Como a IA pode mudar as estratégias de guerra daqui para frente?
Entenda como a inteligência artificial está mudando a guerra moderna, do uso de drones autônomos à análise de dados que acelera decisões no campo de batalha

Os conflitos recentes no Oriente Médio mostraram que drones autônomos e sistemas de IA estão sendo utilizados para mapear e atacar alvos com uma rapidez impressionante. Não é à toa que essa tecnologia pode ajudar a mudar a dinâmica das guerras.
A IA possibilita processar grandes quantidades de dados em segundos, de imagens de satélite a sinais de radar. Consequentemente, isso ajuda a encurtar o tempo entre a identificação de um alvo e o ataque.
Agora, as decisões que antes demandavam semanas de planejamento podem ocorrer quase em tempo real; e isso oferece uma vantagem grandiosa para quem usa IA.
Como a inteligência artificial está mudando a guerra moderna?
A principal mudança na guerra que acontece atualmente é que a informação é tão importante quanto as armas; ou até mais. Isso quer dizer que, em vez de apenas mirar e disparar, os exércitos também focam em analisar dados.
Por exemplo, os militares dos Estados Unidos utilizam diferentes sistemas, como o Maven Smart System (Palantir) e o Claude (Anthropic), para identificar e priorizar alvos automaticamente. Em um ataque recente, o governo norte-americano e aliados atingiram cerca de mil alvos no Irã em apenas 24 horas com esse tipo de ferramenta.
Se essa operação tivesse sido realizada sem o auxílio da inteligência artificial, ela provavelmente demandaria semanas de planejamento.

O que acontece é que as plataformas de IA cruzam imagens de satélite, dados de sensores e comunicações eletrônicas para detectar padrões. A partir dessas análises, eles podem antecipar movimentos de inimigos quase instantaneamente.
No caso dos sistemas da Palantir, é possível identificar em segundos posições inimigas ao cruzar várias bases de dados. Antes, esse tipo de tarefa levava muito mais tempo, pois dependia de sistemas mais simples e de um grande volume de análise humana.
Além disso, a IA também ajuda em diversas outras estratégias de guerra, incluindo logística, manutenção de equipamentos e até guerra cibernética.
Onde a IA militar já está sendo usada em conflitos reais
Em entrevista à CNN Brasil, o especialista em negócios digitais e professor da FGV, Pedro Teberga, explica que o reconhecimento e a vigilância são as áreas que mais utilizam IA atualmente.
“Na Ucrânia, o sistema Palantir processa dados de campo para o exército ucraniano e identifica padrões de movimentação inimiga com uma velocidade que analistas humanos não alcançariam. Em Gaza, a inteligência israelense usa sistemas de reconhecimento facial e análise de redes sociais para rastrear indivíduos em tempo real”, explica Teberga.
O especialista também destaca que a inteligência artificial já está sendo utilizada em ciberataques, como ocorreu nos ataques à infraestrutura ucraniana antes da invasão de 2022.
Para Teberga, o que ainda está engatinhando é a capacidade de julgamento tático em situações ambíguas, como em decisões que exigem a leitura do contexto político e humano, e não apenas o reconhecimento de padrões em dados.
IA na sala de controle e campo de batalha
Drones autônomos e armas “inteligentes” estão entre os exemplos mais comuns do uso de IA em combates reais. Drones aéreos autônomos já patrulham fronteiras e também executam ataques.
Recently, drones LUCAS, dos Estados Unidos, foram utilizados no conflito envolvendo o Irã. Esse tipo de equipamento é conhecido como “drone suicida”, pois é projetado para missões de ataque único. Em outras palavras, o drone é enviado com carga explosiva e é destruído após atingir o alvo.
Apesar de já existirem drones autônomos e armas “inteligentes” que utilizam sistemas de IA, Pedro explica que a tecnologia costuma ser mais efetiva nas etapas que antecedem os ataques, especialmente nas salas de controle.

Isso significa que, por trás de cada ataque de precisão, existe uma cadeia de processamento de dados que envolve satélites, softwares de análise e operadores treinados para transformar essas informações em estratégias de guerra.
"A sala de controle é onde se decide quem luta, onde, com quê e por quanto tempo. Quando a IA passa a estruturar essas decisões, como já acontece nos centros de comando israelenses e na coordenação da OTAN com a Ucrânia, o campo [de batalha] vira consequência de um processo que começou longe dele", acrescenta o professor da FGV.
A mudança mais profunda da IA nas guerras
Uma das transformações mais profundas causadas pela inteligência artificial está justamente na velocidade com que as decisões militares são tomadas.
Pedro aponta que a IA tem reduzido drasticamente o tempo do chamado ciclo decisório do combate, encurtando o intervalo entre a identificação de uma ameaça e a execução de um ataque.
Nas forças armadas dos Estados Unidos, esse processo é conhecido como loop OODA, sigla para “Observar, Orientar, Decidir e Agir”. Esse ciclo é considerado a base da vantagem tática em conflitos: afinal, quem consegue completar essas etapas mais rapidamente tende a ter superioridade no campo de batalha.
“Na Ucrânia isso ficou evidente: o exército ucraniano passou a usar drones comerciais integrados a softwares de IA para identificar alvos, calcular trajetórias e coordenar ataques num tempo que o adversário não consegue acompanhar. A IA não apenas acelera cada etapa desse ciclo, ela começa a fundir todas elas”, Teberga explica.
Guerras com IA podem reduzir o papel dos humanos?
Na maior parte das operações de guerra, os humanos ainda mantêm a decisão final sobre a execução das estratégias de conflito. Contudo, já existem sistemas em que a IA opera com um alto grau de autonomia, como ocorre com o sistema de defesa antimísseis de Israel, o Domo de Ferro.
Nesse caso, se o sistema identificar que um foguete está entrando no espaço aéreo israelense, ele pode interceptá-lo sem necessariamente aguardar autorização humana. Isso acontece porque, se dependesse de uma autorização humana, a resposta poderia chegar tarde demais e comprometer a defesa do país.
“Para ataques ofensivos de longo alcance, a posição oficial dos grandes exércitos ainda é manter um humano na cadeia de autorização, mas a linha entre recomendar e decidir fica cada vez mais tênue quando a recomendação chega em frações de segundo e o operador tem menos de cinco segundos para contestar”, o especialista complementa.


