"Viagem no tempo mental" recupera memórias perdidas; entenda

Técnica pode recriar mentalmente as condições originais de quando memória foi formada

Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil
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Cientistas da Universidade de Regensburg, na Alemanha, trouxeram recentemente uma boa notícia para quem está escrevendo sua autobiografia ou vai se submeter a um concurso público: nossas memórias aparentemente perdidas não estão destruídas, apenas temporariamente inacessíveis.

Em um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), eles explicam como criar uma “viagem mental no tempo”, ou seja, recriar mentalmente as condições originais (ambiente, emoções, pensamentos) que estavam presentes no momento em que a memória foi formada.

Para os autores, as memórias antigas, que são revividas mentalmente com a técnica de restabelecimento do contexto temporal, são tão acessíveis e fáceis de lembrar quanto aquelas que acabaram de ser registradas no cérebro. Isso pode ser particularmente útil em processos de aprendizagem, reabilitação cognitiva e em saúde mental.

Ao reencenar mentalmente o lugar onde você estava; o que sentia, pensava ou fazia; e a ordem em que os eventos ocorreram quando a memória se formou, isso pode funcionar como uma espécie de “gatilho” para que o cérebro consiga restaurar os acessos apagados pelo tempo.

Usando o mito grego de Sísifo — que rolava continuamente uma pedra montanha acima, só para vê-la rolar de volta —, o estudo diz que “ciclos recorrentes de rejuvenescimento podem, portanto, ser essenciais para manter a capacidade de recuperação das memórias por períodos mais longos”.

Viajando no tempo para recuperar lembranças

Para testar a eficácia das técnicas, os autores dividiram mais de 1,2 mil voluntários em dois grupos: metade estudou passagens curtas de texto, enquanto a outra metade memorizou listas de substantivos sem conexão. Ambos os grupos foram depois subdivididos em quatro subgrupos, testados para avaliar as técnicas.

Um subgrupo controle recordou imediatamente o material aprendido várias vezes na primeira hora, sem técnicas adicionais. Os outros três aguardaram intervalos específicos — quatro horas, 24 horas ou sete dias — entre a memorização e a recuperação.

Posteriormente, os três subgrupos realizaram a "viagem mental no tempo", recordando pensamentos e sentimentos originais ou revisando informações seletivas como estímulo. O grupo controle foi testado simultaneamente sem essas técnicas, para estabelecer um parâmetro de lembrança sem viagem no tempo.

As duas técnicas se mostraram eficazes nas primeiras 24 horas. A recordação emocional restaurou 70% das memórias após quatro horas e 59% após 24 horas. Visualizar uma amostra (priming seletivo) se mostrou ainda mais eficaz, recuperando 84% e 68%, respectivamente, nos mesmos intervalos temporais.

Contudo, após uma semana, a eficácia das técnicas se reduziu drasticamente. A recordação emocional perdeu completamente sua capacidade restaurativa, não recuperando nenhuma memória-alvo. Mais resiliente ao tempo, a recordação por pistas manteve uma eficácia residual, restaurando 31% das memórias.

Aplicações e utilidades para a recuperação de memórias antigas

Para o primeiro autor do estudo, Karl-Heinz Bäuml, os resultados revelaram um fenômeno paradoxal: “a viagem mental no tempo não apenas aumentou a recuperabilidade imediata das memórias, mas também elevou suas taxas de esquecimento posterior”, afirmou o psicólogo em um podcast da ABC Austrália.

Segundo o estudo, as memórias antigas têm duas características aparentemente contraditórias: são mais difíceis de lembrar no momento presente, mas também ficam mais estáveis, devido à consolidação contínua. Porém, a viagem mental é capaz de reverter ambos os efeitos.

A grande questão aqui é: vale a pena rejuvenescer as memórias, mesmo sabendo que, após o processo, elas serão esquecidas mais facilmente? Naturalmente, a análise custo-benefício vai depender muito do contexto e dos objetivos buscados com esse reset do relógio temporal.

Na visão de Bäuml, em aplicações práticas, o aumento na recuperabilidade imediata compensa largamente o prejuízo das taxas elevadas de esquecimento posterior. Portanto, “se você quiser se preparar para uma prova ou algo do tipo, seria realmente uma boa ideia restabelecer o contexto, tenho certeza disso”, afirma.

A mensagem final do experimento é de esperança: esquecer não significa uma perda definitiva das memórias. O estudo prova que elas ficam meramente inacessíveis temporariamente, mas podem ser despertadas continuamente por meio de uma recriação contextual adequada.