Arroba do boi gordo dá salto e reverte movimento de queda em SP
Preço do boi gordo reage a oferta restrita e a dificuldade dos frigoríficos em completar as escalas de abate Movimento pode ser pontual mas não muda a tendência de alta na pecuária com redução dos rebanhos

Com a cota de exportação de carne bovina para a China praticamente preenchida as indústrias frigoríficas dizem que vão reduzir o ritmo de trabalho. O consumo doméstico de carne bovina segue enfraquecido. Mesmo com todas essas premissas o preço pago pela arroba registra alta na maioria das praças pecuárias esta semana.
A oferta restrita de boi gordo e a dificuldade dos frigoríficos em completar as escalas de abate elevaram o poder de negociação dos pecuaristas. Na terça-feira (21) o indicador Cepea registrou R$ 342,45 para a arroba em São Paulo, ante R$337,10 no dia anterior, no pagamento à vista, com valorização de 5 reais em um dia. A prazo, o preço pago no estado chega a R$ 346,59, segundo Cepea.
A cotação da arroba chegou a registrar queda de mais 3,5% nos primeiros dias de julho. Com a reversão do movimento acumula agora alta de 1,8% no mês. O Cepea também registrou alta de 5 reais em Rio Verde (GO) e no Triângulo Mineiro, refletindo a dificuldade das indústrias em completar as escalas de abate.
Esse é o preço do boi comum, sem China mercado para de pagar o ágio
O preço do boi gordo comum, fora do padrão-exportação, é o mesmo pago pelo "boi-China" no estado de SP. As indústrias que exportam ao país asiático costumam pagar ágio, um pouco a mais, pela arroba do animal dentro dos padrões exigidos pelos chineses e abatido com menos de 30 meses.
Mas com o fim da cota, e redução das vendas, o mercado parou de pagar esse prêmio que, em outras épocas, chegava a R$ 5 ou mais.
Para Hyberville Netto, especialista em mercado pecuário da HN Agro, embora as exportações para a China continuem exigindo monitoramento, com projeções de queda de até 10% na média diária dos embarques em relação aos recordes do ano passado, o setor avalia que o mercado global tem capacidade de redirecionar fluxos.
"Mecanismos como triangulações comerciais via Hong Kong, aumento na demanda de países vizinhos (como Argentina e Uruguai) e fortalecimento de outros destinos importadores devem mitigar o impacto das tarifas", diz Netto.
Mercado futuro do Boi precifica alta para arroba até o fim do ano
No mercado futuro o movimento também é de recuperação. Ainda distante da melhor cotação do ano (R$ 372,00 registrados em abril) o contrato com vencimento em dezembro é precificado a R$ 370,00. Reforçando o viés positivo com aumento do consumo interno, típico de fim de ano, e retomada das compras chinesas dentro da nova cota a ser preenchida em 2027.
"O cenário daqui para a frente é de um mercado mais sustentado e ganhando força. Acredito que a pressão maior sobre a arroba tenha ficado para trás. A questão da cota da China não está 100% resolvida, mas a partir de outubro o mercado já passa a negociar o gado focado na virada do ano e na abertura da nova cota", conclui Hyberville Neto.
Meca do boi-China Mato Grosso sente mais o efeito das medidas de salvaguarda
Levantamento feito pelo Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária) mostra que a arroba do boi gordo mato-grossense sentiu mais a desvalorização nos últimos dias aumentando o diferencial de base para São Paulo.
O termo técnico é usado para falar da diferença de preços entre os estados. Enquanto em São Paulo paga mais de R$ 340 pela arroba, em Mato Grosso ela é negociada a R$ 315, em média. São R$ 25 de diferença.
Ao longo de 2025, por diversas vezes, MT teve a arroba mais cara que em SP justamente por causa das exportações.
Como o estado possui elevada participação da China em seus embarques de carne bovina, o mercado pecuário em Mato Grosso é mais sensível às oscilações da demanda do país asiático e amplia os impactos sobre as cotações locais.
Segundo o coordenador de inteligência de mercado agropecuário do Imea, Rodrigo Silva, a entressafra chegou mais tarde esse ano e ajudou a impulsionar a entrega de animais nesse momento.
"O período seco demorou a se estabelecer, com ocorrência de chuvas atípicas em maio e junho em Mato Grosso, o que ajudou pecuaristas a segurarem o boi no pasto por mais tempo em busca de melhores preços. Agora, com a transição definitiva para a estiagem, a retenção na pastagem torna-se mais desafiadora, embora regiões com maior vigor de forragem ainda tentem manter essa estratégia", diz Rodrigo.
Sobre a oferta saindo dos confinamentos e que pode pressionar as cotações Rodrigo explica que o giro de meio de ano não tem apresentado grandes volumes de confinamento em comparação ao início do ano. "O patamar elevado dos preços de reposição, somado à cautela da indústria e dos produtores, freou a intensificação dos confinamentos para este período, gerando uma expectativa de um giro mais 'morno', finaliza Rodrigo.