o contato de pele. A especialista aponta que é necessário o isolamento quando há um caso suspeito, porque é necessário que as pústulas, uma irritação de pele, sequem. As crostas secas, segundo Damaso, também podem transmitir o vírus, então o ideal é não manter contato com quem está infectado.

    “Acho que as pessoas têm que só observar os sintomas, perceber se está dentro dos grupos de maior contato. Por exemplo, a pessoa veio de Portugal, tive contato com pessoas que estavam com febre, etc. Então é importante se autoanalisar, porque é a pessoa que decide procurar um agente de saúde”.

    “Confirmando a suspeita, essa pessoa tem que entrar em isolamento, se os sintomas persistirem. Porque desta forma ela começa a infectar as pessoas dentro da casa. Sem contato de pele ou de secreção com outra pessoa”, explica.

    Damaso defende o investimento em ciência, já que é por meio de pesquisas que os profissionais conseguem encontrar soluções para estes problemas. A professora afirma que, mesmo com pouco financiamento, o Brasil tem uma boa estrutura, para enfrentar a doença. Boa parte dela, deixada como legado pelo combate à Covid-19.

    “É importante destacarmos a valorização da ciência no Brasil. Com certeza os países que não investiram em grupos até mesmo de poxvírus estão muito mais perdidos do que estamos aqui. Isso eu acho fundamental. Então, nós temos que investir sempre em ciência, porque nós nunca sabemos o que está por vir. A gente está preparado. Não só com mão de obra humana para trabalhar, mas como conhecimento. O investimento em ciência é fundamental para estarmos à frente e não ter pânico”, conclui.