Exploração sexual e desafios virtuais colocam em risco menores na web
Segundo especialistas, denúncias de abuso infantil na internet multiplicaram-se no Brasil nos últimos anos
Na semana passada, o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) assinou dois decretos que criam novas regras para a atuação das plataformas digitais, chamadas de big techs, no Brasil. Uma das mudanças impõe que as plataformas deverão agir preventivamente para impedir a circulação de conteúdos relacionados a crimes graves, como terrorismo, exploração sexual de crianças e adolescentes.
O decreto surge pouco tempo após a entrada em vigor do ECA Digital (Lei 15.211/2025), que amplia as diretrizes de proteção a crianças e adolescentes em ambientes digitais. Medidas como essa são importantes para proteger os menores de idade de crimes como exploração e abuso sexual, cujos casos têm aumentado no Brasil, segundo especialistas.
"A gente vê, com a entrada da inteligência artificial, que esse tema se tornou ainda mais relevante. Hoje, não se trata apenas de conteúdos verídicos, mas também de materiais manipulados, como fotos e vídeos criados com IA para produzir conteúdos sexuais envolvendo crianças e adolescentes", afirma Guilherme Alves, gerente de projetos da SaferNet. Segundo a ONG, que atua na segurança digital para crianças e adolescentes, as denúncias de abuso e exploração sexual infantil multiplicaram-se no Brasil.
Lisandrea Salvariego Colabueno, chefe do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), da Polícia Civil de São Paulo, considera a realidade do abuso infantil digital uma "realidade assustadora".
"Os nossos crimes, desde o início das nossas investigações há um ano e meio, aumentaram 100, 120%", afirma. "Primeiro porque o nosso olhar está voltado para isso. Segundo que há um número maior de crianças e adolescentes buscando nas redes. A gente percebe isso claramente. E, além de tudo isso, há um número maior de agressores", completa.

Desafios virtuais também colocam crianças e adolescentes em risco
Além do risco de exploração e abuso sexual, crianças e adolescentes também estão expostos a desafios virtuais, disseminados em plataformas de jogos e redes sociais.
Segundo dados do Instituto DimiCuida, pelo menos 56 crianças e adolescentes de 7 a 18 anos morreram ou tiveram ferimentos graves entre 2014 e 2025 ao participar de jogos ou desafios online. Entre os comportamentos de risco mais comuns estão práticas de sufocamento, asfixia, apneia e autoagressão.
O filho do engenheiro civil Demétrio Jereissati, fundador do Instituto Dimicuida, foi uma das vítimas de jogos perigosos na internet. Aos 16 anos, ele perdeu a vida ao realizar o "desafio do apagão". "O Dimitry era um jovem muito presente, um jovem como os jovens da idade dele", conta. "Quando chegamos em casa, no domingo, já o encontramos sem vida", relembra.
"Antigamente, você falava: 'Não fica na rua, não fica no portão, cuidado...'. Você não deixa o seu filho pequeno no portão sozinho, mas, às vezes, você o deixa no quarto sozinho na rede, exposto às mesmas coisas ali de fora, como um predador sexual, a um pedófilo, a uma pessoa que vai tentar pegar uma senha, vai pegar uma foto, uma imagem, vai jogar na rede e fazer chantagem. Então, coisas que valiam antigamente, valem também para o mundo digital", afirma Eduardo Jorge Custódio, professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e membro da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).


