Agrolend aposta nos “vencedores” para manter inadimplência baixa

Empresa deixa de lado pequeno produtor para atender indústrias, cooperativas e grandes distribuidores. A intenção é dobrar faturamento

Fernanda Pressinott, da CNN Brasil, São Paulo
Compartilhar matéria

Em meio a um cenário contraditório no agronegócio brasileiro, com safra recorde de um lado e aumento das recuperações judiciais de outro, a fintech Agrolend tem conseguido expandir sua carteira mantendo níveis de inadimplência muito abaixo da média do setor. 

A empresa, fundada em 2020, encerrou 2025 com uma carteira de crédito de R$ 968 milhões e projeta mais do que dobrar esse volume em 2026, chegando a R$ 2 bilhões. No período, registrou lucro líquido ajustado de R$ 32 milhões e patrimônio líquido de R$ 502 milhões, com alavancagem considerada conservadora de 1,9x. 

O dado que mais chama atenção, porém, é a qualidade da carteira: a inadimplência acima de 90 dias ficou em 0,68%, bem abaixo da média de 12% do mercado, segundo o Banco Central. 

Da ponta ao topo da cadeia 

No início, a Agrolend operava financiando produtores rurais no momento da compra de insumos, como fertilizantes, sementes e defensivos. 

Nesse modelo, o produtor comprava na revenda, que por sua vez adquiria produtos de grandes fornecedores. A fintech estruturava operações via CPR (Cédula de Produto Rural), repassava os recursos à revenda e o pagamento era feito após a colheita. A revenda assumia o risco em caso de inadimplência. 

Com o tempo, a estrutura evoluiu. A empresa trouxe a indústria para dentro da operação, criando uma cadeia de garantias mais robusta: fornecedores passaram a avalizar revendas, que por sua vez avalizavam produtores. 

Mais recentemente, a mudança foi ainda mais significativa: a empresa direcionou o foco para indústrias, cooperativas e grandes distribuidores, deixando em segundo plano o pequeno produtor. 

Segundo os executivos, essa transição foi determinante para a queda da inadimplência. 

A lógica por trás da inadimplência baixa 

O movimento da Agrolend acompanha uma leitura específica do momento do agro brasileiro. 

De acordo com André Glezer, o setor vive uma “dicotomia”:  “Ao mesmo tempo, você tem área plantada crescendo, produção recorde histórica e setores como o etanol de milho voando. Por outro lado, há recuperações judiciais e inadimplência em níveis recordes.” 

Na visão da empresa, isso reflete a estrutura altamente pulverizada do agro brasileiro. “Você tem empresas super capitalizadas, com baixo endividamento e alta eficiência. Tem uma camada intermediária equilibrada e uma cauda da cadeia que está mal”, afirma o executivo. 

Estudos do setor mostram que cerca de 10% a 15% dos produtores não conseguem cobrir seus custos, o que ajuda a explicar o aumento das dificuldades financeiras. 

A estratégia da Agrolend foi se posicionar justamente junto ao grupo mais eficiente.  “A gente entendeu que o agro ia consolidar e começou a se desconectar da cadeia mais alavancada para trabalhar com os melhores clientes”, diz Glezer. 

Ao financiar empresas mais diversificadas e menos dependentes de uma única safra ou região, o risco de crédito diminui. 

Crescimento acelerado com tíquete maior 

A mudança de perfil também elevou o tamanho médio das operações. Nos primeiros anos, o valor médio financiado girava entre R$ 400 mil e R$ 500 mil. Hoje, esse número está próximo de R$ 5 milhões por operação. 

Esse aumento reflete o foco em empresas maiores e também amplia a escalabilidade do modelo de negócios. Além disso, clientes da Agrolend têm apresentado crescimento expressivo, em alguns casos, entre 30% e 40% ao ano, ao ocupar o espaço deixado por concorrentes que enfrentaram dificuldades financeiras. 

Menos bancos, mais espaço para fintechs 

Outro fator que favorece a expansão da Agrolend é a retração dos principais financiadores tradicionais do agro. 

Segundo Alan Glezer, a demanda por crédito segue forte, mas a oferta diminuiu. “Os bancos cresceram muito no agro, mas agora estão com menos apetite. Ao mesmo tempo, o capital internacional ficou mais caro e as indústrias também ficaram mais cautelosas.” 

Além disso, o mercado de capitais — com instrumentos como Fiagros e CRAs — também passou por um período de retração, reduzindo ainda mais a oferta de recursos. 

O resultado é um desequilíbrio: enquanto a demanda segue aquecida, a oferta de crédito diminui, criando espaço para novos players. 

Estrutura financeira e eficiência 

A companhia encerrou 2025 com R$ 591 milhões em caixa e títulos livres e captação total de R$ 1,025 bilhão, distribuída entre LCAs, CDBs e depósitos interfinanceiros. 

A gestão de ativos e passivos também é um dos pilares: o prazo médio da carteira é de cerca de 120 dias, enquanto os passivos têm prazo médio de 340 dias, garantindo folga de liquidez, segundo o executivo. 

Além disso, a empresa mantém cobertura de provisões equivalente a 386% da inadimplência, reforçando a proteção da carteira.  “Temos hoje uma estrutura de custos preparada para uma operação de escala significativamente maior”, afirma Alan Glezer. 

Para 2026, a projeção é de expansão da carteira para R$ 2 bilhões e lucro estimado de cerca de R$ 70 milhões.

“Patrimônio é a última linha de defesa. Construímos capital antes de crescer a carteira”, diz André Glezer.  “Vamos dobrar a carteira com a mesma estrutura de capital e os mesmos controles. Isso é escala com disciplina”, completam os executivos. 

Papel das cooperativas e do crédito público 

Apesar de ter reduzido a atuação direta com pequenos produtores, a Agrolend avalia que esse público continua atendido principalmente por cooperativas e pelo crédito subsidiado do Plano Safra. 

Na visão da empresa, cooperativas têm vantagem competitiva por estarem mais próximas do produtor e operarem toda a cadeia. 

Origem financeira, não agrícola 

Os fundadores da Agrolend não vêm do agronegócio. Com formação em engenharia e carreira no mercado financeiro, identificaram no setor uma lacuna clara: a falta de crédito eficiente. 

A partir dessa leitura, criaram a empresa com a proposta de atuar como um banco especializado no agro. 

Para a Agrolend, o atual momento do agronegócio brasileiro não é apenas desafiador — é também uma oportunidade. A combinação de consolidação do setor, retração dos grandes financiadores e crescimento dos players mais eficientes cria um ambiente favorável para modelos de crédito mais seletivos. 

Disputa societária encerrada 

A empresa também enfrentou uma disputa societária recente envolvendo a ex-sócia Valéria. Segundo os executivos, o desligamento ocorreu há cerca de um ano, com aprovação da governança e dos investidores. 

“O processo foi aprovado por todo o conselho e investidores. Houve uma disputa judicial, mas todos os processos já foram julgados e encerrados”, afirmam. 

De acordo com a companhia, não há mais litígios em andamento, e a ex-sócia permanece apenas como acionista.