Após relatos de alta no diesel, CNA pede aumento da mistura para 17%

Entidade afirma que produtores já relatam aumento no combustível de até R$ 1 e defende elevação da mistura de biodiesel diante da escalada do conflito no Oriente Médio

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
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A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) decidiu encaminhar um ofício ao MME (Ministério de Minas e Energia) pedindo a elevação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel para B17, diante da escalada do conflito no Oriente Médio e dos primeiros relatos de pressão sobre os custos no campo.

“Após o início dos conflitos, o preço do petróleo bruto Brent chegou a US$ 84 e acumulou alta de até 20% em relação ao final de fevereiro. [...] No novo quadro da geopolítica mundial, o avanço imediato para 17% (B17) surge como medida razoável para a realidade nacional”, diz o texto assinado pelo presidente da entidade, João Martins da Silva Júnior, ao qual a CNN teve acesso.

Em entrevista à CNN, o diretor técnico da entidade, Bruno Lucchi, produtores rurais já relatam aumentos relevantes no preço do combustível nas bombas, mesmo sem reajuste oficial.

“Recebi hoje pela manhã relatos de produtores apontando aumento de até R$ 1 no preço do diesel. Isso é um valor desproporcional pelo período. Ajustes podem acontecer, sem sombra de dúvida, mas um aumento dessa magnitude causa uma aflição muito grande no campo”, afirmou.

Para ele, o movimento pode refletir especulação no mercado e gerar uma reação antecipada dos produtores.

“Se você informa que vai faltar produto ou coloca um preço muito acima do que o mercado está mostrando, pode criar uma demanda artificial. Algo semelhante ao que vimos na pandemia, quando se dizia que iria faltar arroz e as pessoas começaram a comprar mais, o que acabou gerando o próprio problema”, disse.

Diante desse cenário, a entidade decidiu pedir ao governo a ampliação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel como forma de reduzir a exposição à volatilidade do petróleo.

“O que nós vamos pedir é que, de forma preventiva, se amplie essa mistura. Hoje ela está em 15%. Estava previsto um aumento agora para 16%, mas isso não aconteceu. Em função do conflito, nós já estamos solicitando que se eleve diretamente para 17%”, afirmou Lucchi.

Segundo ele, a medida poderia ajudar a conter impactos semelhantes aos observados em crises anteriores.

“Se a gente usar o passado como referência, podemos nos antecipar a esse tipo de problema. Na guerra entre Rússia e Ucrânia tivemos um aumento do barril de petróleo que acabou gerando um reflexo de cerca de 23% de aumento no diesel no Brasil”, disse.

Lucchi afirmou que a ampliação da mistura também é favorecida pelo momento da produção agrícola brasileira.

“Nós estamos em plena colheita da soja brasileira, uma colheita recorde. Aumentar essa mistura do biodiesel no diesel não vai onerar o consumidor brasileiro. Pelo contrário, pode até reduzir um pouco os possíveis aumentos de preços”, afirmou.

A proposta da entidade será levada ao governo às vésperas da próxima reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), prevista para a próxima semana.

Custos preocupam mais que exportações

Embora acompanhe os possíveis impactos da guerra sobre o comércio internacional, a CNA avalia que, no curto prazo, o principal risco para o agro brasileiro está no aumento dos custos de produção.

“O que mais chama atenção neste momento é a questão do diesel. O produtor está colhendo a primeira safra ou plantando a segunda. As operações mecânicas estão

Segundo ele, a alta do petróleo no mercado internacional já acendeu o alerta no setor.

“O barril saiu de cerca de US$ 70 e chegou a US$ 84. Isso é um aumento de mais de 20%. Isso impacta não só os fretes internacionais, mas também toda a logística do país”, disse.

Outro ponto de preocupação envolve os fertilizantes nitrogenados, cuja produção é concentrada na região do Golfo.

“A região responde por 18% das nossas importações de ureia. Desde o início do conflito até hoje já tivemos um aumento de 33% na tonelada da ureia no Brasil, o que é um valor significativo”, afirmou.

Apesar da pressão sobre os custos, a CNA avalia que o impacto direto sobre as exportações brasileiras deve ser limitado no curto prazo.

Segundo Lucchi, o comércio do Brasil com o Irã somou cerca de US$ 3 bilhões em 2025, sendo 99% composto por produtos do agronegócio.

“Nesse total, o principal produto é o milho, que representa cerca de 68% das exportações para o Irã. No ano passado exportamos cerca de 40 milhões de toneladas de milho e aproximadamente 9 milhões foram para o mercado iraniano”, afirmou.

Ele ressaltou que o impacto imediato sobre as vendas tende a ser limitado.

“O grosso das exportações de milho para esse mercado ocorre entre setembro e janeiro. Ou seja, o volume maior não é agora”, disse.

Para a entidade, no entanto, a evolução do conflito ainda precisa ser acompanhada de perto, sobretudo pelos possíveis efeitos sobre energia, fertilizantes e logística global.