Cientistas ajudam a construir “bolhas do bem” na pandemia, diz estudo

Profissionais da saúde brasileiros ganharam espaço no Twitter e podem ter contribuído na divulgação da importância das máscaras PFF2 na prevenção à Covid-19

Máscara N95, ou PFF2 na especificação brasileira, é a mais eficaz para proteger do coronavírus
Máscara N95, ou PFF2 na especificação brasileira, é a mais eficaz para proteger do coronavírus Jonathan J. Castellon/Unsplash

Luiza Pollocolaboração para a CNN

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O pesquisador brasileiro que mora nos Estados Unidos Vitor Mori tinha pouco mais de 200 seguidores no Twitter quando a pandemia de Covid-19 ainda não era nem considerada pandemia e os brasileiros saíam de casa sem máscara. Um ano e meio depois, quase 52 mil pessoas acompanham a conta de Mori na rede social para ler suas dicas de como se proteger do coronavírus.

“Eu comecei a falar mais de Covid no Twitter por volta de setembro [de 2020], e a principal motivação foi uma percepção de que a compreensão sobre como o vírus é transmitido era muito equivocada”, conta o pesquisador da Universidade de Vermont e  membro do Observatório Covid-19 BR. “Falava-se muito em gotículas e superfícies, e pouco sobre transmissão pelo ar. E eu sentia falta de um caminho que fosse mais pelo lado da redução de danos, dando informações mais práticas no dia a dia sobre como você consegue reduzir o risco de se contaminar”, lembra ele.

Mori é um entre as dezenas de pesquisadores da área de ciências e da medicina que foram às redes sociais compartilhar conhecimento sobre a doença e como se proteger dela. Segundo um relatório inédito do Science Pulse, divulgado nesta quinta (23), esses profissionais ganharam engajamento e notoriedade no Twitter ao informar e qualificar assuntos relevantes do momento em relação à Covid-19.

O estudo, que tem apoio do Instituto Serrapilheira, analisou cerca de 1.500 perfis de instituições e especialistas na rede da comunidade científica brasileira e estrangeira entre setembro de 2020 e agosto de 2021.

PFF2 em alta

Nesse um ano, foi possível perceber que os divulgadores expandiram e qualificaram os debates do momento, como a aplicação da primeira vacina no Brasil e a escalada no número de casos e mortes a partir de fevereiro e março, explica Lucas Gelape, analista de dados do Science Pulse e autor do estudo. Mas Gelape destaca que esses perfis também parecem ter pautado e impulsionado um tema específico: o interesse pelas máscaras PFF2.

“Nós esperamos que esses dados ajudem a identificar o impacto dos divulgadores de ciência. São evidências inicialmente favoráveis à hipótese. Acho que demos um passo além nesse tema que estava ainda um pouco impressionista”, avalia ele.

As máscaras PFF2 são mais indicadas na proteção contra a disseminação do vírus por se ajustarem melhor ao rosto, fazendo com que mais ar seja filtrado, além de terem um filtro mais eficiente, certificado pela Anvisa. Vitor Mori, por exemplo, foi um dos grandes divulgadores dessa informação no Twitter, defendendo que quem precisasse sair de casa — principalmente para realizar atividades essenciais em lugares fechados — usasse esse tipo de máscara.

O estudo conseguiu demonstrar uma associação entre e as menções a PFF2 (especificação brasileira para o filtro) ou N95 (especificação em outros países) em perfis monitorados pelo Science Pulse e o interesse pelos termos PFF2 e N95 no Google Trends. Ou seja, ao mesmo tempo em que os divulgadores falavam mais desses respiradores, a população pesquisava sobre elas no mecanismo de busca.

Além disso, os perfis monitorados consistentemente usaram mais o termo PFF2 para se referir às máscaras, e menos N95. Nas pesquisas do Google, os brasileiros passaram a usar cada vez mais o termo PFF2 no lugar de N95, até que em maio deste ano as buscas pelo termo brasileiro ultrapassaram as outras.

“A gente interpreta isso como uma possível evidência de que os divulgadores no Twitter, ao usarem mais o termo PFF2, foram responsáveis por colocar esse nome no mapa”, diz Gelape. Ele ressalta, no entanto, que é possível inferir apenas uma correlação nesse caso, e não causalidade. Em outras palavras, ainda não foi possível comprovar que as contas no Twitter foram as responsáveis pelo crescimento no interesse pelo termo.

Luiza Caires, editora de ciências do Jornal da USP e divulgadora científica, observa que mesmo assim os resultados são animadores. “Talvez, como mostra o estudo, haja uma contribuição forte de algo que começou no Twitter e se ampliou. Não é que disseram no Twitter e de repente as pessoas ficaram conhecendo as PFF2. Mas, se tem um jornalista que acompanha, ele acaba trazendo isso para a pauta e assim o tema vai crescendo”, afirma. Para ela, a impressão é de que a bolha se expandiu.

“Bolhas do bem”

A maior busca por máscaras melhores na internet se refletiu também em demanda pela compra desses respiradores. Com alguns modelos em falta ou com preços proibitivos, surgiram páginas que monitoram automaticamente a disponibilidade de PFF2 em diversas lojas pelo país. Como observa Gelape, há indicativos de que a insistência na informação por parte dos divulgadores tenha trazido resultados reais.

“E esse trabalho não foi nem feito pelo Ministério da Saúde ou entidades médicas. Foi feito por voluntários, pessoas que se informam com médicos e cientistas e depois divulgam essa informação de forma simples em perfis como Qual Máscara? e PFF para Todos”, observa Bruno de Vasconcelos Cardoso, coordenador do LED/UFRJ (Laboratório de Estudos Digitais da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O professor afirma que o boom da ciência nas redes sociais reflete a mudança na forma como consumimos informação atualmente. Enquanto na televisão ou no jornal o discurso de autoridade vem das fontes escolhidas pelo jornalista, nas redes, é o próprio usuário que monta seu leque de especialistas — para o bem ou para o mal.

“Eu acho que essa pandemia tem uma característica bem marcante do século XXI, das redes sociais: ela colocou as pessoas diante de uma escolha no que acreditar. Houve um esvaziamento da autoridade científica. A importância da rede social, que ao contrário da televisão, dá escolha para as pessoas dá a opção de acreditar em uma coisa, e não na outra”, avalia ele.

Se por um lado a democratização do acesso à informação aumenta, por outro, acabamos alimentados por informações que confirmam aquilo em que já acreditamos. E isso pode ser perigoso quando reflete discursos negacionistas, por exemplo.

A popularidade nas redes sociais costuma estar diretamente ligada ao quanto aquela conta consegue seduzir o público, concordam Mori e Cardoso. “O que faz uma informação circular é quanto ela é capaz de afetar quem está lendo. Se você lê uma informação e ela não te indigna, não te anima, não te apavora, você não compartilha”, diz o professor da UFRJ.

“Você pode até ler, entender, mas você não vai fazer essa informação circular, o que leva a um aumento no número de seguidores, etc. Tem toda uma economia tanto de visibilidade quanto, em última instância, financeira — monetizar canais, vender livros, cursos.”

Dessa forma, os divulgadores reconhecem que as bolhas “boas”, de divulgação de informações científicas comprovadas, ainda ficam restritas, apesar de terem se expandido com a Covid-19. Ainda assim, Caires afirma acreditar que pelo menos parte do público vai continuar ligada na comunidade médica e científica, mesmo que o interesse diminua com a contenção da pandemia.

“Além disso, espero que as pessoas que usam o Twitter para divulgar o negacionismo percam um pouco do espaço que conquistaram, porque a pandemia foi muito politizada, então está muito relacionada ao crescimento de divulgação de informações falsas”, completa ela.

De influência em influência, Mori tem a sensação de que o trabalho valeu a pena. Não é difícil encontrar em sua página comentários de pessoas que o agradecem pelas informações sobre a transmissão do vírus e contam situações em que evitaram a contaminação por estarem usando máscaras PFF2.

“Eu fico muito feliz quando vejo as pessoas falando que não só aprenderam  a se proteger melhor, mas como isso teve um impacto positivo na saúde mental delas”, diz o pesquisador. “Muita gente me conta que hoje consegue fazer atividades que teria de fazer de qualquer forma, e não entra mais em pânico porque sabe se proteger, sabe avaliar e diminuir os riscos.”

 

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