Mastodontes migraram por distâncias extremas por conta de mudanças climáticas

Os animais, extintos há 11 mil anos, caminhavam sobre a América do Norte para se adaptar ao clima

Mastodonte, parente dos elefantes que viveu há 11 mil anos
Mastodonte, parente dos elefantes que viveu há 11 mil anos Foto: Reprodução

Ashley Strickland

da CNN

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Mastodontes americanos migraram muitas vezes por milhares de quilômetros, de norte a sul da América do Norte, durante 800 mil anos por conta de mudanças climáticas, antes de serem extintos há 11 mil anos, de acordo com um novo estudo. Os mastodontes foram alguns dos maiores animais terrestres vivendo na Terra.

Esse período de 800 mil anos foi como uma montanha russa climática nas eras do gelo. Períodos glaciais muito frios eram seguidos por períodos interglaciais mais quentes, quando a cobertura de gelo diminuía, criando florestas e áreas úmidas onde antes havia apenas gelo.

Pesquisadores nunca souberam como os mastodontes reagiam a essas mudanças até agora.

“Os dados genéticos mostram sinais de migração, indo e voltando através do continente, levados, aparentemente somente pelo clima”, diz o coautor do estudo Hendrik Poinar em nota. Poinar é um geneticista que estuda a evolução e diretor do Centro de DNA Primitivo da Universidade de McMaster, em Ontário, no Canadá.

Essas mudanças atraíram mastodontes que viviam nas regiões mais ao norte durante os tempos mais quentes a procurar arbustos e galhos baixos de árvore. Ao contrário dos mamutes lanudos, que viviam melhor em lugares mais frios e cobertos de gelo, os mastodontes —  parentes dos elefantes — preferiam lugares úmidos e quentes, em ambientes com árvores e pantanosos.

Mas enquanto os mastodontes iam do centro do México até o Alaska, o Yukon e a Nova Escócia, o clima mudava novamente. As temperaturas do período interglacial, similares às temperaturas que experienciamos hoje, caíriam e o gelo voltaria a cobrir as superfícies.

A flutuação de temperatura entre esses períodos, pesquisadores estimam, podiam variar mais do que 18 graus Fahrenheit. Os períodos glaciais causavam uma expansão da cobertura de gelo, que cobria até 50% das terras habitáveis na América do Norte.

Esses grupos de mastodontes que migraram para o norte tendiam à morrer quando as temperaturas caíam. E então, outro grupo migraria de novo para o norte quando o clima se tornava ameno. Os pesquisadores sabem disso pois não há continuidade que sugira que esses grupos sobreviveram aos congelamentos cíclicos durante esses 800 mil anos.

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Os grupos que migraram na direção do Ártico durante os períodos quentes eram menos diversas geneticamente, o que significa que eram muito semelhantes entre si. Isso também os tornava mais suscetíveis à extinção, dizem os cientistas.

Os mastodontes foram extintos há aproximadamente 11 mil anos, juntamente com outros animais terrestres gigantes, como os mamutes lanudos, preguiças gigantes e tigres dente-de-sabre.

Entretanto, entender porque esses animais foram extintos é mais difícil. Pesquisadores acreditam que uma combinação de competição por alimento, mudanças climáticas e caçadas excessivas de homens primitivos é culpada.

Esse animais preferiam ambientes diferentes, “esperávamos que tivessem reações muito diferentes entre si aos ciclos de momentos glaciais/interglaciais”, disse Emil Karpinksi, principal autor do estudo e estudante do Centro de DNA Primitivo e do departamento de biologia da Universidade de McMaster.

Enquanto os períodos quentes proviam novas fontes de comida para os mastodontes, também diminuíam a quantidade de campos abertos, onde viviam cavalos, mamutes e bisões, conforme cresciam mais árvores e a floresta tornava-se densa.

Os pesquisadores estudaram os fósseis de 33 mastodontes diferentes, e conseguiram reconstruir o DNA de seus dentes, presas e ossos. O DNA revelou cinco grupos distintos de mastodontes. Dois vieram da Beríngia Oriental, ou a região que já conectou os Estados Unidos e a Rússia, resultantes de migrações para essas áreas em períodos interglaciais.

A falta de diversidade genética fez com que eles fossem mais vulneráveis a mudanças em seu ambiente.

Animais frente à mudança climática

Pesquisas anteriores focaram principalmente em mamutes e bisões, que viviam melhor em campos frios, chamados de estepes da tundra.

O novo estudo não somente “aumenta imensamente a quantidade de informações genéticas catalogadas sobre os mastodontes americanos e constrói uma base sólida para estudos futuros do animal”, disse Karpinski. 

“Eu acho que ilustra que a extinção dos mastodontes e outros grandes animais foi provavelmente muito mais cheia de nuances do que a maioria das pessoas pensa,” ele disse. “É difícil para mim pensar que o clima não teve um papel na extinção quando esses animais tinham reações tão drásticas às mudanças.”

Mas esse estudo também trouxe aprendizados sobre animais que estão experienciando e reagindo às mudanças climáticas, como alces e castores.

“Uma grande parte do porquê de estudarmos essas espécies extintas é para ver se podemos encontrar pistas de como espécies atuais podem responder a eventos como o aquecimento antropogênico que estamos vivendo agora”, disse Karpinski.

Enquanto o clima esquenta, as populações dos dias de hoje estão expandindo seus domínios na direção norte em até centenas de quilômetros a cada século, dizem cientistas. Enquanto muitos viram isso como uma mudança positiva para essas espécies, no fim das contas, elas podem sofrer se perderem suas populações no sul.

Se essas populações são geneticamente similares entre si, como a dos mastodontes do norte, poderiam existir consequências a longo prazo em sua conservação.

“Esse sempre é um sinal de perigo para espécies vertebradas”, disse Grant Zazula, coautor do estudo e paleontologista, em nota. “Se diversidade genética é perdida, a habilidade de responder a novas condições também é perdida. Nesse caso, os mastodontes não foram capazes de se adaptar às condições do norte quando o clima esfriou novamente”.

Essas mudanças se aplicam também a outros animais que reagem às mudanças climáticas se expandido para novos territórios.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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