China é acusada de ligação com ataques hackers a servidores do Vaticano

Relatório de empresa de inteligência não-governamental diz que Pequim está por trás de invasões. Autoridade chinesa afirmou se tratar de 'especulação infundada'

Daniel Burke,
Praça de São Pedro, no Vaticano
Praça de São Pedro, no Vaticano  • Foto: Remo Casilli - 01.abr.2020/ Reuters
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Quando se pensa em espionagem cibernética, o Vaticano não é considerado como um alvo óbvio. É um país minúsculo, cujo líder tem mais autoridade moral do que poder.

Mas a China e o Vaticano devem iniciar negociações delicadas em setembro para renovar um acordo secreto sobre o controle da Igreja Católica na China.

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Os líderes chineses poderiam, então, estar procurando uma vantagem - conhecimento interno de como a Santa Sé planejava se aproximar da mesa de negociações -, de acordo com um relatório divulgado na terça-feira pela Recorded Future, uma empresa de inteligência não-governamental que mede ameaças virtuais. O relatório acusa a China de usar softwares maliciosos para entrar nas redes internas do Vaticano.

"Nossa pesquisa descobriu uma suspeita campanha patrocinada pelo estado chinês, visando várias entidades de alto nível associadas à Igreja Católica, antes da provável renovação do acordo provisório China-Vaticano em setembro de 2020", escreveram analistas da Recorded Future em um relatório divulgado terça-feira.

Visar o Vaticano, continuou o relatório, "fazia parte do plano contínuo da China de tomar o controle da Igreja Católica do país", cujos líderes não são aprovados pela Associação Patriótica da China.

O status dessas igrejas e perguntas sobre quem tem o poder de nomear bispos estão no cerne das negociações entre a China e o Vaticano. A China também está de olho na posição da Igreja sobre os protestos pró-democracia em Hong Kong, de acordo com o relatório.

Um porta-voz do Vaticano se recusou a comentar. O Ministério das Relações Exteriores da China não respondeu imediatamente a um pedido de comentário, mas o The New York Times, que divulgou a matéria pela primeira vez, disse que uma autoridade chinesa negou a denúncia e chamou as acusações de "especulação infundada".

Acusações de repressão

As revelações dos hackers suspeitos da China acontecem quando o país é acusado de violações violentas dos direitos humanos contra minorias religiosas, incluindo uigures muçulmanos, budistas tibetanos e cristãos.

"A repressão patrocinada pelo Estado contra todas as religiões continua se intensificando", disse o secretário de Estado Mike Pompeo em junho, quando o Departamento de Estado divulgou seu relatório sobre o estado da liberdade religiosa em países de todo o mundo.

"As detenções em massa de uigures em Xinjiang continuam. O mesmo acontece com a repressão de tibetanos e budistas e do Falun Gong e cristãos", disse Pompeo.

 

Investigação

Um grupo de pesquisa da Recorded Future mantém um olhar atento sobre os "atores de ameaças" on-line, incluindo hackers patrocinados pelo Estado na China, disse um analista da empresa. O analista pediu para não ser identificado devido à sensibilidade das acusações.

"Esse tipo de comportamento da China é comum e ocorre nos últimos dois anos", disse o analista.

Os métodos dos hackers não eram particularmente sofisticados - um incluía uma tática comum de phishing - mas são eficazes, de acordo com o analista.

Uma "isca" era uma carta de condolências do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, a um líder da igreja de Hong Kong, um participante importante nas próximas negociações. Após a abertura, a carta infecta o computador do abridor.

"No momento, não está claro se os atores criaram o documento ou se é um documento legítimo que eles foram capazes de obter e armar", disse o relatório.

Outro suspeito de invasão exibia as marcas de malware do RedDelta, um "grupo de atividades de ameaças" patrocinado pelo estado chinês, segundo o relatório.

O analista do Recorded Future disse que o Vaticano foi informado sobre os ataque hackers, que teriam começado em maio, segundo o relatório.

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