A safra como garantia: o pagamento barter volta a crescer.
O financiamento sem dinheiro imediato garante o custeio da próxima safra diante da alta dos custos e juros ainda altos. Dentro da cooperativa Comigo o pagamento em barter, ou permuta, representa 40% volume de negócios.

Uma forma de pagamento antiga está voltando com força no meio rural. O barter, ou operação de troca, é uma modalidade de financiamento onde o produtor adquire sementes, fertilizantes e defensivos e dá, como pagamento, uma parte da futura produção. Sem a necessidade de dinheiro imediato a modalidade ajuda no custeio da próxima safra.
Em entrevista à CNN o coordenador técnico comercial da cooperativa Comigo, Beckembauer Ferreira, detalhou o cenário de gestão de riscos sobre os quase 14 mil cooperados, agricultores e pecuaristas, e uso do barter. "Diante da instabilidade, e de margens cada vez mais apertadas, a regra é não perder o foco na produtividade investindo com cautela e ainda mais planejamento", diz o coordenador.
Uma das ações da Comigo é importar os fertilizantes e revender aos cooperados. A quinta maior cooperativa do país diz que não se antecipa a repassar os aumentos aos cooperados, como já acontece em alguns setores. “Vamos continuar fazendo o possível para tentar diminuir os custos da atividade agropecuária e garantir tanto a produção quanto a produtividade. Novas compras, nos preços atuais e mais elevados, devem começar só a partir de julho com o planejamento da safra de verão 2026/27."
“Os custos, tanto dos insumos quando dos financiamentos, estão muito elevados enquanto as commodities seguem com preço baixo. Mas pode ser que daqui há dois meses esse cenário mude. Por isso a compra de insumos deve ser feita com cautela. Se comprados no 'valor de hoje' esse preço não vai mudar e pode pesar muito na conta”.
Para facilitar o acesso a insumos essenciais são oferecidas três modalidades de pagamento aos cooperados: à vista, a prazo em reais ou em barter, que na tradução literal significa permutar e se refere a troca direta por parte da safra.
Na prática o produtor fixa antecipadamente o preço do grão que será entregue na colheita e garante o insumo hoje, sem exposição às oscilações das taxas de crédito.
Por isso, antes mesmo da guerra mas já com as taxas elevadas de juros, a modalidade de barter foi a que mais cresceu dentro da Cooperativa Comigo: 40% das aquisições de insumos nesse ciclo estão sendo feitas por troca ante os 10% em períodos de maior estabilidade econômica, segundo o coordenador.
A escolha entre as três opções de financiamento não é feita ao acaso
A equipe técnica da cooperativa faz uma análise individualizada para cada produtor: “a equipe agronômica, que está mais próxima do cooperado, no dia a dia e vive aquele momento, que tem a noção clara de qual é a melhor opção para e orienta o produtor”. Isso significa a análise individual dos talhões com nível de fertilidade do solo, necessidade real de tratamento de sementes e potencial produtivo de cada variedade.
Apesar de relatos de vendas aquecidas de insumos, tentando antecipar e se proteger de novos aumentos, Beckembauer ressalta que os cooperados são orientados a evitar decisões precipitadas. “Todo negócio feito 'afoito' é perigoso. A gente deve planejar muito bem para tomar as melhores decisões”.
O coordenador técnico de compras cita algumas das recomendações práticas que tem sido feitas aos cooperados:
Ureia: não comprar. O Oriente Médio, principal fornecedor do insumo, atravessa extrema instabilidade que mantém o preço elevado demais. “Não é o momento de adquirir esse produto.”
Fósforo: antecipar a compra. O custo da fonte fosfatada segue em alta devido ao fechamento de fábricas e ao custo elevado do enxofre na produção. A recomendação é garantir o produto antes de novas altas.
Cloreto de potássio: dentro da normalidade. Sem alta expressiva de preço até o momento, não há urgência.


