Colonizar Marte pode ser perigoso e extremamente caro; Elon Musk quer fazê-lo


Jackie Wattles da CNN
08 de setembro de 2020 às 15:32 | Atualizado 08 de setembro de 2020 às 16:08
Marte

O planeta Marte

Foto: Divulgação/Nasa

Elon Musk está há quase duas décadas reunindo fãs da SpaceX com uma meta de colonizar Marte, algo que nenhum governo do mundo pretende no momento atual  – em parte por causa do preço imensurável que custaria uma missão como essa.

Musk, o CEO e engenheiro chefe da SpaceX, se refere a suas ambições interplanetárias de forma mais parecida com um protagonista de uma ficção-científica do que como um empresário com objetivos disruptivos.

“Se algo horrível acontecer na Terra, ou causado pela natureza ou pelos humanos, nós queremos ter alguma segurança para a vida como um todo”, Musk disse durante uma conferência virtual sobre Marte em 31 de agosto de 2020. “E então, existe também toda a animação e aventura”.

Os planos da SpaceX para um assentamento no Planeta Vermelho levantam diversos questionamentos tecnológicos, políticos e éticos. Além disso, um dos embargos mais desafiadores pode ser o financeiro: Nem mesmo Musk arriscou adivinhar o preço estimado para a aventura.

O último programa espacial que chegou perto dos mesmos planos de colonização de Musk foi o Apollo, da Nasa, no século 20.

O esforço levou seis naves e 12 astronautas para a Lua. O Apollo custou mais de 280 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 500 bilhões), e, por alguns anos, a Nasa custou mais do que 4% do orçamento anual dos Estados Unidos.

A agência espacial, que em anos mais recentes angariou menos da metade de 1% do orçamento federal está mapeando seus próprios planos de retornar à Lua e, eventualmente, um caminho até Marte.

A agência, entretanto, nunca mencionou quanto isso custaria.

A fortuna pessoal de Musk é estimada em cerca de US$ 100 bilhões – pelo menos no papel – graças a, em grande parte, bônus de negociações das ações de sua empresa de carros elétricos, a Tesla.

Ele também espera lucrar com outros negócios da SpaceX, que é uma das empresas mais valiosas do mundo. Entre acionistas e bancos, a empresa levantou 6 bilhões de dólares em valor.

Isso levanta uma pergunta: É possível fazer dinheiro com Marte?

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Lucro interplanetário

A SpaceX provavelmente demoraria anos para desenvolver toda a tecnologia que um assentamento em Marte exigiria.

A empresa está nos primeiros estágios do desenvolvimento do ‘Starship’, um sistema de foguetes e naves que Musk espera que possa transportar cargas e pessoas pelo trajeto entre Marte e a Terra.

Ele estima que o progresso do sistema custará mais de 10 bilhões, e que a SpaceX enviará centenas de satélites a bordo no projeto antes de confiá-lo vidas humanas.

Caso ele se prove capaz de chegar a Marte, os novos habitantes precisarão de locais com ar o suficiente para protegê-los da atmosfera tóxica e da radiação mortal que ocorrem na superfície do planeta.

“Não é uma missão para os que têm o coração fraco”, disse Musk. “Há chances de que você morra, será uma viagem dura...mas será muito gloriosa se funcionar.”

Pelo menos pelos primeiros cem anos em que os humanos estabelecerem presença em Marte, a situação econômica será dúbia, disse Michael Meyer, o cientista líder das pesquisas do Programa de Exploração de Marte da Nasa, que lançou o robô ‘Perseverança’ para estudar melhor o planeta de forma remota.

Rover Perseverence na superfície de Marte

Rover da Nasa enviado para explorar Marte 'Perseverence'

Foto: Divulgação/Nasa

Musk tem um plano para tornar Marte um destino atrativo para se viver: a ‘terraformação’, um cenário hipotético onde humanos tornariam o planeta vermelho mais parecido com a Terra inserindo gases específicos na atmosfera.

Seria uma tentativa de usar os mesmos gases que causam a crise do clima no nosso planeta para tornar a atmosfera de Marte mais grossa, quente e amigável para a vida. O empresário promoveu a ideia de que o processo podia ser iniciado a partir do lançamento de bombas nucleares no planeta.

A ideia da terraformação surgiu quando cientistas estavam pensando em formas possíveis de resolver o problema, disse Meyer, mas não foi pensado como algo que humanos poderiam ou deveriam fazer.

“Era um exercício intelectual”, afirmou Meyer. "Mas não há quase nenhum oxigênio na atmosfera de Marte. E existe uma quantidade infinitesimalmente pequena de água, o que significa que seria extremamente difícil criar plantações e muito menos criar um ciclo d’água em todo o planeta. Não existem evidências de que existem recursos o suficiente para fazer com que a terraformação sequer seja uma possibilidade”.

Elon Musk também reconhece que a terraformação seria difícil. Mas o conceito é enraizado na tradição da SpaceX, tanto que a companhia vende camisetas com os dizeres “Ocupe Marte”. O CEO da empresa é visto frequentemente usando-as.

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Valores e avaliações

Lançamento do foguete Falcoln 9 pela NASA e SpaceX

Lançamento do foguete Falcoln 9 pela Nasa e SpaceX

Foto: Reprodução / CNN

Não foi descoberto nenhum recurso em Marte que seria valioso o suficiente para mineração e venda em negócios terrestres, disse Meyer. “Parte do motivo é porque os cientistas estão interessados em Marte – é que o planeta é composto em grande parte pelo mesmo material que a Terra”, ele disse à CNN.

Musk já sugeriu previamente que acredita que isso seja um ponto de interesse e destacou que os recursos de Marte provavelmente só serviriam para que os novos moradores pudessem construir indústrias no planeta. Ele afirmou há oito anos que o único “câmbio econômico” entre Marte e a Terra seria “propriedade intelectual”.

Ambições financeiras à parte, a ideia de que Marte poderia se tornar uma metrópole, algum dia, e potencialmente um destino turístico é conhecida por cientistas da área como Meyer, um dos experts da Nasa no assunto.

Ele disse que há 20 anos, compareceu a uma palestra sobre negócios e turismo em Marte. “Eu fui com um pensamento muito cético sobre o assunto...e voltando para casa estava pensando ‘Bom, há várias ideias razoáveis’, afirmou, adicionando que agora acolhe a ideia de que pessoas de negócios podem fazer a viagem espacial mais acessível.

O cientista adicionou que, em sua mente, não é uma questão de se a viagem até Marte será um empreendimento lucrativo, mas sim de quando.

Elon Musk não expandiu suas ideias para fazer dinheiro em Marte, mas suas reflexões sobre exportar propriedade intelectual se espelharam em um livro escrito por Robert Zubrin, uma figura influente, mas polarizadora na comunidade da ciência espacial e aliado antigo de Musk.

“Ideias podem ser outra possibilidade para os colonizadores de Marte”, Zubrin, que lidera a Sociedade de Marte, escreveu em seu livro de 1996, “The Case For Mars” (sem edição traduzida para o português).

A fim de olhar para um potencial futuro da humanidade, Zubrin olha para seu passado.

“Assim como a falta de trabalho na América colonial e no século 19 levou à criação a uma onda da ‘engenhosidade americana’, que trouxe uma torrente de invenções, também irão as condições de trabalho em Marte levar a uma ‘engenhosidade marciana’.

Em uma entrevista recente para a CNN, Zubrin defendeu essas ideias, argumentando que a colonização da América ‘funcionou’. Zubrin mais uma vez volta à colonização da América do Norte como um exemplo de como seria se colonos em Marte financiaram sua ida ao planeta, ou por vendendo todas as suas propriedades na Terra ou por algum tipo de ‘servidão por contrato’.

“Se você quiser ir para Marte, você terá de oferecer algo em troca”, disse Zubrin. “Mas se você olhar para a América colonial, uma pessoa de classe média podia vir para América liquidando sua fazenda”. Mas, o procedimento somente lhe garantia uma passagem de ida. Se você estiver trabalhando, algo que você pode fazer é vender seu trabalho por uns sete anos”.

Zubrin, que trabalhou com ideias conservadoras mas afirma que não possui filiação política, também reconheceu que a colonização pode ser muito próxima da exploração: “Se alguém diz ‘mas não haverá exploração lá?’ A resposta é claro, isso é o que as pessoas fazem umas com as outras o tempo todo”.

Elon Musk não fez comentários sobre colonização e colabora financeiramente com ambos os principais partidos estadunidenses.

A história do colonialismo americano também incluiu a escravidão e a brutalização e apagamento de populações nativas.

“Não existem nativos marcianos”, afirmou Zubrin.

Mas Damien Williams - professor na universidade Virginia Tech que estuda a intersecção entre a tecnologia avançada, ética e sociedade - alerta que as histórias que contamos a nós mesmos sobre a América e a exploração no espaço podem deixar de lado contextos importantes. 

“Essa visão competitiva de expansão e exploração, não é necessariamente ruim”, Willians disse. Mas quando se trata de uma empresa privada usando recursos que instituições supranacionais clamam que não pertencem a ninguém - “Quem foi trazido e como? Quem foi deixado para trás e por que? Essas coisas importam.”

(Texto traduzido do inglês, clique aqui para ler o original)