Cacau entra em 2026 em busca de equilíbrio
Preços em queda, oferta em recuperação e consumo pressionado desafiam o mercado global
Depois de atravessar um dos períodos mais turbulentos de sua história recente, o mercado global de cacau chega a 2026 cercado por incertezas. A combinação entre oscilação de preços, queda da demanda e uma oferta que começa a se recompor mantém produtores, indústrias e investidores em compasso de espera, à procura de um ponto de equilíbrio que preserve a rentabilidade sem corroer o consumo.
Segundo dados recentes da Organização Internacional do Cacau (ICCO), a expectativa atual é de um superávit global de cerca de 200 mil toneladas para 2026.
“Ainda que hoje o cenário seja mais positivo do ponto de vista da oferta de amêndoas, isso não traz tranquilidade para a cadeia como um todo. Extremos climáticos continuam impactando fortemente a cultura do cacau, e esse quadro pode mudar de uma hora para outra”, afirma à CNN Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Para 2026, o desafio central será evitar que o ajuste se transforme em um novo ciclo de desequilíbrio. “Se o preço cair demais, há desestímulo à produção. A oferta encolhe, o preço volta a subir e o consumo cai novamente. É um ciclo vicioso”, afirma. “A grande pergunta é qual é esse ponto de equilíbrio. Ninguém sabe responder.”
Preço de equilíbrio
Entre analistas internacionais, circula a avaliação de que preços em torno de US$ 5 mil por tonelada poderiam representar um nível mais próximo do equilíbrio. Mas a percepção varia conforme o elo da cadeia. “Se você perguntar ao produtor, ele vai dizer que não é suficiente. Se perguntar à indústria, ela também pode discordar. Os patamares de 2024 eram claramente insustentáveis”, afirma Losi.
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Na bolsa de Nova York, onde são negociados os preços internacionais do cacau, o valor dos contratos caiu abaixo de US$ 5 mil, depois de ter alcançado mais de US$ 13 mil em dezembro de 2024.
Em termos de demanda, a moagem de cacau na Europa caiu 8,3% em relação ao ano anterior, para 304,47 mil toneladas no quarto trimestre. Foi a sexta queda consecutiva e muito pior do que as previsões do mercado, que apontavam para uma baixa de 2,9%. O mercado europeu representa entre 40% e 45% do consumo global de cacau.
Os traders agora aguardam dados de moagem da América do Norte e da Ásia. Enquanto isso, o clima favorável nas principais regiões produtoras da África Ocidental, particularmente na Costa do Marfim e em Gana, deve aumentar as colheitas em fevereiro e março, com os agricultores também prevendo uma melhor qualidade da safra. Segundo eles, os cacaueiros já estão começando a florescer, um sinal positivo que pode impulsionar a próxima colheita de meio de temporada, prevista para o período entre abril e setembro.
Contexto global
A volatilidade atual tem origem no choque vivido entre o fim de 2023 e 2024. A partir de novembro de 2023, os preços começaram a subir de forma gradual, mas foi em fevereiro de 2024 que o mercado entrou em território inédito. Em abril daquele ano, a perspectiva era de um déficit global superior a 500 mil toneladas de cacau, o que levou as cotações a patamares históricos, entre US$ 10 mil e US$ 13 mil por tonelada na bolsa.
“Chegamos a níveis que nunca haviam sido vistos. E esses preços elevados se sustentaram ao longo de todo o ano de 2024”, frisa Losi. O movimento estimulou investimentos não apenas em países produtores tradicionais, mas também em novas fronteiras agrícolas, com projetos sendo anunciados em regiões até então fora do mapa global do cacau. São Paulo é um exemplo, como lembra a presidente da Aipic.
O repasse, no entanto, não foi imediato. Como a produção de chocolates e derivados ocorre com antecedência, os preços recordes só começaram a chegar ao consumidor no último trimestre de 2024. O impacto foi direto sobre a demanda. A indústria alimentícia e chocolateira reduziu compras, o que se refletiu em queda na moagem global, detalha Losi.
Em 2024, a retração ainda foi moderada. Já em 2025, com os preços elevados persistindo ao longo do primeiro semestre, a desaceleração ficou mais evidente. “Passamos a observar uma retração mais clara na moagem, especialmente nos grandes mercados que influenciam a bolsa: União Europeia, Ásia e Estados Unidos”, explica a executiva.
O ano de 2025 terminou com queda na moagem nos principais polos globais. No Brasil, a retração foi próxima de 15%. Na Europa, a redução ficou em torno de 9%, percentual menor, mas sobre um volume muito superior, já que o bloco é o maior produtor e consumidor de derivados de cacau do mundo, conforme dados coletados pela Aipic.
Esse enfraquecimento do consumo, aliado a uma perspectiva mais favorável de safra em países-chave, como Costa do Marfim e Gana, maiores produtores da amêndoa no mundo — além do avanço expressivo do Equador, que desponta como potencial segundo maior produtor global — mudou o sinal do mercado.
“Saímos de uma perspectiva de déficit de quase 500 mil toneladas, em meados de 2024, para um cenário de superávit. Isso ajuda a explicar a queda dos preços, que começou entre julho e agosto de 2025 e vem se aprofundando desde então”, diz Losi.
Particularidades brasileiras
No Brasil, o cenário reflete a dinâmica global, mas com particularidades relevantes. O país segue como importador líquido de cacau, mesmo com a queda da demanda. Em 2025, a indústria brasileira recebeu cerca de 186 mil toneladas de amêndoas, volume superior ao de 2024, mas a moagem recuou para pouco mais de 190 mil toneladas, diante da retração do consumo interno.
A comercialização doméstica de derivados — licor, manteiga e pó de cacau — caiu 18% em um ano, segundo a AIPC. “Se não fosse a exportação de derivados, provavelmente teríamos fechado uma planta industrial”, afirma a executiva.
Apesar do potencial de crescimento da produção nacional, impulsionado por investimentos em novas áreas e projetos de alta tecnologia em Estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia e Pernambuco, os resultados desses empreendimentos só devem aparecer daqui a três a cinco anos. Enquanto isso, o produtor enfrenta um cenário mais adverso, com preços internos abaixo da bolsa de Nova York desde agosto de 2025 — uma inversão rara em um país estruturalmente deficitário.
A instabilidade também atingiu o segmento de chocolates artesanais e de cacau fino. “As altas de preços trouxeram problemas muito sérios para o bean to bar. O produtor de cacau fino deixou de ser remunerado pelo diferencial, e o custo da manteiga quadruplicou. Muitos pequenos chocolateiros não conseguiram repassar isso ao consumidor”, diz Losi.
Para 2026, a avaliação é de que o setor seguirá sob pressão. “Pode parecer positivo ver o preço cair, mas isso também traz riscos importantes. Preço muito baixo é ruim para toda a cadeia, assim como preço muito alto. O desafio é encontrar um caminho sustentável”, afirma.
Segundo a executiva, além de ampliar a produção, o Brasil precisará trabalhar para expandir mercados e diversificar o uso do cacau. “Não adianta crescer oferta se a demanda não cresce. Tecnologia, novos produtos, novos usos e acesso a mercados internacionais são fundamentais”, pondera Losi.
Lado positivo
Apesar dos problemas do ciclo do cacau, a produção brasileira também surfa um momento de transição. Dados preliminares do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, na Bahia — principal polo nacional da cultura — a previsão é de crescimento do volume produzido de cacau em 5,3% em 2026 na comparação com 2025, sinalizando uma retomada gradual após anos de retração no setor agrícola regional.
Parte da expansão está ligada ao valor agregado do cacau no mercado nacional e internacional. No Brasil, o valor de produção quintuplicou entre 2020 e 2024, segundo o IBGE, saindo de R$ 3,22 milhões para R$ 15,26 milhões.
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