Nova descoberta oferece pistas dos antigos humanos "hobbits"

Ferramentas de pedra sugerem possível ligação entre duas populações do passado

Ashley Strickland, da CNN
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Arqueólogos descobriram ferramentas de pedra primitivas com bordas afiadas na ilha indonésia de Sulawesi, acrescentando mais uma peça ao enigma evolutivo envolvendo misteriosos humanos antigos que viveram em uma região conhecida como Wallacea.

Localizada além do sudeste asiático continental, Wallacea abrange um grupo de ilhas entre a Ásia e a Austrália, sendo Sulawesi a maior delas. Anteriormente, pesquisadores já haviam encontrado evidências de uma espécie humana incomum e de pequeno porte, chamada Homo floresiensistambém conhecida como “hobbits”, devido à semelhança com os diminutos personagens dos livros do autor de fantasia J.R.R. Tolkien — que viveu na ilha vizinha de Flores entre 700 mil até cerca de 50 mil anos atrás.

As ferramentas de pedra lascada recém-descobertas, que datam de aproximadamente 1,04 milhão a 1,48 milhão de anos atrás, representam a evidência mais antiga da presença humana em Sulawesi. Elas sugerem que a ilha pode ter sido habitada por ancestrais humanos primitivos, ou hominíneos, ao mesmo tempo — ou possivelmente até antes — de Flores. Os pesquisadores relataram essas descobertas em um estudo publicado na quarta-feira (6) na revista Nature.

Pesquisadores ainda estão tentando responder a questões fundamentais sobre esses hominíneos das ilhas de Wallacea — principalmente quando e como eles chegaram às ilhas, o que teria exigido uma travessia oceânica.

Ferramentas de pedra lascada já haviam sido descobertas anteriormente na ilha de Flores e datadas de cerca de 1,02 milhão de anos atrás. A descoberta mais recente sugere que pode ter existido uma ligação entre as populações de Flores e Sulawesi — e que talvez Sulawesi tenha servido como uma etapa intermediária para os hobbits de Flores, segundo os autores da nova pesquisa, que estudaram sítios arqueológicos em Flores.

“Há muito tempo suspeitamos que a linhagem do Homo floresiensis de Flores, que provavelmente representa uma variante anã do Homo erectus asiático primitivo, tenha vindo originalmente de Sulawesi, ao norte.

Portanto, a descoberta dessa tecnologia lítica tão antiga em Sulawesi reforça ainda mais essa possibilidade”, afirmou o coautor do estudo, Dr. Adam Brumm, professor de arqueologia no Centro Australiano de Pesquisa em Evolução Humana da Griffith University.

Descobrindo ferramentas pré-históricas

As escavações conduzidas por Budianto Hakim, coautor do estudo e arqueólogo sênior da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia, começaram em Sulawesi em 2019, após um artefato de pedra ser avistado saindo de um afloramento de arenito em uma área conhecida como sítio Calio, em um milharal moderno.

O sítio arqueológico — localizado nas proximidades de um canal de rio — teria sido, segundo os arqueólogos, um local onde hominíneos fabricavam suas ferramentas e caçavam há cerca de 1 milhão de anos. Também foram encontrados fósseis de animais na região, incluindo uma mandíbula do extinto Celebochoerus, um tipo de porco com presas superiores excepcionalmente grandes.

Ao final das escavações, em 2022, a equipe havia descoberto sete ferramentas de pedra. A datação do arenito e dos fósseis resultou em uma estimativa de idade para as ferramentas entre pelo menos 1,04 milhão e possivelmente até 1,48 milhão de anos. Artefatos relacionados a hominíneos encontrados anteriormente em Sulawesi haviam sido datados em cerca de 194 mil anos atrás.

Segundo Brumm, os pequenos fragmentos de pedra afiada usados como ferramentas foram provavelmente produzidos a partir de seixos maiores encontrados nos leitos dos rios próximos e deviam servir para cortar ou raspar. Ele acrescenta que as ferramentas são semelhantes a outras tecnologias líticas humanas primitivas já descobertas anteriormente em Sulawesi, em outras ilhas da Indonésia e também em antigos sítios de hominíneos na África.

“Elas refletem uma abordagem chamada de ‘mínimo esforço’ para transformar pedras em ferramentas úteis com bordas afiadas; são instrumentos simples, mas exigem um certo nível de habilidade e experiência para serem produzidos — resultam de lascamentos precisos e controlados da pedra, e não de simplesmente bater pedras aleatoriamente”, disse Brumm.

“É uma peça importante do quebra-cabeça, mas o sítio Calio ainda não revelou nenhum fóssil de hominíneo”, disse Brumm. “Então, embora agora saibamos que havia fabricantes de ferramentas em Sulawesi há um milhão de anos, sua identidade continua sendo um mistério.”

O registro fóssil em Sulawesi é escasso, e o DNA antigo se degrada mais rapidamente no clima tropical da região. Brumm e seus colegas conseguiram recuperar DNA, alguns anos atrás, dos ossos de uma jovem caçadora-coletora adolescente que morreu há mais de 7.000 anos em Sulawesi, revelando a existência de um grupo humano até então desconhecido — mas descobertas desse tipo são extremamente raras.

Outro obstáculo para desvendar esse enigma, segundo Brumm, tem sido a falta de pesquisas de campo sistemáticas e contínuas em uma região composta por centenas de ilhas separadas, algumas das quais nunca foram devidamente investigadas por arqueólogos.

Uma travessia oceânica antiga

Os pesquisadores, no entanto, têm uma teoria sobre a identidade desse antigo hominíneo ainda não identificado — que pode representar a evidência mais antiga de humanos antigos realizando travessias oceânicas para alcançar ilhas.

“Nossa hipótese de trabalho é que as ferramentas de pedra encontradas em Calio foram feitas por Homo erectus ou por um grupo isolado desse hominíneo asiático primitivo (por exemplo, uma criatura semelhante ao Homo floresiensis de Flores)”, escreveu Brumm em um e-mail.

Além dos fósseis e ferramentas de pedra encontrados em Flores, e das ferramentas agora descobertas em Sulawesi, pesquisadores também já haviam encontrado ferramentas de pedra datadas de cerca de 709 mil anos atrás na ilha isolada de Luzon, nas Filipinas, ao norte de Wallacea — o que sugere que humanos antigos habitavam várias ilhas da região.

Ainda não se sabe exatamente como nossos ancestrais conseguiram chegar a essas ilhas.

“Chegar a Sulawesi a partir do continente asiático adjacente não teria sido fácil para um mamífero terrestre que não voa, como nós, mas está claro que os hominíneos primitivos conseguiam fazer isso de alguma forma”, escreveu Brumm.

“Quase certamente eles não tinham a capacidade cognitiva para inventar barcos que pudessem ser usados em viagens oceânicas planejadas. Muito provavelmente, as dispersões por sobre a água ocorreram completamente por acidente, da mesma forma que se suspeita que roedores e macacos fizeram, ‘atravessando’ (ou seja, flutuando à deriva) em tapetes naturais de vegetação.”

John Shea, professor do departamento de antropologia da Stony Brook University, em Nova York, afirmou acreditar que o novo estudo, embora não seja uma revolução, é importante e tem implicações de grande alcance para a compreensão de como os humanos estabeleceram sua presença global. Shea não participou da nova pesquisa.

Homo sapiens, ou humanos modernos, são a única espécie para a qual existe evidência clara e inequívoca do uso de embarcações, e se Homo erectus ou hominíneos mais antigos cruzaram o oceano até as ilhas de Wallacea, eles teriam precisado de algum meio para viajar, disse Shea.

As águas que separam as ilhas de Wallacea abrigam tubarões e crocodilos e apresentam correntes rápidas, tornando a natação impossível, acrescentou ele.

“Se você já remou em uma canoa ou participou de uma tripulação em um veleiro, sabe que colocar mais de uma pessoa em um barco e navegá-lo com sucesso exige linguagem falada — uma capacidade que os paleoantropólogos acreditam que os hominíneos anteriores ao Homo sapiens não possuíam”, disse Shea. “Por outro lado, só porque alguns hominíneos mais antigos chegaram a essas ilhas de Wallacea não significa que tenham sido bem-sucedidos.”

Por “sucesso”, Shea se refere à sobrevivência a longo prazo.

“Eles podem ter sobrevivido por um tempo após a chegada, deixado para trás ferramentas de pedra praticamente indestrutíveis e depois se extinguido”, disse Shea por e-mail. “Afinal, o único hominíneo que não está extinto somos nós.”

Em busca de fósseis-chave

Brumm e seus colegas continuam seu trabalho investigativo em Calio e em outros sítios de Sulawesi, em busca de fósseis de humanos antigos.

Há também um número crescente de evidências que sugerem que o diminuto Homo floresiensis foi resultado de uma redução dramática no tamanho corporal ao longo de cerca de 300 mil anos, após o Homo erectus ter ficado isolado em Flores há aproximadamente 1 milhão de anos. Segundo pesquisas anteriores, animais podem reduzir seu tamanho quando vivem em ilhas remotas devido aos recursos limitados.

A descoberta de fósseis pode ajudar os pesquisadores a entender o destino evolutivo do Homo erectus, caso ele seja o ancestral humano que chegou a Sulawesi. A 11ª maior ilha do mundo e com uma área mais de 12 vezes maior que a de Flores, Sulawesi é conhecida por seus habitats ecológicos ricos e variados, afirmou Brumm.

“Sulawesi é algo meio imprevisível. É, essencialmente, como um mini-continente por si só,” destacou Brumm. “Se o Homo erectus ficou isolado nessa ilha, isso não significa necessariamente que ele teria evoluído para algo parecido com a forma estranha encontrada na ilha muito menor de Flores, ao sul, também em Wallacea."

Alternativamente, Sulawesi pode ter sido, em outra época, uma série de ilhas menores, o que teria levado ao nanismo em vários pontos da região, explicou ele.

“Eu realmente espero que fósseis de hominíneos sejam finalmente encontrados em Sulawesi,” disse Brumm, “porque acredito que há uma história verdadeiramente fascinante esperando para ser revelada nessa ilha.”

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