Boa Safra vê procura por soja de ciclo longo diante de El Niño em 2026/27

Agricultores têm buscado um pacote mais básico de sementes para reduzir custos em momento de rentabilidade mais apertada por alta de preços de fertilizantes e combustíveis

Por Roberto Samora e Oliver Griffin, da Reuters
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A Boa Safra, empresa produtora de sementes que fornece para cerca de 10% da área ​plantada com soja no Brasil, tem visto uma procura maior por ​materiais que possibilitam um ciclo mais longo da lavoura, como forma de lidar com intempéries que podem ocorrer com o fenômeno climático El Niño.

Em entrevista à Reuters, o CEO e cofundador da Boa Safra, Marino Colpo, disse também que os agricultores que se preparam para a temporada 2026/27, com plantio a partir de meados de setembro no Brasil, têm buscado um pacote mais básico de sementes, para reduzir custos em momento de rentabilidade mais apertada por alta de preços de fertilizantes e combustíveis.

"Tem demanda grande ⁠por sementes que possam tolerar clima mais severo", ​disse Colpo, ao ser questionado pela Reuters sobre o impacto do fenômeno El Niño, que pode trazer menos ​chuvas para o Centro-Oeste, principal região produtora de soja do país.

Com uma semente de ciclo mais longo, a chance de ⁠a lavoura se recuperar após um período de seca é ⁠maior, explicou ele.

"Pelo fato da previsão do El Niño forte, tem muitos produtores diversificando um pouco ​o ‌portfólio e optando em alguns casos por materiais um pouco mais longos do que o normal", comentou. "Quando tem um material muito ⁠curto e toma dez dias de sol, ele é irrecuperável."

A Boa Safra, líder no setor, fornece sementes de soja para 5 milhões de hectares plantados no país, disse Colpo, de um total de cerca de 49 milhões semeados na temporada 2025/26 no Brasil, maior produtor ‌e ⁠exportador global da oleaginosa.

O ‌tratamento de sementes com produtos biológicos também ajuda o produtor a lidar com a seca, por promover uma germinação com vigor. Mas esses são materiais mais caros, ponderou.

"Percebemos vontade do produtor de comprar uma semente tecnologia mais barata", disse ele, notando que, ainda assim, ⁠o agricultor tem buscado materiais com tratamento com inseticidas e fungicidas, ⁠até pelas dificuldades com mão de obra na fazenda.

RISCO PARA MILHO

Se essa tendência de soja de ciclo mais longo ganhar força no país, a janela climática ‌para plantio de milho segunda safra, após a colheita da oleaginosa, ficaria mais curta, aumentando os riscos para o cereal, acrescentou Colpo, lembrando que nos últimos anos produtores adotaram a estratégia de soja de ciclo curto visando o milho.

O milho segunda safra atualmente responde pela maior parte do cereal colhido no Brasil, o terceiro produtor global e segundo exportador.

Na hipótese de ‌o produtor não conseguir plantar o milho na janela climática adequada, ele poderia migrar para o sorgo, disse Colpo, citando a cultura mais rústica, que vem sendo vista como eventual substituto do cereal como matéria-prima da indústria de etanol.

Embora a companhia ⁠venda também sementes de milho e sorgo, a soja representa ainda pouco mais de 80% da receita da Boa Safra, que vê oportunidades de expansão apesar da situação financeira mais difícil do setor agrícola, disse o CEO.

Em um momento no qual empresas de ​sementes entraram em recuperação judicial, a Boa Safra avalia aquisições. "Tem muita coisa barata, temos olhado muita coisa, estamos abertos a negociações, abertos ​a aquisições, queremos fazer aquisições, mas no preço certo, no preço de crise, em preço de custo de capital elevado", afirmou Colpo, citando que a alavancagem da companhia permitiria o movimento.

Ele disse que há apetite para alguma empresa que faça venda direta de sementes, permitindo verticalização de parte dos negócios.

(Por Roberto Samora e Oliver ‌Griffin; edição de Marta Nogueira)