Brasil paga 16% mais por fertilizante e compra menos, aponta CNA

Ureia subiu 40% e MAP, 20% durante o conflito no Oriente Médio; soja avançou menos de 1% no mesmo período; China ultrapassa Rússia e vira maior fornecedor do país

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
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O Brasil importou 4% menos fertilizante entre janeiro e abril deste ano, mas pagou 16% mais. O volume caiu de 7,7 milhões para 7,4 milhões de toneladas de nitrogenados e fosfatados em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o gasto saltou de US$ 3,7 bilhões para US$ 4,3 bilhões. Os dados são de um levantamento da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), publicados nesta quinta-feira (21).

O problema, segundo a CNA, não está só no preço do insumo. Está na perda de poder de compra do produtor. O preço médio da ureia subiu 40% durante o período de escalada do conflito no Oriente Médio.

“O dado mais preocupante não está apenas no preço dos fertilizantes, mas na deterioração da relação de troca. Para comprar a mesma quantidade de adubo, o produtor precisa entregar mais sacas de soja ou milho do que em anos anteriores”, diz a CNA.

O MAP (fosfato monoamônio), principal fosfatado usado na lavoura brasileira, ficou 20% mais caro no mesmo intervalo. Do outro lado, a soja avançou apenas 0,9% e o milho, 0,1%.

A relação de troca — quantas sacas o produtor precisa vender para comprar uma tonelada de adubo — está no pior nível desde 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou o maior choque de preços de fertilizantes da história recente, segundo o Campo Futuro CNA/Senar. Naquele ano, soja e milho operavam em níveis historicamente elevados e compensavam parte do impacto. Agora não.

"O produtor sente o impacto antes mesmo de plantar. São mais sacas para garantir o mesmo pacote tecnológico", afirma a entidade.

Os preços internacionais seguem em alta. Dados do Banco Mundial mostram que DAP, TSP, ureia e cloreto de potássio não voltaram ao patamar pré-2022 e voltaram a subir no início de 2026. "Depois do choque de 2022, o mercado não conseguiu voltar ao normal", diz o documento.

Com o encarecimento, o produtor mudou o que compra. As importações de SAM (sulfato de amônio) superaram, em alguns meses de 2026, as de ureia. No grupo dos fosfatados, TSP e SSP ganharam espaço como substitutos do MAP. São insumos menos afetados pelas rotas de abastecimento impactadas pelo conflito no Oriente Médio.

O mapa de fornecedores também mudou. Em 2024, a Rússia liderava com 26% do volume importado pelo Brasil e a China respondia por 20%.

Em 2025, a posição se inverteu: China chegou a 26% e Rússia recuou para 25%. Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%) completam o ranking. Já entre fevereiro e abril de 2026, o Turcomenistão, com 8%, passou a figurar entre os cinco maiores fornecedores — impulsionado pela demanda por potássicos. Os dados são do Comex Stat.

A dependência externa segue como vulnerabilidade estrutural: 93% dos fertilizantes consumidos no Brasil em 2025 vieram de fora.

“O Brasil possui alta dependência externa para a utilização de insumos. Cerca de 93% dos fertilizantes utilizados no Brasil foram importados. Qualquer choque externo, seja por conflito armado, sanção comercial ou crise logística, se traduz quase imediatamente em custo maior para o campo brasileiro", aponta a CNA.

O diagnóstico é claro: o produtor vai pagar ainda mais caro nos insumos até o fim do ano. As compras para a safra 2026/2027 se concentram no segundo semestre — justamente o momento em que esse ambiente de preços e incertezas vai definir a margem do produtor.