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    Vírus “zumbis”: Como organismos congelados há milhares de anos podem oferecer riscos

    Grupo de pesquisadores estuda capacidade de vírus preservados em regiões inóspitas voltarem à sua capacidade infecciosa

    Esta é uma microfoto aprimorada por computador de Pithovirus sibericum que foi isolada de uma amostra de permafrost de 30.000 anos em 2014.
    Esta é uma microfoto aprimorada por computador de Pithovirus sibericum que foi isolada de uma amostra de permafrost de 30.000 anos em 2014. Jean-Michel Claverie/IGS/CNRS-AMU

    Renata Souzada CNN

    em São Paulo

    Um ambiente com temperaturas extremamente baixas, livre de oxigênio e da presença da luz é o ideal para preservar restos mumificados de animais extintos e vírus remotos.

    O aquecimento global, provocado pelas mudanças climáticas, vem acelerando o processo de derretimento de geleiras e acende um alerta na comunidade científica: o que acontece se esses organismos forem descongelados e reinseridos no ciclo terrestre?

    “Do ponto de vista teórico, nada impede que isso ocorra, desde que de fato esses vírus estejam em estado de conservação adequado pelas baixas temperaturas”, explica o virologista Fernando Spilki.

    Entender os riscos desses vírus “zumbis” é um dos focos da pesquisa do professor emérito de medicina e genômica na Escola de Medicina da Universidade Aix-Marseille em Marselha, na França, Jean-Michel Claverie.

    Em 2003, Claverie descobriu um tipo específico de vírus, conhecido como “vírus gigantes”, que poderia ser o modelo ideal para investigar a capacidade desses organismos manterem alguma de suas partículas virais preservadas no tempo.

    Os trabalhos do especialista se concentram no permafrost — uma superfície que permanece a 0°C ou abaixo durante pelo menos dois anos consecutivos, segundo definição da Associação Internacional do Permafrost (IPA).

    “Ali a gente pode ter vírus e outros patógenos com os quais nós, no curso recente da história, não tivemos contato”, explica Spilki.

    Buscas pelo termo “Vírus zumbis” cresceram nos últimos sete dias / Reprodução/Google Trends

    De acordo com o virologista, é possível que a região abrigue tanto vírus da própria espécie humana para os quais ainda não temos conhecimento ou imunidade, “porque podem ter ocorrido em grupamentos humanos muito isolados”, quanto organismos de outras espécies que, eventualmente, poderiam infectar humanos.

    Apesar de até o momento não haver comprovação de que esse processo de descongelamento e retomada do potencial infeccioso desses vírus já tenha ocorrido naturalmente, Spilki considera essa uma possibilidade real.

    “Nós temos pistas e alguns sinais de que isso pode ocorrer, por exemplo, com a emergência de novos vírus em espécies animais silvestres nessas regiões mais polares do mundo nesses últimos anos”, explica.

    Além disso, o cientista afirma que há a hipótese de que algumas doenças, como o vírus Influenza, tenham atingido à população humana a partir dessas regiões.

    Reativando vírus

    Em 2014, o professor Claverie e sua equipe deram um passo importante nos estudos dessa área, quando conseguiram reativar um vírus que tinham isolado do permafrost, tornando-o infeccioso pela primeira vez em 30 mil anos, inserindo-o em células cultivadas.

    Por segurança, os pesquisadores utilizaram um vírus que só poderia atingir amebas unicelulares, não animais.

    Em 2015 e, mais recentemente, em fevereiro deste ano, o cientista conseguiu repetir a façanha com tipos diferentes de vírus.

    O mais antigo dos vírus revividos pelo professor datam de quase 48.500 anos, de acordo com a datação por radiocarbono do solo, e veio de uma amostra de terra retirada de um lago subterrâneo 16 metros abaixo da superfície.

    Ainda que os cientistas não saibam quanto tempo esses organismos possam permanecer infecciosos ou mesmo quais as chances de encontrarem um hospedeiro em eventual descongelamento, o risco pode estar aumentando com o aquecimento global.

    “O degelo do permafrost continuará acelerando e mais pessoas povoarão o Ártico na sequência de empreendimentos industriais”, comentou Claverie em entrevista anterior à CNN.

    Na avaliação de Spilki, o caminho ideal atualmente é manter o monitoramento. “Vigiar o ambiente, outras espécies animais e até a própria espécie humana é fundamental para que a gente detecte o mais rápido possível, antes que o problema ganhe muito volume, se transmita para humanos ou entre humanos e, a partir disso, você pode ter outras medidas que vão além da preparação para o diagnóstico.”

    *Com informações de Katie Hunt, da CNN