Como tendência viral no TikTok tem irritado passageiros em viagens de avião
Nas redes sociais, tempo ocioso no ar virou uma oportunidade para cuidar da aparência

Por anos, voos de longa distância foram sinônimo de desconforto, desidratação e uma total falta de glamour. Seja uma criança chutando o encosto do seu assento por nove horas, os lábios rachados pelo ar seco da cabine ou a escassez de itens para cuidados pessoais, a verdade é que os passageiros raramente chegam ao destino se sentindo renovados.
Mas uma tendência viral no TikTok está mudando essa percepção. O movimento, que começou com influenciadores, agora inspira passageiros comuns a gravarem e compartilharem seus próprios vídeos de “Get Ready With Me” (GRWM — “Prepare-se Comigo”) direto de seus assentos, transformando as mesinhas do avião em improvisadas penteadeiras.
Assim, o tempo ocioso no ar virou uma oportunidade para cuidar da aparência e fazer rituais de beleza, mostrando nas redes sociais como é possível ir de “zumbi” a modelo em pleno voo.
Esses rituais incluem de tudo: bobes de cabelo, toucas, adesivos para a região abaixo dos olhos e até maquiagens completas — tudo para desembarcar no destino de férias como se fosse para uma passarela.
E a tendência não para por aí. Alguns passageiros até usam os apertados banheiros de avião como cenário para seus rituais noturnos de skincare.
Esse fenômeno faz parte de uma mudança maior: a valorização do bem-estar e da autopresentação, mesmo a 11 mil metros de altitude. No entanto, à medida que cresce, há quem questione se tudo isso é realmente prático.
Conversamos com criadores de conteúdo que aderiram à tendência e com uma dermatologista para entender melhor.
Hidratação, miniaturas e máscara de cílios
Berfin Yilmaz, criadora de conteúdo no TikTok que fala sobre autocuidado, maquiagem e skincare, contou ao CNN Travel que se inspirou na popularidade da tendência na plataforma e quis experimentar algo “diferente e criativo” no seu primeiro GRWM a bordo. Para ela, o foco principal é cuidar da pele durante o voo.
“As cabines dos aviões são muito secas, então precisamos hidratar bem a pele”, explica.
No vídeo, Yilmaz opta por usar menos produtos que outras influenciadoras, evitando maquiagens pesadas para permitir que a pele respire melhor. Seu objetivo é manter a pele “fresca e confortável”, com um visual mais natural.
Antes de começar, higienizou as mãos com lenço antibacteriano e aplicou protetor solar como base. Como aparece no vídeo: “Usei máscara de cílios, blush e, como meus lábios estavam secos, também passei um balm”, acrescenta.
Ela priorizou produtos em tamanhos de viagem, praticamente todos miniaturas, e usou o próprio celular como iluminação.
Segundo Yilmaz, a maioria dos passageiros estava dormindo enquanto ela gravava. Por isso, conseguiu fazer tudo sem chamar muita atenção ou incomodar os outros.
Vale lembrar que, em voos mais lotados, movimentar-se no assento ou usar a luz do celular pode acabar irritando passageiros próximos, dado o espaço apertado.
Mecanismo de enfrentamento
Para a criadora de conteúdo britânica Georgia Barratt, a tendência vai além da estética — virou uma ferramenta terapêutica. “Na verdade, eu nem tinha visto ninguém fazer isso”, conta. “Mas faço porque tenho uma ansiedade muito, muito forte em relação a viagens.”
Após mais de dois anos de terapia, ela descobriu que se distrair ajuda. “Assistir a filmes ou ouvir música não funciona. Mas fazer maquiagem… isso é a única coisa que me ajuda.”
O que começou como um mecanismo de enfrentamento virou conteúdo. Seus primeiros vídeos acumularam milhões de visualizações e hoje a rotina virou tradição em voos de curta distância. “Acho que o mais longo que fiz foi um voo de quase quatro horas para o sul da Itália, e eu caprichei, me maquiei o tempo todo.”
Barratt explicou que não se maquia durante decolagem ou aterrissagem, respeitando as restrições de segurança, e prefere fazer isso quando o voo já está em altitude de cruzeiro. “Assim que apagam os sinais e estabiliza, começo e me jogo. E faço as maquiagens mais loucas, que normalmente nunca usaria em público, mas penso: preciso que isso dure duas horas”, brinca.
Embora alguns passageiros até olhem curioso, Barratt faz questão de não invadir o espaço alheio enquanto grava. “O voo é deles também”, diz. “Então tento não incomodar ninguém.”
As regras de bagagem de mão ainda exigem que líquidos sejam transportados em frascos de até 100 ml e dentro de um saco plástico transparente e vedado. Mas, segundo Barratt, a maioria dos itens de maquiagem se enquadra nesses limites, como base e corretivo, e por isso ela raramente enfrenta problemas para levar tudo.
“Você se surpreende com a pouca quantidade de produtos líquidos que realmente usa numa rotina”, explica. “Se for sensata, por exemplo, o contorno — basta levar um em bastão, que nem precisa ir na sacola de líquidos.”
Ela também organiza tudo de maneira compacta: pincéis numa bolsinha, espelho preso atrás do celular e um tripé para estabilidade. Às vezes, quando a iluminação não ajuda, ela até se arrisca com um bastão de selfie.
“Filmar é a parte mais difícil”, admite. “As pessoas podem te olhar estranho quando percebem que você é criadora de conteúdo. Mas… e daí? Você nunca mais vai vê-las.”
E acrescenta: “Se você tem ansiedade e quer conseguir enfrentar um voo, ache algo que te distraia. Se for fazer maquiagem no avião, então faça. Você não está prejudicando ninguém.”
Para Barratt, além do potencial de viralizar, a tendência reflete uma mudança cultural. “Acho que mostra que as pessoas estão se importando menos com o que os outros pensam delas”, avalia. “Gravar em público já exige uma boa dose de confiança, porque sempre vai ter quem julgue. Mas sinto que as pessoas estão cada vez mais confiantes.”
Restrições para filmar e reações
A maioria das companhias aéreas permite que passageiros filmem ou tirem fotos com celulares ou pequenas câmeras, desde que não comprometam a segurança do voo nem atrapalhem a tripulação.
Segundo a política da United Airlines, clientes podem registrar momentos pessoais a bordo, mas não é permitido filmar ou fotografar outros passageiros ou funcionários sem consentimento. American, Delta e Southwest adotam políticas semelhantes.
Recentemente, a Delta atualizou suas orientações para fotos e vídeos em voo, destacando:
“Reconhecemos que registrar conteúdo faz parte da experiência de viagem de nossos clientes. No entanto, isso não deve comprometer a segurança ou o bem-estar dos demais passageiros ou funcionários. Pedimos que tenham cuidado ao incluir funcionários da Delta no conteúdo, sempre com respeito.”
Ainda assim, o aumento de gravações para redes sociais ocorre num momento em que as companhias aéreas relatam um crescimento nos casos de comportamento indisciplinado a bordo.
Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), houve um passageiro indisciplinado a cada 568 voos em 2022 — um aumento em relação a um a cada 835 voos em 2021. Até maio de 2025, a Administração Federal de Aviação (FAA) já havia registrado 545 relatos de comportamento inadequado neste ano.
Embora esses números tenham caído mais de 80% desde o pico em 2021, a FAA afirma que ainda há muito a ser feito. Interferir com as funções da tripulação é uma violação da lei federal, com multas de até US\$ 37 mil por infração. Um único incidente pode gerar várias penalidades.
Em resposta à CNN, a FAA reforçou que todos os passageiros devem “seguir as instruções de segurança da tripulação a bordo”.
Funcionários da Delta também podem pedir aos passageiros que respeitem sua privacidade e evitem incluí-los em conteúdos. Porém, a empresa esclareceu que a tripulação não pode forçar um passageiro a parar de filmar nem removê-lo do voo apenas por ter tirado uma foto ou feito um vídeo.
Esse posicionamento vem após diversos episódios recentes, como o de uma comissária viralizando em um voo da Delta, de Boston a West Palm Beach, ao ser fotografada usando um broche com a bandeira da Palestina.
Dito isso, muitos comissários, na verdade, adoram a tendência. Em um dos vídeos de GRWM no avião, da usuária @jazhand, diversos membros de tripulação comentaram que gostam de ver os passageiros se maquiando durante o voo.
“Como comissária, adoro ver as pessoas fazendo maquiagem no avião”, comentou @m.burr. “Acho tão chique, fico querendo saber qual é cada produto.”
Outra usuária, @flexlex18, concordou: “Assino embaixo, quero saber a técnica e o motivo de cada escolha.”
Mas, embora alguns tripulantes fiquem admirados -- ou, no mínimo, não se incomodem com as gravações --, alguns espectadores no TikTok não são tão compreensivos.
Num vídeo postado em 2024 por @kaayywright, em que ela aparece fazendo uma maquiagem completa em pleno voo, os comentários foram bem divididos. A gravação acumulou mais de 4,5 milhões de visualizações e quase 120 mil curtidas, mas também gerou críticas.
“Nojento”, escreveu um usuário. “Com certeza tentaria te fazer ser expulsa”, disse outro. “Isso me irritou”, acrescentou mais um.
Teve até quem sugerisse que o vídeo fosse uma “isca para gerar raiva”, enquanto outro comentou: “O cara lá atrás já não aguenta mais.”
Higiene a 11 mil metros
Além disso, nem todo mundo está convencido de que aplicar maquiagem no meio do voo seja a melhor ideia para a pele — especialmente em termos de higiene.
Mesas de bandeja, fivelas de cinto e apoios de braço estão entre as superfícies mais contaminadas do avião. Um estudo de 2019, conduzido pelo Diet Detective e o Hunter College NYC Food Policy Center, revelou que até a água da torneira de algumas companhias aéreas dos EUA continha níveis variados de E. coli e coliformes.
Porém, com a maioria das aeronaves agora oferecendo lenços antibacterianos e as rotas longas passando por limpezas mais rigorosas, fazer maquiagem no avião talvez não seja muito mais arriscado do que em casa.
A dermatologista Sapna Palep, diretora médica da Spring Street Dermatology, em Nova York, entende o apelo da tendência, mas aponta algumas preocupações: “É ótimo ver que, nesses voos longos, as pessoas estão cuidando da pele”, diz. “Mas se você tem tendência a acne ou rosácea, pode ser um pesadelo.”
Segundo ela, o ambiente típico da cabine — com baixa umidade e ar reciclado — deixa a pele frágil e ressecada. “A camada externa da pele, o estrato córneo, fica mais frágil e se rompe facilmente”, explica. “A hidratação é essencial antes de aplicar maquiagem.”
Palep alerta que as mudanças bruscas de umidade e exposição solar durante a viagem podem agravar condições pré-existentes. Por isso, recomenda cuidados extras com higiene e skincare. “Essas tendências são ótimas”, ela diz, “mas precisam ser adaptadas para cada tipo de pele.”
Seu conselho? Mantenha a simplicidade. “Embarque com o rosto limpo. Na última hora antes do pouso, aí sim se produza”, sugere. “Nem precisa ir ao banheiro — basta ter bons lenços demaquilantes e limpar bem o rosto antes de reaplicar a maquiagem.”
Ela também recomenda evitar tônicos ou lenços com muito álcool, e prefere bases leves e maquiagem mineral para peles sensíveis. Seus produtos favoritos para voos incluem um hidratante com ceramidas e um pequeno frasco de spray com clorexidina para higienizar o rosto antes da maquiagem.
No fim das contas, seja como ferramenta de distração, ritual de autocuidado ou conteúdo para as redes, os GRWMs a bordo são mais um exemplo de como o TikTok continua a moldar hábitos de viagem e a desafiar as expectativas tradicionais sobre como voar deve ser.
Se quiser experimentar, só lembre de ter bom senso e evitar filmar outros passageiros ou tripulantes. Ninguém quer viralizar só por ter aparecido exausto no vídeo de outra pessoa.
E, embora a cabine não seja o lugar mais convencional para esfumar sombra ou aplicar contorno, talvez desembarcar deslumbrante compense a turbulência.



