Imagem de satélite traz pistas sobre desaparecimento de Amelia Earhart
Nova expedição para ilhas entre Austrália e Havaí tentará resolver um dos grandes mistérios da aviação

Uma forma estranha no Pacífico Sul, que desencadeou a mais recente tentativa de resolver um dos maiores mistérios de todos os tempos, foi descoberta no quintal de uma casa na Califórnia. O veterano da Marinha dos EUA Mike Ashmore estava em casa em 2020, analisando imagens de satélite de uma pequena ilha chamada Nikumaroro, quando avistou um objeto inesperado em uma lagoa.
Localizada no ponto médio entre a Austrália e o Havaí, Nikumaroro tem papel fundamental em uma das duas principais hipóteses que buscam explicar o que aconteceu com a famosa aviadora Amelia Earhart e seu navegador, Fred Noonan, que desapareceram em 1937 durante uma tentativa de dar a volta ao mundo.
Seu desaparecimento tem cativado pesquisadores por décadas e há muito fascina Ashmore, um entusiasta que se interessou pela teoria de que a lendária pilota teria chegado às costas da ilha.
"Foi no Apple Maps do meu iPhone", relembrou Ashmore sobre a exploração digital que levou à sua descoberta. "Eu estava sentado em um balanço pela manhã, tomando café com meu cachorro. No dia anterior, percorri o exterior da ilha, e naquela manhã comecei a examinar a lagoa quando algo chamou minha atenção. Então olhei mais de perto e tirei uma captura de tela."
Ele achou que o que viu se assemelhava a uma asa de avião e compartilhou a imagem em um popular fórum online sobre Amelia Earhart, hospedado pelo Grupo Internacional para Recuperação de Aeronaves Históricas (TIGHAR), uma organização dedicada à história da aviação e arqueologia. A forma alongada nas imagens de satélite provocou uma discussão animada entre os membros, embora alguns tenham sugerido que provavelmente seria um tronco de palmeira.
O objeto embaçado também chamou a atenção do arqueólogo Rick Pettigrew, um antigo admirador de Earhart e diretor executivo do Instituto do Legado Arqueológico em Eugene, Oregon, que decidiu investigar mais a fundo. Ele disse ter descoberto que a anomalia, que desde então foi denominada Objeto Taraia, é visível em outras fotos aéreas da lagoa, incluindo algumas registradas já em 1938.
"Com as evidências que temos agora, seria um crime ninguém ir até lá investigar", disse Pettigrew. Agora, uma expedição está sendo organizada para fazer exatamente isso.
Liderada por Pettigrew e pela Universidade Purdue em West Lafayette, Indiana, onde Earhart trabalhou no departamento de aeronáutica, a nova expedição irá direto ao Objeto Taraia, com esperanças de encontrar parte do avião da aviadora. Ashmore, que pretendia participar da jornada, teve que desistir devido a uma doença na família.
A equipe partirá de Majuro, nas Ilhas Marshall, em 4 de novembro e navegará cerca de 1.200 milhas náuticas (cerca de 2.200 quilômetros) até Nikumaroro. Lá, os pesquisadores passarão aproximadamente cinco dias na pequena ilha investigando o intrigante objeto na lagoa.
Se encontrarem o que procuram, pode ser uma descoberta histórica. No entanto, a teoria de que Earhart acabou como náufraga em uma ilha está longe de ser amplamente aceita, e outra equipe de pesquisadores corre para encontrar provas de uma explicação alternativa.
Teorias concorrentes
Earhart e Noonan desapareceram em 2 de julho de 1937, enquanto procuravam a Ilha Howland, localizada a quase 644 quilômetros a noroeste de Nikumaroro. Essa seria uma parada para reabastecimento em sua tentativa de circunavegar o globo, uma jornada que dominava as manchetes e capturava a imaginação do público.
Uma linha de pensamento — e a determinação oficial feita após a massiva busca liderada pelo governo dos EUA conduzida imediatamente após o desaparecimento — sugeria que Earhart e Noonan ficaram sem combustível e seu Lockheed 10E Electra caiu no Oceano Pacífico próximo ao seu destino pretendido.
É uma teoria que já motivou várias buscas ao longo dos anos, incluindo uma tentativa em 2024 pela empresa de exploração oceânica Deep Sea Vision, que acabou encontrando apenas algumas rochas formadas no formato de um avião.

Guiada por uma nova análise das comunicações de rádio de Earhart no dia de seu desaparecimento, a empresa de exploração oceânica Nauticos, sediada no Maine, planeja iniciar uma nova busca no fundo do oceano próximo à Ilha Howland no próximo ano.
A expedição será a quarta tentativa da empresa de localizar o avião, mas afirmam que as novas descobertas reduziram drasticamente a área de busca, potencialmente aumentando suas chances de sucesso.
Pettigrew e outros acreditam que Earhart e Noonan pousaram seu Electra em segurança em Nikumaroro, então conhecida como Ilha Gardner. Segundo defensores dessa hipótese, a dupla teria feito repetidos pedidos de socorro usando o rádio do avião, mas posteriormente morreram de sede ou fome.
No entanto, pelo menos cinco expedições à ilha e às águas circundantes desde 2010 não conseguiram encontrar provas definitivas de que Earhart e Noonan foram náufragos.
O arqueólogo participou de uma expedição em 2017. Outra, em 2019, contou com a participação do oceanógrafo e pesquisador residente da National Geographic, Bob Ballard, que encontrou os destroços do Titanic em 1985.
A teoria de Nikumaroro é mais plausível do que algumas alternativas apresentadas ao longo dos anos para explicar o desaparecimento de Earhart, segundo Dorothy Cochrane, recém-aposentada como curadora do Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian. (Um documentário de 2017 chegou a sugerir que a aviadora morreu como prisioneira japonesa.)
Cochrane afirmou que a explicação mais provável é a mais simples: Earhart ficou sem combustível e caiu no Oceano Pacífico.
O presidente Donald Trump despertou um renovado interesse neste mistério de décadas no início deste mês, quando ordenou a liberação de registros sobre Earhart e sua última viagem, embora não esteja claro o que motivou seu súbito interesse no assunto — ou se existem sequer registros a serem desclassificados. Segundo apuração da CNN, nenhum novo registro foi divulgado.
O Arquivo Nacional dos EUA mantém informações publicamente disponíveis sobre a busca por Earhart e Noonan, incluindo suas últimas comunicações com o Itasca, um navio da Guarda Costeira americana encarregado de apoiar seu voo, disse Cochrane.
"Ela era uma figura enormemente popular da época, todos os seus voos eram acompanhados pelo público, e ela ganhava a vida fazendo esses voos como mulher nos anos 1930, quando praticamente não havia espaço para elas na aviação", acrescentou Cochrane.
Amelia Earhart, a náufraga
Cercada por um recife de coral e localizada no que é hoje a República de Kiribati, Nikumaroro tem aproximadamente 7 quilômetros de comprimento e 2 quilômetros de largura e estava desabitada quando Earhart e Noonan fizeram seu voo final
O atol foi brevemente ocupado entre 1938 e 1963, quando a administração colonial britânica incentivou pessoas das Ilhas Gilbert do Sul, nas proximidades, a se estabelecerem no local.
A hipótese dos náufragos baseia-se no trabalho de Ric Gillespie, fundador da TIGHAR e autor do livro "One More Good Flight: The Amelia Earhart Tragedy", de 2024. Ele visitou Nikumaroro 11 vezes, descobrindo possíveis pistas e fragmentos de evidências.
Segundo Gillespie e Pettigrew, após não conseguir encontrar a Ilha Howland, Earhart voou para o sul e pousou o Electra no extenso recife de coral de Nikumaroro, que fica exposto durante a maré baixa. Lá, ela e Noonan enviaram sinais de socorro e sobreviveram com água da chuva, peixes e tartarugas por dias, talvez semanas, até morrerem.
Seus restos mortais provavelmente foram consumidos pelos enormes caranguejos-dos-coqueiros que habitam o atol, deixando apenas alguns ossos, alguns artefatos e vestígios de fogueiras.
Várias evidências sustentam a teoria, segundo Gillespie e Pettigrew.
Marcações de rádio, ou direções, rastreadas a partir de sinais emitidos após o desaparecimento do avião pareciam se cruzar nas proximidades de Nikumaroro, embora não esteja claro ou confirmado se estes sinais eram realmente de Earhart.
Ossos encontrados em 1940 foram enviados para Fiji, onde foram avaliados por um médico como sendo de um homem antes de desaparecerem, disse Gillespie.
Porém, a análise das medidas dos ossos, que foram registradas na época, usando software forense moderno, sugere que os restos pertenciam a uma mulher e poderiam ser compatíveis com Earhart.
Os artefatos encontrados na ilha incluem um espelho compacto feminino semelhante a um que Earhart costumava carregar, um pote de cosméticos, um canivete e uma caixa de madeira que aparentemente continha um sextante, um instrumento de navegação.

Gillespie, no entanto, não acredita que o objeto identificado por Ashmore na lagoa seja o avião de Earhart. Ele disse que visitou o local na lagoa onde o objeto está localizado e não notou nada fora do comum.
"Olhando para as imagens de satélite posteriores, algo realmente apareceu lá, mas é claramente uma árvore. Especificamente, é uma pandanus", disse Gillespie.
"Elas crescem ao longo da lagoa, e não é incomum que, durante uma grande tempestade, as árvores sejam levadas e trazidas pelas águas."
O pesquisador ainda acredita que Nikumaroro foi onde Earhart passou seus últimos dias, mas não acha que há mais algo a ser encontrado na ilha.
"Todos querem encontrar o avião. Mas ele já não existe mais", observou ele. "Acreditamos que a aeronave foi arrastada para o oceano, provavelmente em 7 de julho, segundo nossos melhores cálculos, e foi imediatamente destruída na arrebentação, sendo despedaçada contra o recife."
Para Pettigrew, no entanto, o Objeto Taraia é a peça final do quebra-cabeça que resolverá o mistério do desaparecimento de Earhart. Ele afirma acreditar que a equipe encontrará os destroços de alumínio de seu avião Electra.
Ao chegar à ilha, Pettigrew e a equipe de 14 pesquisadores planejam fazer registros em vídeo e fotos antes de usar sonar e magnetômetros para investigar o objeto. Só então os pesquisadores começarão a escavação usando uma draga hidráulica.
"Acredito que temos uma excelente chance de fazer um anúncio empolgante", disse Pettigrew.
"Analisei essas evidências de trás para frente, repetidas vezes", acrescentou. "Respondi a inúmeras perguntas, considerei todas as objeções que as pessoas podem apresentar, e tenho uma resposta para tudo. As evidências são muito sólidas."
Nas profundezas
Dave Jourdan, presidente da Nauticos, que concentrará sua busca no oceano profundo ao redor da Ilha Howland, não considera a expedição de Pettigrew como uma competição na busca por descobrir o que aconteceu com Earhart.
"Eles estão seguindo uma pista completamente diferente", disse Jourdan. "Os dados primários da Guarda Costeira e nossa análise de sinais de rádio simplesmente não sustentam essa teoria."
Três expedições da Nauticos desde 2002, junto com a área coberta por uma expedição liderada pelo Instituto Waitt para Descoberta em 2009, cobriram, no total, 9.350 quilômetros quadrados — uma área aproximadamente do tamanho do estado de Connecticut
Os pesquisadores do grupo esperam embarcar em uma expedição final no próximo ano, embora ainda estejam tentando arrecadar entre US$ 8 milhões e US$ 10 milhões (cerca de R$ 43 e 53,7 milhões, respectivamente) necessários para financiá-la.
"Em buscas anteriores, nos concentramos no norte, no noroeste da ilha por muitas, muitas razões... mas já procuramos, e ela não está lá", disse ele. "Então, isso nos deixa com algumas outras opções, e acreditamos que com mais uma expedição, devemos ser capazes de cobrir todas essas áreas."
Os colegas de Jourdan rastrearam e reconstruíram o modelo exato do rádio usado por Earhart e pelo navio Itasca, que aguardava a piloto próximo à costa da Ilha Howland.
Usando o rádio em um avião de tamanho similar ao Electra, a Nauticos recriou em 2020 as últimas horas do voo de Earhart e determinou a localização aproximada dela e de Noonan às 8h do dia em que desapareceram. Jourdan afirmou que sua equipe agora possui as informações mais precisas até o momento sobre a posição final da dupla antes do desaparecimento.
"Um dos aspectos mais reveladores é que em sua penúltima transmissão, ela relatou ouvir a Guarda Costeira, e essa informação, junto com nosso conhecimento sobre a frequência em que ela os ouvia e o equipamento que estava operando, nos deu um número muito preciso de quão longe ela estava da ilha naquele momento", explicou ele.
A equipe da Nauticos planeja usar quatro veículos submarinos autônomos para vasculhar o fundo do mar nas áreas identificadas, disse Jourdan. Avanços recentes na tecnologia, como maior duração das baterias e novas técnicas de sonar, permitirão que a equipe cubra mais território do que nas expedições anteriores.
"Não podemos tornar o oceano transparente, então ainda precisamos descer lá para obter dados de alta qualidade, mas podemos permanecer por mais tempo e navegar com mais precisão", disse ele.
"Objetos metálicos com bordas afiadas costumam ser muito brilhantes no sonar, então estamos confiantes de que, se estiver lá, nós o veremos."
Earhart, disse Jourdan, representa um espírito de aventura e exploração, "de dar o seu melhor apesar das adversidades, e fazer coisas que outras pessoas não ousam fazer, e fazê-las como mulher".
Quase um século após seu desaparecimento, é evidente que rastrear o avião da renomada aviadora, e seu local de descanso final, é uma busca que nunca perde a relevância.
Ashmore ficou cativado pela história de Earhart quando a ouviu de uma professora na primeira série. "Simplesmente ficou comigo", disse ele. "Não que eu pensasse nisso todos os dias ou algo assim, mas nunca esqueci."
Mesmo que a próxima expedição liderada por Pettigrew determine que o objeto que ele encontrou enquanto navegava em seu celular durante o isolamento da pandemia não seja o avião de Earhart, Ashmore disse que não desistiria da busca.
"Pode chamar isso de meu hobby", disse ele. "Tenho me divertido... Vou continuar. Alguém vai encontrá-la."



