Clara Resorts: investimentos acima dos R$ 300 milhões e aposta em Inhotim

Taiza Krueder, CEO e proprietária do grupo, compartilha detalhes dos hotéis inéditos no maior museu a céu aberto do mundo e aponta gargalos no turismo brasileiro

Projeto do novo hotel de luxo do Clara Resorts em Inhotim; primeira fase conta com 46 bangalôs com varanda com lareira, cama de casal, sofá, copinha do bebê e adega
Projeto do novo hotel de luxo do Clara Resorts em Inhotim; primeira fase conta com 46 bangalôs com varanda com lareira, cama de casal, sofá, copinha do bebê e adega Divulgação/Clara Resorts

Saulo Tafarelodo Viagem & Gastronomia

Quando inaugurado há 25 anos, o Santa Clara Eco Resort, em Dourado (SP), não tinha frigobar, telefone, ar condicionado e nem televisão nos quartos. Mesmo assim, já era considerado o melhor hotel da região de Brotas.

Hoje, o resort de 146 apartamentos de luxo – dotado de oito piscinas e até de máquinas Starbucks – é o irmão mais velho do Clara Ibiúna Resort, também no interior de São Paulo, com 164 acomodações e parte do Clara Resorts.

Além deles, o grupo liderado pela CEO Taiza Krueder investirá uma cifra acima dos R$ 300 milhões ao longo dos próximos seis anos com duas novas propriedades ao redor do Instituto Inhotim, o maior museu a céu aberto do mundo, em Brumadinho (MG), a 60 km de Belo Horizonte.

“É a primeira vez que eu tenho um hotel em um destino. Normalmente as pessoas vão para os resorts Clara e ficam uma semana, então vou usar as mesmas estruturas e encantamento que já tenho nos outros hotéis lá em Inhotim, pois acredito que é um local que deve ser degustado aos poucos”, diz Taiza, que, além de CEO, é proprietária do grupo hoteleiro.

Inauguração em Inhotim

Imagem de projeto computadorizado da área da piscina do novo hotel de luxo do Clara Resorts em Inhotim
Projeto da área de uma das duas piscinas do novo hotel de luxo do Clara Resorts em Inhotim / Divulgação/Clara Resorts

A primeira fase do projeto está prevista para ser aberta já no final de novembro deste ano, uma vez que a estrutura já existia, mas estava parada desde 2014. O novo hotel de luxo terá 46 bangalôs, duas piscinas, sauna, spa, dois restaurantes, brinquedoteca, academia e espaço para eventos.

Todas as acomodações têm varanda com lareira, banheiras esculpidas em pedra-sabão, cama de casal, sofá, copinha do bebê e adega. A aposta de Taiza é ser fiel aos apartamentos no estilo family chic dos resorts de Dourado e de Ibiúna. As tarifas também serão semelhantes às já praticadas nestas propriedades, com preços que se iniciam em cerca de R$ 2 mil no Santa Clara Eco e R$ 2.300 no Clara Ibiúna.

“Não é uma diária barata, mas é pensão completa. Tem bebidas Starbucks durante as refeições, máquinas com cafés, capuccinos e chocolates à vontade nos quartos, muita monitoria e muito show. Entregamos aquilo que o cliente comprou e vou levar essa mentalidade para Inhotim”, revela a CEO.

Novo resort até 2029

Uma das vantagens prometidas aos hóspedes de Inhotim é a utilização dos jardins e de outros espaços em horários que não são abertos ao público geral. Segundo Bernardo Paz, fundador do Inhotim, o museu recebe até cinco mil pessoas por dia.

“Estou construindo um hotel para os mineiros, para que eles voltem muitas vezes. No Clara, as pessoas voltam de cinco a sete vezes por ano, mas dificilmente um paulista voltará para Inhotim nessa assiduidade”, confessa a empresária. Para isso, os restaurantes devem incorporar a culinária mineira e todo o projeto tem sido feito com a ajuda de artesãos locais.

Além desta primeira etapa, uma expansão com mais 60 acomodações deverá ser entregue até o ano que vem, com direito a spa no meio da floresta e centro de eventos. Parte do investimento milionário também será destinado a um outro resort previsto para 2029, com 150 acomodações a 700 metros do museu.

Brinco que o maior investidor de Inhotim não é a Vale, sou eu. Fazer uma coisa bem feita é caro. Temos uma operação muito saudável, não temos sócio, não temos investidor, então giramos com nossos próprios rendimentos de uma forma saudável e do tamanho das nossas pernas

Taiza Krueder

De olho no turismo brasileiro

Taiza Krueder, CEO e proprietária do grupo Clara Resorts
Taiza Krueder, CEO e proprietária do grupo Clara Resorts / Divulgação/Clara Resorts

Se os mineiros estão no foco da futura operação de Inhotim, os paulistas já são figurinha carimbada entre a maioria dos hóspedes do Santa Clara Eco e do Clara Ibiúna, principalmente famílias que se deslocam a partir da capital paulista durante as férias e os feriados.

Mas e os turistas estrangeiros? Eles representam ainda um filão pequeno diante dos turistas nacionais. Para se ter uma ideia, quase seis milhões de visitantes estrangeiros foram registrados no Brasil em 2023, segundo dados divulgados pela Embratur em parceria com o Ministério do Turismo e a Polícia Federal.

“O que a gente tem que entender é que o Brasil é lindo, mas ele também tem que ser fácil. Tem que ser seguro, tem que ter uma imagem construída lá fora. Quem tem menos flexibiliza mais. Acho que temos que flexibilizar um pouco mais a entrada dos estrangeiros, melhorar a segurança e a estrutura para o turismo. Hoje em dia há um ‘custo-Brasil’ muito caro para o turismo”, aponta Taiza Krueder.

Segundo a CEO, a viabilidade para o turismo tem que ocorrer seguindo aspectos estruturais, como maior flexibilização de leis trabalhistas no setor de serviços, e também de educação. “Há muita pouca faculdade no país que forma essa mão de obra. Cerca de 92% do meu time de Ibiúna trabalhava na roça antes de ir para o hotel. Não tem gente pronta”, argumenta.

Para reverter isso, o Clara Resorts possui uma academia que oferece treinamentos aos funcionários de todos os setores e, para os que quiserem ir além, banca uma ajuda de 50% do valor dos estudos em outras instituições.

Na visão da profissional, a tendência é que os padrões gerais melhorem, principalmente com a chegada de grandes grupos hoteleiros em solo nacional, que devem injetar R$ 5,7 bilhões no país até 2027. “Grandes marcas virão para cá, então tudo puxa o nível. Mas o Brasil não é para amadores. Tanto que as melhores redes no país não são as internacionais, mas sim as nacionais, como Fasano, Emiliano e até a gente”.

Uma preocupação, porém, fica no ar. “Espero que tomem cuidado com destinos que viraram uma febre para que não sejam destruídos. Minha conversa com Inhotim é que vou ajudá-los em tudo que precisarem. Não adianta ter um hotel na frente do mar e deixá-lo poluído, por exemplo”.

Sustentabilidade como valor indiscutível

Aqui entra também a questão da sustentabilidade, que, na opinião da CEO, não é uma tendência, mas sim um valor que veio para ficar.

“Acredito que grande parte do nosso sucesso se deve à nossa mentalidade sustentável. Mas não faço isso pelo lucro de volta. Faço porque é o certo. A marca que não entender isso terá um problema. Fico horrorizada com a quantidade de plásticos quando vou a outros hotéis”, categoriza.

Estimativas do grupo Clara Resorts apontam que 200 mil garrafas plásticas por ano deixam de ser jogadas fora em cada hotel em razão da implementação de filtros de água em todas as acomodações. “Eu abri mão de vender água nos quartos. A conta vale? É um princípio que, para mim, fecha. Infelizmente não é um ganha-ganha”, diz.

Cada vez mais o luxo vai ser o contato com a natureza e o contato com as nossas raízes. É ter um cuidado real com a sustentabilidade e trazer com isso o conforto do hóspede

Taiza Krueder

O contato com a natureza é um dos principais atrativos que os hóspedes buscam nos resorts de Taiza, tanto que ambas as propriedades em São Paulo são cercadas por 70% de mata. Há quase uma década, Taiza trocou uma plantação de cana-de-açúcar no hotel de Dourado pelo plantio de 50 mil árvores seringueiras em sistema de agrofloresta. O resultado é dos mais satisfatórios: hoje há uma série de tucanos e macacos que se alimentam de frutos e até o látex deve ser extraído em breve.

Outra iniciativa em conformidade com a agenda ESG foi a criação de uma taxa social de R$ 24 destinada a ONGs ambientais e instituições como APAE e GRAACC. Apesar de voluntária, Taiza conta que 97% dos hóspedes aderem ao valor. “Também é para despertar um pouco do poder da doação do brasileiro. Nós doamos muito pouco, principalmente quem pode”, defende.

Projetos futuros

Cerca de R$ 150 milhões foram investidos em melhorias nos hotéis da marca em São Paulo no ano passado, o que não quer dizer que as propriedades ficarão desamparadas no futuro próximo. Para o ano que vem, já estão em projeto a construção de um salão de eventos em Dourado e um pequeno aumento no salão de Ibiúna, com salas voltadas a um perfil de eventos premium, com marcas como Iguatemi, Dior e Land Rover na jogada.

As mudanças vêm de encontro com o aumento de 21% no faturamento do Clara Ibiúna com eventos corporativos em 2023, nicho que o grupo está de olho. “Tenho que atender um público multifacetado. É muito comum uma pessoa vir com um evento e retornar com a família e vice-versa. Tenho uma taxa de retorno alta dos dois públicos”, relata Taiza.

Outros quatro quartos no mesmo hotel estão na mira da empresária para serem transformados em suítes presidenciais, com direito a piscinas privativas. A primeira ala de quartos erguida em Ibiúna, cuja abertura ocorreu no fim de 2017, também passará por reformas.

Além dos planos de expansão do grupo para os próximos anos, com novas áreas e hotéis, Taiza não exclui a ideia de uma nova propriedade. “Tenho conversas com o Nordeste, porém não achei nada que brilhasse meu olho ainda. Mas acho que inevitavelmente vamos acabar tendo um hotel na praia”, confessa.