Apple remove apps de rastreamento de imigração após pressão de Trump

Empresa apagou o ICEBlock e outros softwares que faziam alertas a agentes de Imigração e Alfândega (ICE)

Kanishka Singh, da Reuters
Compartilhar matéria

A Apple disse nesta quinta-feira (2) que removeu o ICEBlock e outros aplicativos semelhantes de rastreamento do ICE de sua App Store após ter sido contatada pelo governo do presidente Donald Trump, em um caso raro de remoção de apps a pedido do governo federal dos Estados Unidos.

O aplicativo alertava usuários sobre a presença de agentes de Imigração e Alfândega (ICE) em suas áreas, o que, segundo o Departamento de Justiça, poderia aumentar o risco de ataques contra os agentes.

O ICE tem sido peça central da política de imigração rígida de Trump. Seus agentes têm realizado regularmente batidas e prisões de migrantes, e defensores de direitos humanos afirmam que a liberdade de expressão e o devido processo legal muitas vezes são violados no esforço do governo para deportar imigrantes.

A decisão da Apple pode aumentar o escrutínio sobre os laços crescentes entre empresas de tecnologia e o governo Trump. Muitas companhias, incluindo a fabricante do iPhone, têm buscado evitar choques com a Casa Branca, que não hesita em fazer ameaças — especialmente sobre tarifas — contra empresas específicas.

“Com base nas informações que recebemos das autoridades policiais sobre os riscos de segurança associados ao ICEBlock, removemos esse e outros aplicativos semelhantes da App Store”, disse a Apple em comunicado enviado por e-mail.

A Fox Business foi a primeira a noticiar a remoção do app nesta quinta-feira. O Departamento de Justiça confirmou mais tarde que havia solicitado à Apple a retirada do aplicativo e que a empresa atendeu ao pedido.

“O ICEBlock foi projetado para colocar os agentes do ICE em risco apenas por cumprirem seu trabalho, e a violência contra a aplicação da lei é uma linha vermelha intolerável que não pode ser cruzada”, disse a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, em comunicado.

Joshua Aaron, criador do ICEBlock no Texas, contestou essa caracterização e criticou a decisão da Apple.

“Estou incrivelmente desapontado com as ações da Apple hoje. Ceder a um regime autoritário nunca é a decisão correta”, disse Aaron à Reuters em resposta por e-mail.

Bondi já havia argumentado que Aaron “não está protegido” pela Constituição e que estão avaliando processá-lo, alertando-o para “tomar cuidado”.

A vigilância civil de agentes federais de imigração tem se tornado mais assertiva desde o retorno de Trump ao poder, com ativistas afirmando que seu objetivo é proteger comunidades contra a atuação agressiva do ICE.

Em cidades como Washington, moradores também utilizam chats criptografados para compartilhar informações sobre fiscalizações, embora ainda não esteja claro com que frequência aplicativos como o ICEBlock de fato alertavam vizinhos.

Seis especialistas legais disseram à Reuters que a vigilância do ICE é amplamente protegida pela Constituição dos EUA — desde que os ativistas não interfiram no trabalho. Os tribunais há muito reconhecem que registrar ações de autoridades em áreas públicas é legal.

China é o país que mais faz pedidos

Desde que Trump assumiu o cargo, o ICE realizou várias operações em instalações com imigrantes em situação irregular nos EUA e intensificou a fiscalização, com US$ 75 bilhões em novos financiamentos até 2029. A agência também prendeu portadores de visto e residentes permanentes nos EUA que foram alvo da administração Trump por sua defesa da causa palestina.

Especialistas jurídicos reiteraram à Reuters que a vigilância do ICE é, em grande parte, constitucional, desde que não haja tentativa de obstrução.

A Apple removeu mais de 1.700 aplicativos de sua App Store em 2024 em resposta a pedidos de governos, mas a esmagadora maioria — mais de 1.300 — foi feita pela China, seguida da Rússia (171) e da Coreia do Sul (79).

Nos últimos três anos, os Estados Unidos não figuraram entre os países em que apps foram removidos por exigências governamentais, segundo relatórios de transparência da própria empresa.

A maioria dos iPhones da Apple é fabricada na China, o que torna a empresa particularmente sensível a políticas tarifárias. A Casa Branca já cogitou impostos sobre importação de chips presentes nos dispositivos, o que afetaria significativamente as remessas da Apple vindas da China e de outros países.

Todos os anos, a Apple remove milhares de aplicativos de sua loja por outros motivos — incluindo mais de 82.500 somente em 2024 — relacionados a problemas de design, fraude ou violação de propriedade intelectual. As ações da Apple caíram levemente nesta sexta-feira.