Óculos com "foco automático" pode mudar de lente em tempo real; conheça

Nova tecnologia de empresa finlandesa promete revolucionar óculos multifocais com lentes que se ajustam sozinhas

Jacopo Prisco, da CNN
Mecânica interna dos óculos com foco automático é revelada nesta estrutura parcialmente transparente do modelo da IXI  • IXI/ Divulgação
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A empresa finlandesa de óculos IXI está se preparando para lançar óculos inteligentes que parecem armações comuns, mas são capazes de "autofocar" com base nas necessidades percebidas do usuário.

Os óculos contêm sensores de rastreamento ocular e cristais líquidos nas lentes, que são usados para alterar a prescrição instantaneamente. O resultado, segundo a empresa, é uma melhoria em relação às atuais lentes bifocais ou multifocais, que são destinadas a pessoas que precisam de auxílio para enxergar tanto de longe quanto de perto, mas apresentam desvantagens.

As lentes bifocais, cuja invenção é amplamente atribuída a Benjamin Franklin no final do século XVIII, são divididas em duas áreas com diferentes magnificações, com a área principal geralmente dedicada à visão de longa distância e uma seção menor para leitura ou visão de perto.

Uma atualização mais recente desse design clássico é a lente progressiva, da década de 1960, que oferece uma solução similar, mas com uma transição suave, em vez de abrupta, entre as áreas de magnificação, com a intenção de uma visão mais natural.

Ambas requerem que o usuário olhe através da parte correta da lente para focar objetos próximos ou distantes, e embora as lentes progressivas sejam reconhecidas por proporcionar uma experiência mais suave, também causam distorções na visão periférica e exigem um período de adaptação, além de serem bem  mais caras que as lentes comuns ou bifocais.

Ao usar uma lente dinâmica, a IXI elimina as áreas fixas de magnificação: "As lentes progressivas modernas têm esse canal de visão estreito porque estão misturando basicamente três lentes diferentes", disse Niko Eiden, CEO da IXI. "Há visão de longe, intermediária e de perto, e não é possível combinar essas lentes perfeitamente. Assim, existem áreas de distorção, as laterais das lentes são praticamente inúteis para o usuário, e é preciso gerenciar qual parte desse canal de visão você está olhando."

Os óculos da IXI, segundo Eiden, terão uma área de "leitura" muito maior para visão de perto – embora ainda não tão grande quanto a lente inteira – e também será posicionada "em um local mais ideal", com base no exame oftalmológico padrão do usuário.

Mas a maior vantagem, acrescentou Eiden, é que na maior parte do tempo, a área de leitura simplesmente desaparece, deixando toda a lente com a prescrição para visão de longe.

"Para a visão de longe, a diferença é realmente impressionante, porque com as lentes multifocais você precisa olhar para a parte superior da lente para enxergar longe. Com as nossas, você tem toda a área da lente para ver longe – como estava acostumado quando era mais jovem", explicou Eden, referindo-se às pessoas que usavam óculos para visão de longe desde a adolescência ou início da vida adulta, antes de começarem a precisar também de óculos de leitura, como a maioria das pessoas precisa quando envelhece.

Lentes de cristal líquido

A IXI tem 75 funcionários e já captou mais de US$ 40 milhões em investimentos. Seus óculos com autofoco serão lançados no próximo ano e custarão mais do que os modelos convencionais, disse Eiden, sem especificar valores: "Estaremos na faixa mais alta do mercado de óculos".

Os novos óculos não virão sem desvantagens, admite Eiden: "Será mais um produto que você precisará carregar", disse ele. Embora a porta de carregamento seja magnética e inteligentemente escondida na região da haste, será necessário carregamento noturno. No entanto, os componentes eletrônicos e a bateria não têm muito impacto na aparência dos óculos, que podem facilmente ser confundidos com modelos convencionais. Eles também pesam aproximadamente o mesmo, com um dos últimos protótipos pesando apenas 22 gramas.

Algumas distorções visuais também são esperadas: "Em nossa lente, é claro, existe esta área de transição", explicou Eiden. "A parte central é a área nítida, e depois há a borda onde o cristal líquido termina, que não é tão boa para olhar, mas a área central é grande o suficiente para que você possa usá-la para leitura. Então, temos nossas próprias distorções, mas na maior parte do tempo, elas não serão visíveis."

Outra limitação é que mais testes são necessários para tornar os óculos seguros para dirigir, disse Eiden, acrescentando que, em caso de mau funcionamento da parte eletrônica ou da área de cristal líquido, os óculos são equipados com um modo de segurança que os desliga para o estado base da lente principal, que normalmente seria a visão de distância, sem criar perturbações visuais.

Os olhos do usuário são rastreados por uma matriz de fotodiodos – que convertem luz em sinais elétricos – e LEDs; juntos, eles refletem luz infravermelha invisível nos olhos e depois medem a reflexão, para inferir para onde o usuário está olhando.

Embora a IXI tenha afirmado que está projetando os óculos para uso diário, o que inclui lidar com mudanças de temperatura, umidade e movimento do usuário, a empresa ainda não divulgou sob quais condições específicas os óculos serão capazes de funcionar de maneira ideal.

Ian Murray, professor de neurociência visual da Universidade de Manchester, na Inglaterra, que não está envolvido com a IXI, disse que, em princípio, os óculos com foco automático são uma excelente ideia, embora inicialmente terão aplicação limitada e serão considerados uma novidade: "Tudo é perfeitamente viável do ponto de vista físico", escreveu ele em um e-mail à CNN.

Ele acrescentou que ainda há questões a serem respondidas, como qual será realmente o campo de visão e como os óculos se comportarão em condições de baixa luminosidade.

Outras empresas também estão desenvolvendo óculos com foco automático que usam cristal líquido para criar uma lente adaptativa, incluindo a japonesa Elcyo. Outra empresa japonesa, a ViXion, já vende óculos com foco automático, embora não se pareçam com óculos normais e o usuário precise olhar através de duas pequenas aberturas para obter o efeito do foco automático.

Os óculos da IXI, que serão fabricados na Finlândia, serão lançados primeiro na Europa, após a empresa obter aprovação regulatória europeia, e posteriormente buscarão aprovação da FDA para lançamento nos EUA, com o resto do mundo na sequência. Apenas "dois ou três" modelos diferentes estarão disponíveis no início, mas em diferentes larguras.

Eiden compara a chegada dos óculos com foco automático à introdução do foco automático nas câmeras: "A indústria de óculos não tem realmente inovado na correção visual", disse ele. "Depois das lentes multifocais, praticamente não houve nada. É isso que realmente queremos mudar."

"Talvez daqui a 10, 15 anos as pessoas vão se perguntar: como é que a gente usava aqueles óculos com foco fixo antigamente?", acrescentou.

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