Pesquisador indígena cataloga 175 plantas medicinais usadas por seu povo

Estudo buscou atender a demandas dos Pataxó Hã-Hã-Hãi diante do progressivo desaparecimento dos saberes ancestrais

José Tadeu Arantes, da Agência Fapesp
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Um estudo inédito realizado pelo etnobotânico Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi resgatou saberes curativos ancestrais do seu povo indígena. Atualmente doutorando no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (ICAQF-Unifesp), ele pertence ao povo Pataxó Hã-Hã-Hãi e segundo Eliana Rodrigues, sua orientadora de doutorado, é “o primeiro pesquisador etnobotânico indígena do mundo”.

Artigo relatando o estudo, assinado por Pataxó Hãhãhãi e Rodrigues, foi publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. “Esse trabalho foi feito por nós e para nós. Resgata conhecimentos que estavam se perdendo e mostra que podemos fazer ciência sem abrir mão de quem somos”, celebra o pesquisador.

O estudo buscou atender a demandas do próprio povo Pataxó Hã-Hã-Hãi diante do progressivo desaparecimento dos saberes ancestrais. O foco inicial era buscar tratamentos para as três queixas mais comuns da comunidade: verminoses, diabetes e hipertensão. As enfermidades haviam sido engendradas ou agravadas pela fragmentação e dispersão do povo, pela deterioração das condições de vida e pelo contato com a sociedade envolvente.

Mas, a partir do primeiro objetivo, e já no âmbito de uma pesquisa acadêmica, o cientista ampliou o escopo de seu estudo e catalogou 175 plantas medicinais utilizadas pelos Pataxó Hã-Hã-Hãi. Destas, 43 eram utilizadas especificamente para o tratamento das três doenças que inspiraram as investigações — e o uso de 79% delas está em consonância com o que afirma a literatura científica recente.

“Uma das descobertas que mais me chamaram a atenção foi que as principais plantas medicinais utilizadas são espécies exóticas, não nativas, mas introduzidas no território. Isso atesta que a fragmentação e o deslocamento forçado da população originária foram acompanhados por uma extrema devastação ambiental, com a grilagem das terras e a instalação de grandes fazendas”, afirma Pataxó Hãhãhãi.

Entre as plantas mais utilizadas, destacam-se o mastruz (Dysphania ambrosioides), para verminoses; a moringa (Moringa oleifera), para diabetes; e o capim-cidreira (Cymbopogon citratus), para hipertensão. Das três, duas são exóticas, originárias da Ásia e introduzidas no Brasil a partir do processo colonial ou mesmo em tempos mais recentes: o capim-cidreira e a moringa. Quanto ao mastruz, muitos botânicos consideram que a planta já existia em áreas tropicais da América do Sul antes da chegada dos colonizadores e que ela vem sendo utilizada há séculos por povos indígenas.

Outra planta considerada nativa e também usada para o tratamento de verminoses é a batata-de-purga (Operculina macrocarpa). “Mas, até o momento, consegui encontrar poucas espécies nativas. Muitas plantas mencionadas pelos anciãos desapareceram da mata”, lamenta Pataxó Hãhãhãi.

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