Babymoon ganha destaque na pandemia: veja dicas de destinos e como se planejar

Mescla de honeymoon (lua de mel) com "bebê", babymoon é uma viagem para relaxar, curtir e, muitas vezes, aproveitar os últimos meses da vida do casal sem filhos

Baby Moon vira tendência entre casais 'grávidos'. Destinos de praia, mais tranquilos, lideram a busca em agências
Baby Moon vira tendência entre casais 'grávidos'. Destinos de praia, mais tranquilos, lideram a busca em agências Pexels

Daniela Caravaggido Viagem & Gastronomia

São Paulo

Uma viagem em casal, a sós, sem mais ninguém, para curtir um momento especial a dois. Se você ouvisse essa descrição há alguns anos, teria certeza de que se trataria de uma lua de mel ou, em inglês, “honeymoon”, ocasião em que os casais viajam após a celebração de seus casamentos.

O nome vem do século 16, por conta de uma tradição nórdica que dizia para os recém-casados tomarem uma bebida chamada hidromel durante a primeira lua cheia – ou a mais próxima do casamento.

Segundo a lenda, quem seguisse essa orientação seria abençoado pelos deuses com fertilidade para gerarem seus futuros filhos.

Os anos se passaram e o termo se espalhou pelo mundo, mas mais do que isso: recentemente, ganhou uma nova variação.

A babymoonmistura de honeymoon com baby tem quase o mesmo conceito: é uma viagem a dois. Quer dizer, quase a três. Um momento para o casal curtir e relaxar durante a gestação, antes da chegada do filho, que demandará atenção e tempo quase exclusiva dos pais nos próximos meses.

A Kangaroo Tours, operadora de viagens que está há mais de 40 anos no mercado, percebeu o início do nicho no Brasil em 2019, com crescimento expressivo durante a pandemia.

“Identificamos que muitos casais grávidos estavam nos procurando em 2019. É uma tendência que vem de fora, muito vista nos Estados Unidos e Austrália”, diz Dinah Carvalho, gerente de marketing da empresa.

“Foi crescendo a cada ano, mesmo com a pandemia. Em 2021, por exemplo, muitos utilizavam viagens para fazer a revelação do sexo do bebê, na impossibilidade de juntar a família. Sabendo do intuito, já preparávamos uma equipe de fotógrafo para registrar o momento. Os casais querem aproveitar o momento para relaxar, descansar, pois sabem que um período intenso virá pela frente”, ressalta.

Ilhas Maldivas, México, Estados Unidos e cidades do nordeste brasileiro lideram a lista de desejos dos casais, mas há de tudo um pouco.

“A escolha do destino é algo muito pessoal de cada casal. São muitas opções. Teve um que escolheu o Egito, por exemplo. Mas a maioria busca praias, lugares que oferecem toda estrutura para uma estadia tranquila. Os hotéis estão cada vez mais percebendo essa demanda e adequando pacotes para isso, mas ainda há muito a se explorar”, completa.

Segundo Ana Carolina Ghellardi, diretora da Kangaroo de Curitiba, o aumento para busca deste tipo de viagem durante os últimos dois anos chegou a 90% na região.

“Os casais nos buscam pedindo sugestões, mas querem algo que provavelmente não farão tão cedo a dois. A cultura do viajante tem mudado, antes o mais comum era ir aos Estados Unidos para fazer enxoval. Hoje, as gestantes não querem mais isso. Querem conhecer destinos e fazer uma viagem diferente”, ressalta.

Um dos hotéis que passou a olhar com atenção para esse mercado foi o Six Senses Botanique, que chegou ao Brasil no fim de 2020, e está localizado em Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira.

Recentemente, o local lançou um programa inédito, com tratamentos e terapias especiais às gestantes, como ioga e meditação e tipos de massagens específicas a grávidas.

Para usufruir deste pacote, é necessário fazer reserva de pelo menos duas diárias, que terão inclusas duas refeições, sendo uma delas o café da manhã. O acompanhante não fica fora do passeio e também tem direito a escolha de uma massagem.

Six Senses Botanique, em Campos do Jordão, oferece pacote especial para realização de Baby Moon / Facebook

O ponto de vista médico

Seja para perto ou para longe, os planos de viagem antes de tudo precisam ser alinhados com o obstetra. Com o aval do médico à frente do seu pré-natal, a gestante deve ficar atenta alguns detalhes.

O primeiro deles é sobre o melhor momento a se fazer essa viagem, como explica Nilton Hideto Takiuti, médico ginecologista e obstetra do Hospital das Clínicas.

“Na gestante saudável, sem doenças crônicas prévias e que não tenha nenhuma doença relacionada à gestação e ao desenvolvimento do feto, o fim do segundo trimestre costuma ser uma fase com menos chances de ter intercorrências. Portanto, é o melhor período para fazer uma viagem mais prolongada e mais distante do local de residência”, explica.

No começo da gestação, segundo ele, existe um risco habitual de abortamento espontâneo que pode atrapalhar a programação dos passeios, caminhadas e muitas outras atividades.

“No fim da gestação existe o risco de desencadear o trabalho de parto e ele ocorrer em local não programado. Assim, viagens próximas ao local de moradia seriam mais adequadas para essas fases”, completa.

O obstetra também enumera outros pontos importantes que devem ser observados ao programar uma babymoon: é extremamente necessário entender se o destino escolhido possui recursos médicos e hospitalares de assistência obstétrica adequada, e se o convênio da gestante tem cobertura caso seja necessário uma internação ou realização de parto prematuro.

O risco de adquirir alguma doença infecciosa tal como virús da Zika, malária, Covid-19 também deve ser levada em conta.

Deve-se estudar as infecções mais prevalentes no local de destino para avaliar as necessidades de prevenção, profilaxia e eventualmente, se adquirir, o risco do tratamento de alguma infecção.

Se existir risco par adquirir o vírus da zika ou malária, então será preciso cobrir boa parte do corpo com roupas e usar repelentes de insetos na pele e roupas.

É preciso tomar cuidado com alimentos e líquidos em destinos de países com péssimas condições sanitárias e de higiene para evitar a diarreia do viajante.

Alguns países exigem o comprovante de vacinação de doenças infecciosas, mas essas podem ser contraindicadas na gestação principalmente as vacinas de vírus vivos atenuados.

Sobre distâncias e modos de transporte, Nilton aconselha evitar viajar para destinos acima de de 8 mil pés (2438 metros) de altitude. Ele explica que altas altitudes possuem uma pressão parcial de oxigênio menor e podem estar relacionadas a um crescimento e desenvolvimento fetal não adequado.

“Estudos observacionais relatam aumento de risco de parto prematuro entre passageiras gestantes principalmente em viagem longas. Sendo assim, as companhias aéreas fazem algumas restrições de embarque de gestantes de idade gestacional mais avançada. É necessário entrar em contato diretamente com as empresas para entender essas observações antes de adquirir uma passagem”, ressalta.

Casais devem se atentar aos cuidados ao optarem por viagens de avião durante gestação / Pxhere

Outro ponto de atenção é a restrição de movimentos em viagens aéreas, que podem favorecer a trombose venosa profunda e ao tromboembolismo pulmonar.

“Esse risco ocorre em todos os passageiros, mas na gestação e no puerpério há um perigo”, enfatiza Hideto.

Assim, ele dá algumas orientações importantes como: manter-se bem hidratada; mover as pernas e os pés regularmente para que não ocorre estase do sangue das veias; vestir roupas confortáveis e largas para não limitar o retorno venoso; calçar meio elástica antes de subir na aeronave.

Hora de aproveitar

Depois que todos os cuidados prévios forem tomados, a data e o melhor destinos forem escolhidos, é hora de relaxar para esperar a chegada do bebê.

Segundo a neuropsicóloga Roberta Brito, a aproximação e conexão do casal durante toda a gestação é fundamental, incluindo a programação e realização da babymoon.

“São várias fases que o casal irá passar. O primeiro trimestre é de muita ansiedade, insegurança. No segundo, é uma ideia que já está mais madura e tanto a mãe quanto o pai tendem a estar mais tranquilos psicologicamente”, conta.

“A viagem é para selar esse momento de relaxamento. É cientificamente comprovado que momentos como esse ajudam o cérebro a perceber a nova realidade e auxiliam na adaptação”, explica.

Para a psicóloga, é importante o casal entender os próximos passos que virão o pela frente.

Unidos, conseguirão passar pela fase de maneira mais tranquila e passarão as boas sensações também ao bebê.

“Haverá uma reorganização da família. Um novo membro irá chegar e isso não é algo simples. Tudo o que for ajudando nesse caminho é importante. Desde a preparação do quarto até uma sessão de fotos. O acolhimento e afeto dado ao casal e sua conexão refletirão diretamente no bebê”, ressalta.

E foi em busca dessa conexão e preparação que Thais Naidelice e o marido Felipe Pavan decidiram fazer a tão aguardada babymoon. Hoje pais de Guilherme e Rafael, o casal não só amou a primeira experiência como repetiu a dose no segundo filho.

Thaís engravidou de seu primogênito em 2020, no auge da pandemia. Fazia tempo que não viajava a sós com Felipe e, grávida, não tinha previsão de quando conseguiria fazer essa programação tão cedo.

Seu médico recomendou escolher um destino de fácil acesso e tomar cuidado com alguns tipos de alimentos.

Advogada Thais Naidelice passou sua primeira babymoon no Ibero Star, na Praia do Forte, Bahia. À época, tinha seis meses de gestação / Arquivo pessoal

“Já tinha ouvido falar da babymoon na internet e resolvemos fazer a nossa. Fomos para a Praia do Forte, na Bahia. Ficamos hospedados no IberoStar. Estava com seis meses e precisávamos deste momento nosso. Sabíamos que quando ele nascesse as coisas não seriam tão fáceis, teríamos muitas novidades e queríamos nos preparar para isso”, conta Thais.

“Nos conectamos nós três, unimos forças e foi maravilhoso. Quando engravidei do Rafa não pensei duas vezes e fiz outra”, continua a advogada, que aproveitou a viagem também para comemorar o aniversário de casamento.

Com o segundo filho, a escolha também foi a Bahia, mas Itacaré. O hotel foi o Txai e, apesar do mesmo conceito de viagem, ela explica que foi importante de outra maneira.

Thais Naidelice e Felipe Pavan escolheram o Txai Resort, em Itacaré, para a segunda Baby Moon / Arquivo pessoal

“Resolvemos repetir a dose, mas em outro momento. Quando engravidei do Rafa, o Gui tinha sete meses. Viajei com cinco e ele estava com 10. Estávamos em um ritmo muito acelerado, com noites muito cansativas. Lembro que no dia que a gente chegou, fomos jantar e dormimos por 11 horas seguidas”, conta rindo.

Para preparação de uma experiência nova, para se conectar ou apenas para descansar, a babymoon é uma tendência que veio para ficar e trazer benefícios para esse momento tão especial do casal.

Se escolhida com cuidado e responsabilidade, é mais uma forma de viagem para ser eternizada na memória.