Cientistas descobrem segredos do concreto romano antigo em Pompeia

Escavações em canteiro de obras congelado no tempo desvendam técnica milenar de durabilidade

Will Dunham, da Reuters
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Cientistas que escavam as ruínas de Pompeia descobriram um canteiro de obras congelado no tempo pela erupção do vulcão Vesúvio, na Itália, no ano 79 d.C., esclarecendo os ingredientes e métodos por trás do durável concreto autorregenerativo que os antigos romanos usaram para revolucionar a arquitetura.

O local representa um projeto de construção que estava em andamento quando a erupção enterrou Pompeia sob cinzas e rochas vulcânicas. Os pesquisadores encontraram cômodos cujas paredes estavam inacabadas e pilhas de material seco pré-misturado, além de ferramentas para pesar e medir, prontas para a preparação do concreto.

"Estudar isso realmente fez com que eu me sentisse como se tivesse viajado no tempo e estivesse ao lado dos trabalhadores enquanto eles misturavam e aplicavam o concreto", disse Admir Masic, professor de engenharia civil e ambiental do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e líder do estudo publicado nesta terça-feira (9) na revista Nature Communications.

Um material de construção indispensável, o concreto ajudou os romanos a erguer estruturas como estádios, incluindo o Coliseu, templos com cúpulas como o Panteão, termas públicas e outros grandes edifícios, além de aquedutos e pontes como nunca antes havia sido construído. Como o concreto podia endurecer debaixo d’água, também foi fundamental na construção de portos e quebra-mares.

O método preciso que eles usavam para fazer o material tem sido objeto de debate, com descobertas arqueológicas recentes parecendo contradizer relatos descritos em um tratado do século I a.C. pelo arquiteto e engenheiro romano Vitrúvio.

A descoberta em Pompeia mostrou que os romanos usavam uma técnica chamada “mistura quente”, na qual um material chamado cal viva — calcário seco previamente aquecido — é combinado diretamente com água e uma mistura de rocha e cinza vulcânica, produzindo uma reação química que aquece naturalmente a mistura. Isso difere do método descrito por Vitrúvio, que escreveu cerca de um século antes.

“Pompeia preserva edifícios, materiais e até trabalhos em andamento exatamente no estado em que estavam quando ocorreu a erupção. Ao contrário de estruturas finalizadas, que passaram por séculos de reparos ou intempéries, este local captura processos de construção conforme aconteciam”, disse Masic.

“Para o estudo de tecnologias antigas, simplesmente não há paralelo”, afirmou Masic. “Sua preservação excepcional oferece um verdadeiro retrato instantâneo da prática de construção romana em ação.”

O edifício em construção combinava áreas domésticas com uma padaria em funcionamento, equipada com fornos, bacias para lavagem de grãos e áreas de armazenamento. As evidências ali indicam que a técnica descrita por Vitrúvio, conhecida como cal extinta, não era usada na construção de paredes.

Esse método pode já estar ultrapassado à época do projeto em Pompeia.

“Imagine o que 100 anos de diferença podem representar para a tecnologia da construção. Uma boa analogia seriam os telefones antigos. Nos anos 1920–30: discagem rotativa e linhas de cobre para longa distância. Nos anos 2020: smartphones usando sinais digitais comutados por pacotes e redes sem fio”, disse Masic.

A técnica de mistura quente contribuía para as propriedades autorregenerativas do concreto, reparando quimicamente rachaduras. O material contém resíduos brancos da cal usada na fabricação, chamados “fragmentos de cal”, que podem se dissolver e recristalizar, curando rachaduras que surgem com a infiltração de água.

Os romanos industrializaram o concreto a partir dos séculos I a.C. e I d.C.

“Isso permitiu que os construtores erguessem estruturas monolíticas maciças, abóbadas e cúpulas complexas e portos com concreto que curava debaixo d’água. Ele expandiu fundamentalmente o que podia ser construído e como cidades e infraestruturas eram concebidas”, disse Masic.

O novo entendimento do concreto romano pode ter relevância para arquitetos modernos.

“Os concretos modernos geralmente não possuem capacidade intrínseca de autorregeneração, algo cada vez mais importante à medida que buscamos infraestruturas mais duradouras e de menor manutenção”, explicou Masic.

“Portanto, embora o processo antigo não seja uma substituição direta aos padrões atuais, os princípios revelados podem orientar o desenvolvimento de concretos duráveis e de baixo carbono de próxima geração.”