Cultivo de frutas raras vira alternativa para eventos climáticos extremos

Invernos mais quentes seguidos de ondas de frio devastaram muitos dos alimentos convencionais que as pessoas estão acostumadas a comer

Rachel Ramirez, da CNN
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Passeando pelo oásis urbano que é o cemitério Green-Wood, no Brooklyn, ninguém esperaria encontrar pawpaws (conhecida como mamão-pai ou manjar de baunilha no Brasil) — a maior fruta comestível nativa da América do Norte — crescendo ao lado de lápides. Indo mais fundo no cemitério, caquis americanos pendem acima de túmulos.

Embora possa parecer um lugar improvável para cultivar essas frutas nativas, o local também é um arboreto. E nesse “museu de árvores”, disse Joseph Charap, vice-presidente de horticultura do espaço, plantar árvores nativas, como fizeram com os pawpaws e os caquis, é “parte da nossa filosofia geral” e da missão de promover um ecossistema equilibrado.

“Poder mostrar às pessoas que existem árvores frutíferas nativas que podem crescer em nosso ambiente é realmente um passo importante”, disse Charap à CNN.

Pawpaws e caquis americanos estão entre as frutas nativas raras que alguns agricultores e jardineiros estão explorando à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais comuns.

Invernos mais quentes seguidos de ondas repentinas de frio devastaram muitos dos frutos convencionais que as pessoas estão acostumadas a comer, como maçãs, peras e pêssegos.

Alimentos nativos muitas vezes apresentam maior resiliência a condições climáticas extremas e exigem menos água e pesticidas do que variedades não nativas, “especialmente quando cultivadas comercialmente”, disse Ben Flanner, cofundador da fazenda urbana Brooklyn Grange Rooftop Farm.

Ter a “capacidade de resistir a tudo isso é fundamental” em um futuro mais quente, afirmou Flanner. Mas com a crise climática avançando em ritmo alarmante, especialistas dizem que os agricultores precisam experimentar frutas nativas agora para ver se podem resistir em um mundo que aquece rapidamente.

Muitas dessas, incluindo a cereja-da-areia e a arônia (também conhecida como chokeberry), crescem de forma silvestre ou são plantadas intencionalmente em quintais e pomares.

Flanner disse que os agricultores deveriam considerar acrescentar essas frutas resistentes às rotações de suas lavouras conforme o planeta esquenta.

O serviceberry, também conhecido como juneberry, é um fruto nativo que cresce de forma silvestre. Com sabor parecido a uma mistura de morango e mirtilo com um leve toque de amêndoa, é usada em tortas, sorvetes, geleias e muito mais.

Por séculos, povos nativos americanos a combinaram com carne seca e gordura para fazer o pemiccan, um alimento rico em calorias.

A beach plum é outra fruta nativa da América do Norte, que cresce ao longo de praias e dunas de areia, da Virgínia até a Nova Escócia, no Canadá.

No início da primavera, seus galhos ficam cobertos de flores brancas vibrantes que depois ficam rosadas após a polinização por abelhas e outros insetos. Do fim do verão ao início do outono, as ameixas arroxeadas, ricas em antioxidantes, amadurecem nos arbustos.

Flanner contou que recentemente recebeu de um amigo em Nova Jersey um pote de geleia de beach plum.

“Em nossa própria fazenda, estamos constantemente monitorando como as coisas se saem em comparação com o ano passado e o anterior”, disse Flanner. “Temos que nos adaptar aos tipos de cultivos que fazemos e também às condições em que eles crescem.”

A fruta esquecida da América

Perto dali, no bairro South Slope, no Brooklyn, o iraniano Reza Farzan, de 71 anos, cultiva árvores de pawpaw há mais de 30 anos. Farzan, que se mudou para os EUA vindo do Irã, tornou-se um entusiasta após ler sobre a fruta em jornais e livros de biblioteca.

Depois de comprar sua casa em 1992, limpou o quintal cheio de lixo, comprou mudas de um viveiro em Oregon (um dos poucos lugares onde encontrou) e plantou a árvore nativa.

“É a árvore nativa americana mais marcante”, disse Farzan à CNN. “Ela nos conecta aos povos nativos que viviam aqui antes da chegada dos europeus.”

Embora os pawpaws ainda sejam relativamente raros, eles prosperam em uma ampla faixa de temperaturas no leste da América do Norte, do Texas ao sul de Ontário. A fruta, que se parece com uma manga, é encontrada principalmente em solos úmidos e bem drenados, próximos a rios, riachos e áreas arborizadas.

Seu sabor, descrito como uma mistura de banana e manga com textura cremosa, tem impulsionado sua popularidade.

Embora não seja comum em supermercados, muitos jardineiros e agricultores já cultivam pawpaws em quintais e pomares. Em Ohio, há até um festival anual dedicado à fruta em setembro, época de sua colheita.

Cultivar pawpaws exige paciência, disse Farzan, que aprendeu sozinho o processo e hoje compartilha o conhecimento com outros agricultores e jardineiros pelo país.

As árvores podem levar até 10 anos para dar frutos. E, diferente de outras frutíferas, os pawpaws colhidos antes da hora nunca amadurecem corretamente. Por isso, ele espera que caiam naturalmente do pé.

Um grande desafio é a durabilidade da fruta — apenas três a cinco dias. “Elas se machucam facilmente e estragam muito rápido, então só dá para comer frescas”, disse Farzan, o que dificulta a venda em supermercados.

Mesmo assim, a árvore é resistente. No quintal dele, elas já sobreviveram a verões de 40 °C, invernos abaixo de zero, fortes chuvas e até o furacão Sandy.

Quando a temperatura cai, ele transfere as mudas delicadas para uma estufa que construiu no quintal.

“Eu enfatizo para os jardineiros que a mudança climática é real”, disse ele. “Ensino que o pawpaw resiste a uma ampla faixa de temperaturas e que cultivá-lo deixa o jardim bonito. Além disso, a fruta é nutritiva.”

Oferecendo uma tigela de sorvete caseiro de pawpaw, Farzan contou sobre a variedade de receitas possíveis com a fruta, incluindo pães, sorvetes e até omeletes.

“Há muito trabalho a ser feito porque houve muito dano, então reparar (o que a colonização fez com as árvores), criar jardins de pawpaw, é algo muito importante”, disse ele, emocionado.

Mudando mentalidades

Embora seja vital que os agricultores considerem essas alternativas agora, disse Jessica Fanzo, professora de clima e diretora da iniciativa Food for Humanity, da Universidade Columbia, diversificar os cultivos será um desafio.

“Cada centímetro de terra importa para eles”, disse Fanzo à CNN, lembrando que as pessoas que cultivam frutas precisam lidar com toda uma cadeia de suprimentos, em que pode não haver demanda, além de pensar em como melhorar as variedades.

“Os agricultores estão profundamente preocupados com a mudança climática, e acho que temem não apenas por sua renda, mas também se essas culturas vão resistir em um mundo mais quente e se conseguirão cultivá-las”, disse Fanzo.

É necessário experimentar com cultivos nativos em diferentes climas, acrescentou. Essa pesquisa serviria como “espinha dorsal” da modelagem climática, permitindo que cientistas entendam como essas culturas podem prosperar em um planeta em mudança.

No Brooklyn, Farzan disse que encontra conforto em ver mais pessoas interessadas em frutas nativas, especialmente seu querido pawpaw.

“Eu sei que isso é só o começo”, afirmou. “Mudar ideias e mentalidades leva tempo. Essa deve ser nossa missão, e é isso que faço. Todos os dias acordo, vou ao jardim, olho para minhas árvores, mesmo quando não têm folhas.

“Mas essa é a minha alegria, é a conexão que tenho.”

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