Estação Espacial perderá mais da metade da equipe; o que isso significa?

Nasa antecipou o retorno de quatro astronautas da ISS para esta quarta-feira (14) pela primeira vez na história após emergência médica

Jackie Wattles, da CNN
Estação Espacial Internacional vista passando pela América do Sul em fevereiro de 2001
Estação Espacial Internacional vista passando pela América do Sul em fevereiro de 2001  • Nasa
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Quatro astronautas estão prestes a fazer uma saída abrupta da Estação Espacial Internacional (ISS) devido a uma preocupação com a saúde de um tripulante — e a partida antecipada sem precedentes deixará apenas uma equipe reduzida para cuidar do posto orbital.

Quando a tripulação embarcar na cápsula SpaceX que os levará de volta à Terra, apenas três pessoas permanecerão no laboratório orbital: os cosmonautas Sergey Kud-Sverchkov e Sergei Mikaev, da Roscosmos, e o astronauta Chris Williams, da Nasa.

A agência espacial americana transmitirá ao vivo a partida da cápsula Crew da SpaceX através da NASA+ a partir das 18h45 no horário de Brasília (16h45 no horário local dos EUA) desta quarta-feira (14), com previsão de desacoplagem da estação espacial por volta das 19h, no horário de Brasília.

É um cenário menos que ideal. A Nasa tem repetidamente sinalizado que manter a ISS totalmente tripulada é uma prioridade máxima, já que a agência busca maximizar a quantidade de pesquisas científicas que pode conduzir na estação envelhecida antes de sua aposentadoria permanente no início da próxima década.

O novo administrador da Nasa, Jared Isaacman, tomou a decisão na semana passada de trazer a tripulação de quatro pessoas de volta mais cedo quando a agência cancelou uma caminhada espacial programada para 8 de janeiro, que seria realizada pelos astronautas americanos Mike Fincke e Zena Cardman.

"Por mais de 60 anos, a NASA estabeleceu o padrão de segurança em voos espaciais tripulados", disse Isaacman durante uma coletiva de imprensa na semana passada. "Nesses empreendimentos, incluindo os 25 anos de presença humana contínua a bordo da Estação Espacial Internacional, a saúde e o bem-estar de nossos astronautas sempre foram e serão nossa maior prioridade."

Fincke e Cardman, junto com o astronauta Kimiya Yui da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) e o cosmonauta Oleg Platonov da Roscosmos, fazem parte da missão Crew-11 que está deixando a estação espacial.

A Nasa não revelou qual membro da tripulação está enfrentando um problema médico – nem forneceu detalhes sobre a natureza da condição, citando preocupações com a privacidade. No entanto, a Nasa informou que o astronauta afetado está em condição estável.

"Todos a bordo estão estáveis, seguros e bem cuidados", confirmou Fincke em um comunicado publicado no LinkedIn. "Esta foi uma decisão deliberada para permitir que as avaliações médicas adequadas aconteçam em terra, onde existe toda a capacidade de diagnóstico necessária."

"É a decisão correta, mesmo que seja um pouco agridoce", acrescentou ele.

A equipe da Crew-11 está programada para amerissar no Oceano Pacífico a bordo da cápsula Crew Dragon por volta das 5h40 da manhã no horário de Brasília de quinta-feira (15).

Enquanto isso, a Nasa está trabalhando para antecipar o lançamento de uma nova tripulação, denominada Crew-12, que originalmente estava programada para meados de fevereiro.

O que significa uma ISS com equipe reduzida?

A estação espacial não operava com uma equipe tão reduzida há anos. No entanto, durante uma coletiva de imprensa na semana passada, Amit Kshatriya, administrador associado da Nasa, observou que isso não é sem precedentes.

Antes da SpaceX começar a realizar regularmente missões de rotação de tripulação com sua cápsula Crew Dragon para a estação espacial em 2020, a Nasa precisava comprar assentos na cápsula Soyuz russa para transportar astronautas à estação por quase uma década após a aposentadoria do ônibus espacial em 2011.

"A tripulação a bordo, tanto russa quanto americana, está bem treinada para operar no ambiente em que se encontra e pode conduzir os sistemas nominais e as pesquisas nominais, conforme o planejado, até a chegada de seus colegas", disse Kshatriya, usando o termo espacial "nominal" para se referir às operações normais.

Ainda assim, os membros restantes da tripulação provavelmente precisarão deixar algumas tarefas em espera

Por exemplo, Kshatriya reconheceu que o trio não poderá realizar a caminhada espacial que estava programada para Fincke e Cardman.

A dupla americana tinha a tarefa de sair da estação espacial para preparar seu exterior para a instalação de novos painéis solares, que fornecem energia para a base orbital.

Os atrasos na instalação dos painéis solares não devem criar problemas urgentes, já que o novo equipamento tinha como objetivo dar um impulso energético à estação espacial para expandir as atividades a bordo, disse Kshatriya.

No momento, a base não necessita de energia adicional para operações básicas e há "margem suficiente", observou Kshatriya.

Ainda assim, tentar manter a estação espacial com apenas três tripulantes a bordo tem seus desafios e riscos, segundo Garret Reisman, ex-astronauta da Nasa que também fez parte de uma tripulação de três pessoas ao lado de dois russos na base orbital há mais de uma década.

"Se eu fosse apontar uma coisa que representa um risco significativamente maior – seria se algo quebrasse na parte externa", disse Reisman à CNN em entrevista por telefone na terça-feira.

Por exemplo, caso surgisse um problema na parte externa do lado americano da estação espacial – como uma unidade de comutação elétrica quebrando repentinamente – Williams não poderia realizar sozinho uma caminhada espacial para consertar o problema.

Provavelmente, um de seus colegas russos teria que usar um traje americano e tentar ajudá-lo em tal expedição, possivelmente com pouco treinamento.

Embora esse cenário de emergência seja altamente improvável, observou Reisman, isso destaca por que a Nasa normalmente não gosta de trazer uma tripulação da ISS de volta antes que uma equipe substituta já esteja no local.

Por que a Nasa quer a ISS totalmente tripulada?

A agência americana há muito tempo indica que quer evitar deixar a estação espacial com poucos funcionários por diversos motivos.

Isaacman, um bilionário e astronauta privado, indicou que considera a pesquisa inovadora no laboratório orbital uma prioridade urgente. Tal trabalho, disse Isaacman, pode ajudar a abrir caminho para novas estações espaciais comerciais que possam substituir a atual.

A Nasa há muito espera que empresas do setor privado construam estações espaciais em órbita baixa da Terra para que a agência espacial possa concentrar seus esforços na exploração mais profunda do sistema solar.

"Eu, como muitos entusiastas do espaço, sonho com o dia em que teremos múltiplas estações espaciais comerciais em órbita baixa da Terra", disse Isaacman durante uma audiência de confirmação em dezembro.

"Mas acredito que para esse modelo ser financeiramente viável, precisamos maximizar absolutamente a vida útil restante da Estação Espacial Internacional – obtendo o maior potencial possível em ciência e pesquisa no espaço."

A Nasa afirma que uma presença robusta de tripulantes é crucial para obter o máximo de valor e produtividade a bordo do laboratório orbital – que custa cerca de US$ 3 bilhões por ano para operar.

A agência federal tem se esforçado nos últimos anos para garantir que a estação espacial mantenha cerca de sete ou mais astronautas a bordo o tempo todo.

Por exemplo, em 2024, dois astronautas da Nasa estavam programados para passar apenas uma semana na estação espacial. Mas quando a Nasa descobriu que sua cápsula apresentava defeito e não seria segura para a viagem de retorno, a agência espacial optou por deixar a dupla – os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams – na base por nove meses para manter os níveis de pessoal.

"Operar a ISS é uma tarefa complexa e tem sido assim nos últimos 25 anos", disse Kshatriya durante a coletiva de imprensa da semana passada. "O que nos é lembrado diariamente é a natureza implacável dos voos espaciais tripulados."

Quanto a Chris Williams, ele pode ter um período mais solitário com toda a parte americana da estação espacial só para ele.

"É bom ter outro americano, mas Chris passou muito tempo com seus colegas russos durante o treinamento, e tenho certeza de que eles têm um bom relacionamento", disse Reisman.

As relações entre os EUA e a Rússia ficaram notavelmente mais tensas na década desde que Reisman passou meses sozinho com seus colegas russos, ele observou.

"Mas, em geral, eles estão meio que ignorando a situação geopolítica. É como um jantar de Ação de Graças: você simplesmente não fala sobre política ou religião", disse Reisman com uma risada.

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