Na China, cidades que recriam o passado viram febre nas redes sociais
Atrações de "imitação histórica" surgem por todo o país e atraem turistas nacionais e estrangeiros em busca de imersão cultural

A China tem orgulho de sua história. O único problema? Grande parte dela foi perdida em incêndios, guerras, saques e revoluções.
Por isso, entram em cena os fanggu, atrações de "imitação histórica". Por todo o país, vilarejos inteiros recriando o passado foram construídos do zero. De palácios reluzentes a majestosas avenidas, cada detalhe é cuidadosamente elaborado. Videiras são transplantadas em grande quantidade e telhas são quebradas mecanicamente. O resultado é uma grandiosa — embora às vezes bizarra — fusão de história dinástica, arquitetura e geografia.
Os consumidores modernos estão "cada vez mais dispostos a pagar pelo valor emocional, buscando um envolvimento mais profundo e significado cultural por meio de experiências imersivas", disse Yang Jinsong, diretor do Instituto Internacional da Academia de Turismo da China, ao veículo de mídia estatal People's Daily em junho.
Para muitos viajantes nacionais frustrados com uma economia estagnada, os vilarejos fanggu parecem oferecer a escapada perfeita. Uma vez lá, por uma média de apenas US$ 15 (cerca de R$ 76), é possível escolher entre centenas de fantasias tradicionais prontas, conhecidas como Hanfu.
Por mais US$ 10 (cerca de R$ 51), o pacote completo é liberado: maquiagem, acessórios, fotografia profissional e edição de pós-produção. Com o objetivo de alcançar a estética clássica de rosto pálido e lábios vermelhos, essas sessões de fotos se tornaram sensações virais na popular plataforma Xiaohongshu (RedNote).
E agora, visitantes estrangeiros também estão aderindo. O Chinamaxxing — um movimento impulsionado pelas redes sociais que populariza práticas e estéticas chinesas — convenceu muitos jovens a planejar férias na China. Mas como são, de fato, essas cidades fanggu?
Gubei Water Town (Pequim)

Esqueça Veneza: Gubei tem canais, ruas de paralelepípedos, casas de chá iluminadas por lanternas e casas de telhas cinzas. Situada ao pé do trecho da Grande Muralha de Simatai, é o refúgio perfeito após uma caminhada intensa. Aproveite um passeio de barco, com as margens com salgueiros centenários. Passeie pela praça central. Como seu guia provavelmente dirá: afinal, a vida às margens do rio durante a dinastia Qing não era incrivelmente romântica?
Gubei é apresentada como um típico vilarejo aquático de Jiangnan. Pouco importa que esse tipo de povoado jamais tenha existido no norte da China — afinal, Jiangnan significa literalmente "ao sul do rio Yangtzé", a cerca de 1.300 km dali.
Gubei não é uma relíquia antiga. Foi construída em 2014 por uma empresa apoiada pelo Estado. Esse investimento de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) combinou duas das atrações mais amadas da China: a Grande Muralha, no norte, e as cidades aquáticas, no sul. O que antes era um voo de 2h a partir de Pequim, agora é uma viagem de carro de 2h.
Nos últimos anos, Gubei conquistou os corações — e as carteiras — tanto de moradores de Pequim quanto de turistas estrangeiros curiosos. Plataformas de viagem como a Klook agora combinam a Grande Muralha e a cidade aquática em um passeio de um dia, prometendo uma "fuga da agitação da cidade com uma viagem a uma vila antiga". Até julho de 2026, o destino recebeu mais de 10 mil reservas e 2.200 avaliações na plataforma, alcançando uma nota média de 4,9.
E se os visitantes quiserem passar a noite? Empresas estatais administram toda a acomodação dentro do complexo, desde pousadas simples até resorts de luxo. Algumas propriedades cobram até US$ 500 (cerca de R$ 2.550) por noite. Mas, após escalar a Grande Muralha, descansar em uma vila iluminada por lanternas pode ser a maneira perfeita de relaxar.
Para a maioria dos turistas, a falta de história de Gubei não é um impedimento. Alguns, no entanto, gostariam que os passeios fossem mais transparentes.
Minyada "Minnie" Chotichaicharin, uma estudante de intercâmbio tailandesa, visitou Gubei em abril. Seu passeio de 2h foi repleto de artesanato, arco e flecha, fontes termais e um clássico passeio de barco.
Mas, após a visita, ela descobriu que Gubei não era tão antiga quanto parecia. A estudante admite ter ficado decepcionada. "Não me importaria que fosse reconstruída", ela diz, "mas é difícil não se sentir enganada."
Datang Everbright City (Xi'an)
Por volta de 750 d.C., Xi'an era a maior e mais cosmopolita cidade do mundo. Como porta de entrada da Rota da Seda, fervilhava com mercadores de toda a Ásia, Europa e Oriente Médio. Hoje, Xi'an é fielmente chinesa. Ao longo da rua de pedestres, turistas posam com estátuas de famosos poetas da Dinastia Tang, enquanto uma padaria de alto padrão exibe um dragão feito inteiramente de baguetes.
Mas agora, Xi'an, que foi a capital da China por mais de um milênio, construiu sua própria "cidade que nunca dorme".
Repleta de pagodes vermelhos e pulsando ao ritmo da música eletrônica chinesa, a Datang Everbright City é um frenético renascimento da Era de Ouro da Dinastia Tang. A ampla avenida de pedestres, com 2,1 quilômetros de extensão, deixa de lado os antigos toques de recolher da China imperial e hoje atrai quase 75 milhões de visitantes por ano. Se alguns chegam interessados na história, muitos outros se deixam seduzir pela intensa vida noturna banhada por luzes de neon.
A mais recente obsessão? Casamentos de "viagem no tempo". A maratona de filmagens exige três conjuntos de figurinos: hanfus vermelho-rubi da dinastia Tang, elegantes qipaos da era republicana e modernos vestidos brancos de estilo ocidental. Os cinegrafistas acompanham os casais por pavilhões iluminados por lanternas e multidões agitadas, criando uma montagem romântica que atravessa vários séculos.
O Mr. Zhou Wedding Studio, sediado em Xi'an, oferece pacotes premium elaborados para realizar esses sonhos. O serviço começa com uma consulta formal com o roteirista, seguida de uma apresentação ao diretor, maquiadores, estilistas, videografistas e um elenco completo.
Para reproduzir uma cerimônia de casamento chinesa antiga, atores servem chá, tocam trompetes e realizam uma dança do leão coreografada. As festividades culminam com a chegada do casal — o noivo galopando em um cavalo e a noiva caminhando na ponta dos pés entre fogos de artifício. A cena então é cortada, avançando no tempo até o casal se "reencontrar" em outro século, frequentemente como namorados uniformizados em uma universidade contemporânea.
"Viajar no tempo" é caro. Alguns usuários do Xiaohongshu admitem ter sido repreendidos pelos pais por gastar um salário mensal inteiro no pacote. Mas, para uma geração de recém-casados criada com dramas históricos chineses, muitos consideram o investimento válido.
Cidade Antiga de Kashgar (Xinjiang)

Estendendo-se pelos desertos escaldantes da Bacia de Tarim até os picos cobertos de neve das Montanhas Tian Shan, a região de Xinjiang, no noroeste da China, foi historicamente um cruzamento de comércio e cultura.
Xinjiang abriga várias minorias étnicas muçulmanas da China, principalmente os uigures. Nos últimos anos, alegações de graves violações de direitos humanos, incluindo detenções em massa contra os uigures e outras minorias muçulmanas, têm dominado a cobertura internacional da região. O governo de Pequim nega qualquer irregularidade.
Dentro da China, Xinjiang é vista por muitos de fora da região como um "faroeste". Investidores chineses capitalizaram sobre seu legado da Rota da Seda, reposicionando a região como uma colorida "janela para o mundo". A estratégia está funcionando. Em 2025, Xinjiang registrou 323 milhões de turistas, totalizando mais de US$ 53 bilhões (cerca de R$ 270 bilhões) em receita.
Muitos viajantes vão a Kashgar, um oásis com dois milênios de história. Mas a Cidade Antiga de Kashgar — hoje sua principal atração — foi demolida e reconstruída há mais de uma década. Embora seus labirínticos becos permaneçam, Kashgar hoje é uma réplica higienizada e modernizada do que já foi o centro da vida cultural uigure.
A popularidade de Kashgar também está crescendo entre jovens viajantes estrangeiros.
Edward Zhou, um estudante de Washington, considerou sua visita "surreal". Apesar da fachada de "parque temático" da Cidade Antiga, ele disse sentir que Kashgar oferecia um fragmento de história que ele, e muitos viajantes, nunca haviam encontrado em outro lugar.
No fim das contas, o veredicto parece dividido: enquanto alguns visitantes apreciam a tão necessária fuga oferecida pelos destinos fanggu da China, outros se frustram com a fantasia planejada. Uma coisa, porém, está clara — as redes sociais adoram.



