Pixel 10 terá função do Google que simplifica tarefas no celular; entenda

Novo recurso usa inteligência artificial para agilizar atividades do dia a dia e reduzir a troca entre aplicativos

Lisa Eadicicco, da CNN
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Quantos aplicativos são necessários para planejar uma reunião de trabalho ou um jantar com amigos? Provavelmente envolve alternar entre o app de mensagens de texto, um app de e-mail, um app de navegação como o Google Maps e, talvez, um app de reservas como o Resy ou o OpenTable.

O Google quer reduzir esse "vai e vem" com uma ferramenta que chegará aos celulares Pixel 10, revelados nesta quarta-feira (20) e com lançamento marcado para 28 de agosto. O recurso, chamado Magic Cue, usa inteligência artificial para analisar o que você está fazendo no celular e sugerir a próxima ação.

A ideia não é totalmente nova, e a tecnologia ainda não é avançada o suficiente para lidar com tarefas muito sofisticadas. Mas pode abrir caminho para mudanças mais profundas em como os smartphones funcionam na era da inteligência artificial (IA) — um objetivo que a Apple e outros fabricantes de celulares também estão perseguindo. Além disso, pode dar ao Google uma nova forma de diferenciar os Pixels do iPhone e dos Galaxy da Samsung, que dominam o mercado de smartphones tanto nos Estados Unidos quanto no restante do mundo.

“Muito do que (os smartphones) fazem hoje é ajudar a armazenar informações para nós, mas depois cabe a nós lembrar onde encontrar um documento específico, ou um e-mail ou um compromisso que estamos procurando”, diz Tyler Kugler, gerente de produto que lidera a equipe de IA do Pixel no Google, em uma coletiva antes do evento de quarta-feira. “E todo esse processo pode acabar sendo enganosa e desnecessariamente trabalhoso.”

O Magic Cue usa o modelo de IA Gemini Nano, do Google, e o Tensor G5, chip dos novos celulares, para processar em tempo real o que a pessoa está fazendo no dispositivo. Em seguida, oferece sugestões — como um botão para ligar para um restaurante diretamente dentro de uma conversa por mensagem de texto sobre reservas para o jantar. Segundo o Google, o processamento acontece localmente no dispositivo, sem envio de dados para a nuvem — o que é considerado mais seguro, já que as informações não saem do celular.

Em uma demonstração vista pela CNN, um botão com o texto Ligar para a United apareceu logo abaixo de uma mensagem pedindo para ligar para a companhia aérea e alterar um voo. O objetivo é agilizar o processo, eliminando a necessidade de procurar o número certo e alternar para o app de telefone. Durante a chamada, o Google também exibirá os detalhes do voo no aplicativo.

Em outro exemplo, o Google exibiu o endereço de um restaurante ao receber uma mensagem perguntando onde seria a reserva. A empresa afirma que o Magic Cue funcionará em casos específicos, como dividir a conta de um restaurante, adicionar eventos ao calendário ou visualizar a previsão do tempo para uma viagem, com mais funções sendo liberadas ao longo do tempo.

Além disso, a tecnologia será integrada ao Daily Hub, uma seção da interface do celular que mostra compromissos futuros do calendário e playlists sugeridas. No Daily Hub, o Magic Cue exibirá informações como reservas ou lembretes de devolução de compras online.

O Google espera que o recurso torne seus celulares mais fáceis de usar, evitando que os usuários precisem alternar entre vários apps para concluir uma tarefa. Mas já há sinais de que os próprios consumidores estão mudando seus hábitos: donos de smartphones nos EUA estão usando menos aplicativos, de acordo com um relatório da eMarketer de 2022. Ainda assim, o tempo gasto nos aparelhos aumentou, o que indica que as pessoas concentram seu uso em um número menor de apps.

Mesmo assim, as gigantes de tecnologia acreditam que há necessidade de simplificar as tarefas sem depender de múltiplos aplicativos, e o novo recurso do Google é o exemplo mais recente dessa tendência.

A Apple, por exemplo, já oferece o Siri Suggestions, que recomenda ações com base nos hábitos do usuário, como sugerir quem adicionar a um convite do calendário ou a um e-mail, de acordo com atividades passadas. Mas, segundo a demonstração do Google, o Magic Cue vai além: em vez de apenas sugerir, ele permite executar ações específicas — como ligar para uma companhia aérea ou restaurante — a partir da análise direta do conteúdo no celular. A Apple deve lançar no próximo ano uma nova versão da Siri capaz de executar tarefas dentro dos aplicativos, após adiar uma grande atualização de sua assistente virtual.

A Samsung também segue o mesmo caminho. Em janeiro, destacou como um dos diferenciais do Galaxy S25 a possibilidade de usar o assistente Gemini para realizar ações entre aplicativos.

Essa mudança para usar a IA como ferramenta central de execução de tarefas se assemelha à forma como a internet funcionava antes dos dispositivos móveis, quando os consumidores usavam um único aplicativo central — o navegador — em vez de vários apps diferentes, segundo Carolina Milanesi, analista principal da consultoria Creative Strategies.

“E então, em vez de ir a um único lugar, passamos a ir a muitos lugares. Agora, parece que estamos voltando a esse único lugar — mas, claro, um lugar muito mais poderoso, que seria o seu agente de IA preferido”, afirma.

Ainda assim, o Google provavelmente precisará de mais do que novos recursos de IA para aumentar sua presença no mercado de smartphones. Empresas de análise que monitoram remessas globais de celulares, como a IDC, a Counterpoint Research e a Canalys, nem sequer incluem o Google em seus relatórios, dado o pequeno volume de participação da marca. Nabila Popal, diretora sênior da equipe de dados e análises da IDC, diz à CNN por e-mail que os celulares Pixel representam apenas 1% do mercado global no segundo trimestre de 2025.

Fabricantes de smartphones vêm tentando incluir mais IA em seus aparelhos nos últimos dois anos. Mas, segundo Josh Lowitz, analista da Consumer Intelligence Research Partners, que acompanha hábitos de consumo nos EUA, a maioria dos consumidores troca de celular por necessidade — quando a bateria não dura mais ou a tela quebrou, por exemplo — e não tanto pelo desejo de ter novos recursos.

A empresa afirma que os novos Pixels também devem oferecer melhorias nesses pontos básicos, como bateria de maior duração, câmeras com recursos de enquadramento alimentados por IA e compatibilidade com acessórios como carregadores sem fio magnéticos, semelhantes ao MagSafe, da Apple.

Os recursos de IA do Pixel 10 podem não convencer imediatamente os consumidores a correr para comprar o celular. Mas, para Popal, representam um passo em direção a uma transformação maior no uso dos dispositivos móveis:

“Eu também vejo um futuro sem aplicativos, no qual a IA será o sistema operacional central, e o usuário não precisará alternar entre apps para realizar tarefas”, afirma por e-mail. “Ainda vejo o smartphone como o dispositivo de computação principal para os consumidores usarem a IA, mas a forma como o utilizamos vai mudar.”

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