Observatório de Arecibo desaba antes da demolição planejada

Plataforma de telescópio de 305 metros, um dos mais poderosos do mundo, desabou na noite de terça (2)

Ashley Strickland, da CNN
Compartilhar matéria

A plataforma de instrumentos do telescópio de 305 metros de altura no Observatório de Arecibo em Porto Rico desabou durante a noite de terça-feira (2), de acordo com a Fundação Nacional de Ciências (NSF) dos Estados Unidos.

É o golpe de misericórdia para um dos telescópios mais poderosos da Terra, que auxiliou em descobertas astronômicas por 57 anos e resistiu a furacões, terremotos e tempestades tropicais.

Os engenheiros avaliaram os danos e descobriram que todas as três torres de suporte do telescópio se quebraram, fazendo com que a plataforma de instrumentos de 900 toneladas caísse no prato refletor abaixo dela. Os cabos de suporte do telescópio também caíram. O centro de aprendizagem do observatório foi gravemente danificado pela queda dos cabos.

O desabamento ocorreu poucas semanas depois da NSF anunciar que o telescópio seria desativado e desmontado por meio de uma demolição controlada, após sofrer danos irreparáveis no início deste ano.

“A plataforma de instrumentos do telescópio de 305 metros no Observatório de Arecibo em Porto Rico desabou durante a noite. Não há feridos. A NSF está trabalhando com as partes envolvidas para avaliar a situação. Nossa prioridade é a segurança. A NSF divulgará mais detalhes quando tiver mais confirmações”, informou um tuíte da Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

"A NSF lamenta esse acontecimento. À medida que avançarmos, procuraremos maneiras de ajudar a comunidade científica e manter nosso forte relacionamento com a população de Porto Rico", disse a Fundação em outro tuíte.

Leia também:

Júpiter e Saturno terão encontro mais próximo desde 1623

Cientistas resolvem mistério da Nebulosa de Anel Azul

O radiotelescópio esférico inclui uma antena parabólica de 300 metros de diâmetro e uma plataforma de instrumentos de 900 toneladas suspensa a 150 metros acima da antena. Cabos conectados a três torres mantinham o telescópio no lugar.

"Lamentamos o ocorrido, mas estamos gratos por ninguém ter se ferido", disse o diretor da NSF, Sethuraman Panchanathan, em um comunicado. “Quando os engenheiros informaram à NSF que a estrutura era instável e representava um perigo para as equipes de trabalho e funcionários de Arecibo, levamos seus avisos a sério e continuamos a enfatizar a importância da segurança para todos os envolvidos. Nosso foco agora é avaliar os danos, encontrar maneiras de restaurar as operações em outras partes do observatório e trabalhar para continuar apoiando a comunidade científica e a população de Porto Rico".

Um cabo auxiliar se soltou de um soquete em uma das torres em agosto, criando um corte de 30 metros no prato. Os engenheiros estavam avaliando e criando um plano para reparar os danos quando outro cabo principal da torre se quebrou no dia 6 de novembro.

Quando rompeu, o cabo bateu no prato refletor abaixo, causando mais danos.

Após a quebra de 6 de novembro, os engenheiros inspecionaram o restante dos cabos e descobriram novos rompimentos, bem como o deslizamento de alguns dos soquetes nas torres. Várias empresas de engenharia revisaram os danos. Eles descobriram que o telescópio poderia desabar porque estava "sob risco de uma falha catastrófica", e os cabos estavam mais fracos do que o esperado.

A última revisão revelou que os danos ao telescópio não poderiam ser estabilizados sem arriscar os funcionários e a equipe de construção. Isso fez com que a NSF tomasse a decisão de desativar o telescópio após 57 anos.

"Acreditamos que a estrutura entrará em colapso em um futuro próximo se não for alterada", de acordo com um comunicado da empresa de engenharia Thornton Tomasetti, que avaliou o observatório antes do

anúncio de desativação no dia 19 de novembro. "A demolição controlada, planejada com uma sequência de desabamento específica e implementada com o uso de explosivos reduzirá a incerteza e o perigo associados a um colapso".

A empresa também recomendou que isso fosse feito "assim que praticamente possível".

Esses planos estavam em andamento quando o telescópio desabou.

A NSF disse que suas prioridades incluem a segurança no local, a realização de uma avaliação de danos e a contenção ou mitigação de qualquer dano ambiental. A agência também se concentrará em colocar online todo o suporte científico e educacional do observatório em andamento.

Além disso, a Fundação vai garantir que a equipe de Arecibo receba seu pagamento e faça reparos em ferramentas de pesquisa, como o telhado da instalação de Detecção e Alcance de Luz, LIDAR na sigla em inglês, e o telescópio de 12 metros usado para pesquisas de radioastronomia.

A NSF planejou preservar o máximo possível do observatório para permitir que a instalação sirva como um centro de pesquisa e educação no futuro, bem como restaurar as operações no observatório. Não há notícias ainda sobre como o desabamento afeta esses planos ou se a fundação foi capaz de migrar todos os arquivos de dados coletados pelo telescópio para servidores externos.

Os maiores interesses são as instalações de pesquisa geoespacial LIDAR, o centro de visitantes e as instalações externas de Culebra para análise de precipitação e dados de cobertura de nuvens.

Um legado de descobertas

Ao longo dos anos, o Observatório de Arecibo revelou novos detalhes sobre a ionosfera de nosso planeta, o sistema solar e mundos mais distantes.

O telescópio apoiou e contribuiu para importantes descobertas em radioastronomia, bem como pesquisas planetárias e do sistema solar, incluindo ondas gravitacionais.

O telescópio de Arecibo também desempenhou um papel fundamental na descoberta do primeiro planeta fora do nosso sistema solar e ajudou os astrônomos a identificar asteroides potencialmente perigosos a caminho da Terra.

As observações feitas pelo telescópio ajudaram a descobrir o primeiro pulsar binário em 1974 (que levou ao Prêmio Nobel de Física de 1993), apoiaram a missão Viking da Nasa, produziram os primeiros mapas de radar da superfície de Vênus e localizaram o primeiro exoplaneta em 1992.

Mais recentemente, o Observatório de Arecibo detectou moléculas orgânicas em uma galáxia distante e descobriu a primeira explosão de rádio rápida e repetitiva.

Visto em cenas do filme "007 contra GoldenEye" (1995), o observatório foi concluído em 1963 e é dirigido pela NSF desde 1970. Ele é operado e administrado por uma equipe da University of Central Florida, da Universidad Ana G. Méndez e da Yang Enterprises Inc.

O observatório é tão querido e fundamental para a ciência que houve até uma petição da Change.org para salvá-lo após o anúncio da desativação. A petição tinha mais de 35 mil assinaturas.

"O Observatório de Arecibo tem sido uma instalação incrivelmente produtiva por quase 60 anos", disse Jonathan Lunine, professor de ciências físicas e chefe do departamento de astronomia da Universidade Cornell, em um comunicado após o anúncio da desativação.

O telescópio foi projetado e construído pela Cornell.

"Para os cientistas e engenheiros da Universidade Cornell que tiveram um sonho e o realizaram, para os cientistas que fizeram novas descobertas com este radiotelescópio e radar planetário excepcionalmente poderoso, e para todos os jovens que foram inspirados a se tornarem cientistas com a visão deste enorme telescópio no meio da ilha de Porto Rico, o fim de Arecibo é uma perda inestimável".

Os cientistas se preocupam com os projetos que estavam em andamento com o telescópio de Arecibo, e também com o que ele significava para

futuras detecções, especialmente de asteroides que se aproximam da Terra. Após o anúncio da desativação, a Nasa fez uma declaração.

"A capacidade do radar planetário de Arecibo, financiado pelo Programa de Observação de Objetos Próximos da Terra (NEO) da Nasa, foi uma das duas principais capacidades de radar planetário. Isso permitiu à Nasa determinar completamente as órbitas, tamanhos e formas precisas de alguns NEOs que passam dentro do alcance do radar depois de serem descobertos por projetos de pesquisa de um telescópio óptico de campo amplo".

Mas o Observatório Goldstone da Nasa em operação na Califórnia também será capaz de caracterizar esses objetos, "para que os esforços de busca de NEOs da Nasa não sejam afetados pela desativação planejada do radiotelescópio de 305 metros de Arecibo".

(Texto traduzido, leia o original em inglês)